Esta semana, meus colegas da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (ACCIRS) fizeram circular no nosso grupo de WhatsApp um texto publicado no blog da coluna de Lauro Jardim. Talvez esteja bloqueado para assinantes, então permitam-me uma breve sinopse. O texto tem cinco parágrafos. A ideia central da matéria é que o cinema brasileiro vem atraindo mais público e ocupando uma fatia maior do mercado exibidor, mas que esse sucesso se restringe a apenas cinco filmes lançados em 2025.
O texto lista números e porcentagens em seus quatro primeiros parágrafos, o número total de espectadores do cinema brasileiro, a renda, a porcentagem de aumento em relação ao ano passado, as bilheterias dos cinco principais filmes que, segundo o artigo, concentraram 91% do total de espectadores.
E aí, no seu último parágrafo, o texto diz: “Outros 181 títulos levaram aos cinemas magros 9% dos pagantes. Mais de duas dezenas foram vistos por menos de dez pessoas; alguns apenas por uma. Isso mesmo: um espectador.”
E é isso. Acaba aí. Em um espaço de informação e opinião, a opinião é apresentada com números jogados naquele tipo de texto deselegante que a Folha de São Paulo tornou padrão a partir dos anos 1990 (dos cinco parágrafos, quatro são compostos de uma única frase) e, o que é mais estranho, sem que a fonte desses números seja citada ou nominada. Enquanto a opinião fica implícita de modo levemente maldoso com um corte abrupto e um comentário lacônico (não à toa, o último parágrafo é o único em que há mais de uma frase). O texto todo parece um preâmbulo que tenta montar um panorama com base nos dados para desenvolver um argumento que nunca vem.
O blog traz o nome do colunista Lauro Jardim, mas esse texto em particular foi assinado por alguém chamado Gustavo Maia, que também é listado como um dos autores do espaço na página de apresentação. É um trabalho tão… canhestro, digamos, que lança milhões de indagações não ao tema da nota, mas à sua própria dinâmica de produção, o que não é lá muito bom para um trabalho jornalístico. Para começar, a forma. Mais de um dos meus interlocutores no grupo da Accirs teve impressão parecida com a minha, a de que o texto foi publicado faltando um pedaço. Conhecendo como funciona o moedor de carne da redação de jornalismo diário, principalmente as das contemporâneas versões online, fiquei nas primeiras horas tentado a dar o benefício da dúvida e especular se o cara simplesmente não copiou o texto faltando uma parte e mandou para a equipe de publicação (ou se ele mesmo publicou errado).
A questão é que esse impulso compreensivo também precisa lidar com a realidade. O material foi publicado na manhã do dia 22 de junho. Se fosse realmente um equívoco, ainda mais no mundo digital, já teria sido corrigido com uma nota de edição, então não, não foi o caso, e a nota foi escrita para ser publicada assim mesmo. Acho estranho. Não vou levantar dúvidas sobre alguma intenção espúria que talvez estivesse ligada (ou tivesse algum conflito de interesses) com a Globo como produtora audiovisual mais interessada em que o pessoal fique em casa assistindo ao seu streaming do que vá ao cinema. Mas o fato é que, como jornalista, tecnicamente falando, a peça é uma vergonha. É um ótimo ponto de partida para uma pauta que não foi feita.
Jornalistas mais velhos do que eu costumam aproveitar momentos como esse para fazer o elogio saudosista da própria juventude, dizendo que “na minha época de redação não era assim”. Não farei isso, na minha época de redação coisas assim também aconteciam, já vi muito colunista dar uma informação que era uma maçaroca de dados meio trabalhados quase como um recadinho da empresa e só depois aquela nota seria repassada a algum repórter proletário da informação para fazer o trabalho direito.
Fazer o trabalho direito, explicando para quem é leigo, seria consultar mais dados, ouvir fontes que possam analisar os números (aliás, repito: elemento básico de qualquer nota jornalística, mesmo um parágrafo de cinco linhas, é apresentar a origem dos dados). Esse cruzamento de fontes qualificadas, não qualquer mané na esquina, seria instado a apresentar alguma avaliação razoavelmente embasada sobre as razões desse fenômeno. Inclusive, como redações de jornal são assaltadas vez por outra por surtos de injustificada megalomania (ao menos aquela em que eu trabalhava), não é impossível que uma pauta como essa fosse passada a algum pobre repórter com o briefing: “vamos apresentar as soluções definitivas para o problema tal”.
Parêntese: esse tipo de abordagem sempre me incomodou porque se ampara num delírio de egocentrismo que muitos ambientes jornalísticos encorajam: a ideia de que tem um problema que parece complexo, mas que é simples, apenas agentes políticos, pesquisadores e gestores nunca quiseram, ao longo de décadas, de fato pensar nele e executar as soluções, e nós, os iluminados jornalistas, agora vamos fazer isso para comprovar de uma vez por todas a leniência do poder público e apontar soluções inovadoras com nossos cérebros geniais. Mas isso é tema para outra crônica, estou divagando. Fim do parêntese.
Voltando ao texto. Como eu disse, em termos de execução, é um desastre, embora, como eu também disse, aponte uma pauta interessante a ser seguida. Mas é tão ruim que minha primeira impressão ao terminar de ler (impressão que cheguei a compartilhar com meus colegas da ACCIRS) era se não havia sido escrito por alguma inteligência artificial das disponíveis por aí. E aí me bateu o estalo que deu origem a este texto.
Não foi a primeira vez que vi isso acontecer. Esses tempos, na minha bolha, alguém compartilhou um desabafo algo cômico de um cara que se apresentava como crítico literário e que vituperava contra o “estado das coisas” na literatura contemporânea. Era um texto apresentando os grandes problemas da literatura nacional hoje, e a estrutura em tópicos e a prosa algo… incolor, pra dizer o mínimo, fez mais de um comentarista ter dúvidas sobre se era fruto de alguns desses ChatGPT da vida.
Foi aí que me dei conta. No panorama da produção de imagens, um dos efeitos cada vez mais presentes desde a ascensão da inteligência artificial é a dificuldade que muitos já confessam de não saber distinguir produções de IA e imagens “reais” ou, no mínimo, captadas in loco. De modo geral, posso ainda me orgulhar de estar relativamente imune a esse efeito (ao menos por ora) porque algo no caráter muito limpo, delineado e artificial das imagens geradas por Inteligência Artificial, mesmo a mais recentemente avançada delas, a Veo 3 do Google, para mim ainda é suficiente para reconhecimento imediato. Mas não estou com isso dizendo que sou imune aos efeitos corrosivos da existência desses “cérebros terceirizados” nos quais estamos prontos para nos ampararmos enquanto espécie. Se ainda sou capaz de reconhecer uma imagem como provável contrafação automática produto do que um computador entende por realidade, já me rendo de imediato à ideia de que um texto ruim possa ter sido originado de uma linha de comando em algum gerador artificial.
O Google já te dá respostas por inteligência artificial. O Xuíter tem lá seu GROK, que se tornou uma hilária muleta cravada de mil questões por gente inepta para fazer a pesquisa mais simples. Várias instituições oficiais já trabalham em seus próprios modelos de inteligência artificial. Não são incomuns postagens oficiais de veículos ou instituições nas quais a legenda trai a origem porque o ChatGPT muito educadamente diz que “se você quiser, posso aprofundar ou resumir mais” ou algo do gênero, e o idiota que criou a legenda era não apenas preguiçoso para escrever umas poucas linhas ele mesmo como seu desleixo era tanto que sequer se deu ao trabalho de ler o que a IA preparou para ele.
Já escrevi aqui que o jornalismo também sempre está disposto a capitular quando houver algum truque para reduzir – mesmo que por alguma trapaça conceitual – tempo consumido em sua produção. Mas esse efeito da inteligência artificial, o de imediatamente se apresentar à imaginação como o motivo pelo qual um texto saiu ruim, é novo e claramente me atinge.
Peças que antes consideraríamos fruto da mais patente incompetência hoje nos despertam a dúvida sobre se na verdade não são fruto da mais básica preguiça, aquela que leva alguém a pedir para outro escrever o texto. Sendo o jornalismo uma guilda desunida em que o ego e a reputação têm papel tão importante, ninguém abriria o flanco a ponto de pedir para um colega redigir um texto para ser apresentado como seu, mas não foram poucos os casos de repórteres pegos no flagra copiando na surdina material de terceiros. Fossem publicações sem circulação no Brasil na época em que ainda não havia internet, fossem trechos inteiros copiados de material de divulgação.
E, ao contrário do que muitos aí possam ter pensado, não se fala aqui de combalidos jornais do interior, em que copiar relise é meio que a norma. Falo de publicações grandes e de episódios envolvendo nomes razoavelmente conhecidos (no quanto pode um jornalista ser conhecido, digo). Eu mesmo já tive duas vezes a dúbia honra de ter uns lides até bem modestos copiados em matérias assinadas por outros. Mas esse era o tipo de caso folclórico e episódico. Com a inteligência artificial no cenário, temos uma mudança importante. Um texto como esse da coluna do Globo anteriormente talvez fosse só visto como ruim, mal escrito, fruto de pressa ou incúria ou mesmo da mais indisfarçável incompetência. Hoje, já abre a dúvida sobre se seu autor simplesmente não usou um atalho via IA, o que é já um conjunto próprio de problemas, mas que não necessariamente revela uma precariedade de formação técnica – talvez ética, nos casos em que isso se comprove.
Não digo que o texto em si que mencionei no início foi escrito por Inteligência Artificial, tenho quase certeza de que não, não foi. Apenas sinalizo que hoje os problemas identificáveis nesse tipo de artigo também parecem estar presentes em material resultante de um prompt de comando.
Quem diria que chegaríamos a este ponto no qual temos dúvidas se o que outrora qualificaríamos como prova material de incompetência não se originou, na verdade, de uma forma clandestina e bem mais comum de preguiça?
Todos os textos de Carlos André Moreira estão AQUI.
Foto da Capa: José Cruz / Agência Brasil

