– Mãe …
– Fala Enzo.
– Como é que funciona esse negócio de promessa?
– Já te falei pra não ficar vendo político falar na televisão, menino!
– Não mãe, tô falando de promessa assim, pra ganhar alguma coisa.
– Como quando você promete arrumar seu quarto se eu deixar você ficar mais meia hora jogando?
– Não, mãe, promessa valendo, daquelas que o pai faz…
– Seu pai, promessa, humm, lembrei que ele prometeu nos levar pra praia nas férias, que vai ajudar nas tarefas domésticas, não vai mais beber tanto… não, acho que seu pai não é um bom exemplo pra promessas!
– Mãe, você não tá me entendendo…
– Aiii, lembrei agora! Prometi que ia comprar aquele brinquedo que você queria na volta, e a gente nunca mais voltou lá, é isso! — Letícia esqueceu a pergunta e começou a velejar nas ondas de culpa que toda mãe carrega.
– Meodeos, acho que é trauma de infância, toda mãe fazia isso quando eu era pequena, agora tô fazendo a mesma coisa com você!! Aiii, eu virei a minha mãe!!
– Mãe, para, não é isso!
– O que é então, Enzo, me dá um exemplo, que promessa que você quer saber como funciona?
– É que eu vi o pai contando pro tio Jorge que, se o time dele ganhar, ele ia ficar três meses sem fazer churrasco nem beber…
– Ahhh, esse tipo de promessa… o que você quer entender?
– Como faz com o conflito de promessas?
– Nunca ouvi falar nisso, Enzo, me explica você. — Letícia começou a pensar se tinha sido uma boa ideia colocar o menino nessa escola preparatória para concurso público já no ensino fundamental.
– É que o pai fez a promessa pro time dele ganhar, e o Tio Jorge fez outra promessa, pro time dele, que joga contra o time do pai. Aí fiquei pensando: quem decide qual promessa é melhor e vai ser escolhida? É a promessa que chegou primeiro? Qual o critério de pontuação e desempate? Tem VAR de promessa?
Letícia suspirou, já decidida a acabar com a dúvida do filho usando a melhor arma: sinceridade sem limites.
– Vou te explicar como funciona: a pessoa quer muito uma coisa, que ela não tem como fazer acontecer, daí ela pede para um ser ou força imaginária pra que a vontade dela aconteça. Pra não dizer que ela não fez nada pra ajudar o milagre ou desejo a acontecer, ela promete alguma coisa, normalmente algo que é um grande sacrifício pra ela ou uma coisa que não tem sentido nenhum. A tal promessa não vai mudar em nada o que vai acontecer, porque não tem relação direta com o que ela quer que aconteça, entendeu?
– Acho que não sei … porque se a coisa aconteceu, é por causa de alguma promessa, não é?
– Enzo, presta atenção: os jogadores se prepararam, treinaram, nos dois times, e o que jogou melhor, ganhou! E ganhou não porque seu pai vai ficar 3 meses resmungando pelos cantos que não pode fazer churrasco, mas porque alguém se esforçou muito, de verdade, jogando, pra fazer isso acontecer.
– Acho que entendi, então a promessa não adianta pra nada?
– Isso, Enzo, é só um jeito da pessoa se sentir participando, ajudando, mas, na prática, não adianta pra nada. Entendeu agora, Enzo, meu lindo?
– Entendi mãe, mas tenho mais uma dúvida…
– Fala, meu amor.
– Já que a promessa só serve pra pessoa se sentir melhor e participando, agora a gente pode voltar naquela loja de brinquedos que você prometeu entrar na volta?
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Foto da Capa: Freepik

