Tenho convicção de que sim (com ressalvas…). Sou, naturalmente, passível de viés e suspeição após mais de 40 anos de imersão no domínio da Psicologia, como formando e depois profissional e formador na área, mas ainda assim tenho, a essa altura, opinião acerca das possibilidades e limites desse campo do saber e da prática profissional. E nesse sentido, já que aludimos a essa convicção da potência da Psicologia para contribuir à compreensão de Trump e outras escatologias da contemporaneidade, vamos desde logo trazer aqui o bemol de que sim, a Psicologia agrega elemento explicativo importante, mas não explica tudo. Pretender o contrário seria incorrer no erro da chamada “psicologização”, a redução ao domínio da psicologia de fenômenos complexos e multifacetados, com vertentes político-ideológicas, culturais, históricas, econômicas, biológicas e não esgotamos. Há um dado anedótico relacionado a Freud (mas sem anuência de seus biógrafos mais respeitados, como Ernest Jones), em que ele, Freud, teria chamado a atenção para os riscos da dita psicologização: inquirido, numa palestra, se o fato de ele fumar charutos poderia ser interpretado como sintoma de “ansiedade oral”, Freud teria respondido que, às vezes, um charuto é apenas um charuto”…
Exageros e derrapagens à parte, a Psicologia tem, sim, seu “mot à dire”, sua contribuição à compreensão de fenômenos que vão do domínio do indivíduo, até o domínio do funcionamento dos grupos. E sim, lá onde muitas vezes um charuto é apenas um charuto, em outras o fumar charuto suprirá outras demandas. Como a incisão precisa que faz o respeitado cirurgião no corpo de seu paciente – ato que pode significar a salvação da vida do cirurgiado, e a realização sublimada (apud Freud) de certo desejo sombrio de cortar gente…
Esse debate não é, em absoluto, inédito, recente. Avalio que tal debate acompanha a Psicologia desde que ela se formalizou como domínio de conhecimento e prática profissional. O que me motivou a revisitar esse debate foi, de um lado, o estrupício Trump, suas trampolinagens (ou trumpolinagens) de garoto travesso-loiro-dominante-heterotop, e de outro, o evento de passagem dos 75 anos de publicação do livro seminal, “A personalidade autoritária”, de autoria dos pesos-pesados Theodor Adorno, Levinson, Sanford e Frenkel-Brunswik, relançado pela Editora da Unesp (2024), e com resenha crítica proposta por Wilson Gomes, com o brilho de sempre (“A personalidade Autoritária faz 75 anos”), na seção “Ilustrada” da Folha de São Paulo de 20/08/25.
Conforme lembra Wilson Gomes, em sua análise, a presente obra traz contribuição hoje e sempre válida acerca do que poder-se-ia chamar de “bases psicológicas do autoritarismo”. Se de fato estamos de pleníssimo acordo no sentido de que o autoritarismo (e seus derivados tóxicos) é um fenômeno amplo demais para caber nos escaninhos da Psicologia, não podemos ignorar a contribuição de imenso valor, rigor e robustez teórica de correlatos de estrutura de personalidade os quais se aglutinam ente si como elementos constituintes de um todo nefasto; são eles, segundo Adorno e colaboradores, o conformismo e a submissão à autoridade, a intolerância à ambiguidade e à divergência (em termos de visões de mundo e comportamentos), a agressividade exacerbada ao nível da violência, a rigidez de regras e princípios (intra-grupo e de ordem moral mais ampla), e a postura preconceituosa. Estes fatores se correlacionam fortemente entre si, e com o fenômeno comportamental e de postura social em questão, o autoritarismo, e servem como elementos caracterizadores e preditores de determinada estrutura de personalidade – a personalidade autoritária.
Convém aqui retomar a diferença entre estrutura de personalidade e sanidade mental. Esse é um ponto que tem inclusive rebatimentos jurídico-legais, na medida em que a tradição estabelece a inimputabilidade civil de pessoas mentalmente comprometidas, seja por doença, seja por vicissitudes do desenvolvimento. Trocando em miúdos, a pessoa que comete barbaridades dos mais variados tipos e alcances não pode ser responsabilizada se for caracterizada como doente mental. Nesse sentido, aqui e ali, nas conversas de bar e domingueiras familiares, surge a questão acerca de, em que medida, “Fulano é doido, canalha ou as duas coisas”. Mas veja, o leitor ou a leitora, que o próprio senso comum pressente a diferenciação.
Nesse sentido, a personalidade autoritária não pode ser confundida com um quadro psicopatológico propriamente dito, mesmo quando tal estrutura de personalidade se aproxima de outra, esta sim com inserção na nosografia das doenças mentais – a personalidade psicopática. Fechando, contudo, estes parênteses, a personalidade autoritária poderia ser assimilada a um sistema de valores consensuado numa sociedade, de forma que os indivíduos inseridos nessa categoria podem (devem) ser devidamente responsabilizados pelos seus atos e desvarios. E numa sociedade à qual ainda não chegamos, inviabilizados de acesso a posições de poder político e militar. Só que não é esse o mundo em que vivemos. Tais pessoas acedem à condição de mitos, até porque rapidamente aglutinam, em torno de si, por identificação grupal, aqueles e aquelas que sentem que, finalmente, é chegada a hora de pôr para fora da grade da sarjeta social o focinho, se sentir finalmente respeitado. Quem tem alguma familiaridade com os livros de história já visitou esse libreto tantas vezes – mesmo na história recentíssima desse país.
Inimputável, vamos combinar, Trump (e assemelhados locais) está longe de ser. Mas apresenta, sem dúvida, elementos em seu perfil de personalidade, mesmo observados de longe e sem a acuidade que seria proporcionada pelas pranchas de um Teste de Rorschach ou uma boa entrevista clínica, perfil de personalidade que não seria aconselhável para ser seu vizinho, em um condomínio. Ou seu genro (vamos pular a condição de cônjuge, por piedade a você, leitor ou leitora). Ou seu vereador, prefeito, representante estadual ou federal em câmaras legislativas. Ou presidente da república. Só que não. Trump se tornou presidente de potência econômica e militar mundial, eleito pela coorte de minions que veem, nele, alguém que os representa. E, para não fugir do foco da questão aqui, sublinho que nós, brasileiros, não estamos nem de longe a salvo desse quadro de adoecimento social que mitifica e abre caminho para mitos de opereta demagógica.
A personalidade autoritária resulta, desgraçadamente, de um trajeto de vida que comprometeu psiquicamente a pessoa. Não se trata, rigorosamente falando, de um adoecimento psíquico, mas antes de uma espécie de má-formação desenvolvimental. A psicologia ajuda a entender por quais caminhos tortos se produzem Trumps, se agregam Trumps-Minions para eleger os respectivos mitos, mas foge a meu conhecimento restrito fórmulas confiáveis para “curar” tal condição e fazê-la retroceder ao status quo ante, das personalidades de luz, ou do mito do bom selvagem primordial rousseauniano. No século passado, houve até quem propusesse um procedimento de mutilação cirúrgica cerebral cuidadosamente mapeada, de forma a operar o milagre sugerido acima; se vocês fornecerem a um mecanismo de busca o nome do cirurgião Egas Moniz, encontrarão o propositor dessa empreitada (que lhe rendeu, diga-se, um Prêmio Nobel de Medicina em 1949).
Que aprendamos, com o auxílio da Psicologia e outras vertentes do conhecimento do fenômeno humano, a identificar criticamente os Trumps de agora e os que virão (sim, continuarão vindo), sem acender fogueiras inquisitórias, sem autos de fé, sem castrações químicas, sem psicocirurgias, sem curas gay, com os recursos das Repúblicas e das Democracias. Com a força do pensamento crítico, da postura comunitária, das personalidades em comunhão com outras, e do voto que daí emerge.

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