No meio de tanta informação a que temos acesso 24h por dia, no meio de um monte de gurus que vendem cursos sobre vender cursos, no meio de tantos procedimentos estéticos e cirurgias plásticas que as pessoas fazem para se tornarem mais parecidas umas às outras, no meio de uma briga sem fim de egos, no meio de tanta comparação com gente que nem conhecemos, no meio de inteligência artificial escrevendo o mesmo formato de texto para todo mundo, no meio de pessoas destituídas de inteligência que acumulam milhões de seguidores, no meio de tanto ruído, tanto ruído, eu me pergunto: o que é ser autêntico no mundo de hoje?
A própria palavra autenticidade já não é mais genuína, de tanto ser usada nas redes sociais como algo a se almejar. Ficou gasta, perdeu o sentido. Até ela se tornou pasteurizada.
E, bom, o que nos faz autênticos não é justamente o que nos difere do outro? O que nos separa, o que nos torna únicos? Então, por que estamos buscando a autenticidade nas referências, no outro?
Quando era mais nova, eu queria ser “normal”. Sempre me senti diferente. Estranha. Desengonçada. Tinha vergonha dos meus cotovelos pontudos, do meu nariz e queria ir de meia à praia porque achava grande demais o meu dedão do pé.
Eu bem que tentei, mas acho que nunca consegui enganar de verdade meus colegas e passar por “normal”. Mas naveguei a escola mascarada e buscando me misturar em meio à multidão – e nisso, curiosamente, tive sucesso. Fui aprendendo a viver atrás da minha máscara de normalidade. Tanto aprendi que, na faculdade e na pós-graduação, eu já me identificava com a minha versão “normal”. Eu era ela. Ou achava que era.
Mas a conta veio. Estava certa de que viria em algum momento. E veio com uma constatação: é, eu não sou normal. E, hoje em dia, eu até acho isso, digamos… autêntico.
Em 500 caracteres ou menos, quem é você? Eu, aparentemente, sou “Helena Ruffato – escritora, tradutora, produtora de conteúdo e empreendedora. É formada em Relações Internacionais pela PUC-SP e pós-graduada em Inovação, Design e Estratégia pela ESPM. Baseada na costa oeste de Portugal, vive entre projetos criativos, estratégias de negócio e mergulhos no Atlântico”. O que você escreveria nesses 500 caracteres? Seu nome, talvez sua idade, onde nasceu, certamente falaria sobre sua carreira e conquistas profissionais. Eu passei horas em crise porque eu não entendi ainda direito como comunicar quem eu sou profissionalmente. Não tenho uma carreira linear. Sou curiosa e me interesso por diversas áreas e, hoje em dia, depois de muito bater cabeça, consigo manejar minha multipotencialidade: sou escritora (tenho dois livros infantis — um que será publicado ano que vem, estou trabalhando em um outro sobre uma viagem que fiz de motorhome pela Europa, e escrevo para uma revista sobre surf e cultura), tradutora (português-inglês e inglês-português), empreendedora (tenho uma agência de marketing para as redes sociais e já tive outros negócios quando morava no Brasil) e produtora de conteúdo (produzo conteúdo para as redes sociais, para diversas marcas). Mas ainda tenho dificuldade em comunicar esse TANTO que me faz quem eu sou.
A autenticidade verdadeira — com a licença para usar essa palavra gasta — talvez esteja justamente no que tentamos esconder. No dedão do pé grande, nos cotovelos pontudos, no ser desastrada. Está na multipotencialidade que não cabe em 500 caracteres, na dificuldade de se definir, na recusa em ser apenas uma única coisa, conforme os moldes da sociedade.
Mas como ser autêntico e verdadeiro num mundo que nos pede para sermos pasteurizados, padronizados, filtrados, polidos? Não sei, não tenho a resposta. Talvez, no meu caso, seja aceitar que sou várias, que não caibo numa bio, que minha carreira não é linear porque eu, definitivamente, não sou linear.
A você, que chegou até aqui, primeiro, peço desculpa por esse primeiro texto um tanto quanto egocentrado, mas precisava me apresentar de alguma forma. Segundo, informo que essa coluna será, muito provavelmente, exatamente assim: não trarei respostas e nem verdades, trarei questões derivadas de muito pensar, dúvidas, enfim. Como bem disse Hannah Arendt: “A atividade do pensamento, como tal, não produz resultados utilizáveis; não produz sabedoria e não produz verdade.”
Todos os textos de Helena Ruffato estão AQUI.
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