O texto abaixo tem uma história. Num determinado momento, questionou-me um político que se dizia progressista sobre um tema que eu achava importante para uma pauta de esquerda. Não demorei muito a dizer: “A questão da igualdade”. Pelo que soube, ele não achou a ideia boa. Meses depois, remeti este texto para ele, uma pessoa com muitos contatos na imprensa pernambucana, sugerindo a publicação. E ele nada fez. Fico a imaginar qual a utilidade de uma esquerda que sequer torna a igualdade um tema. Eis o texto.
A tecnologia sempre criou lugares de interação, comunicação, aprendizagem, diversão, etc. Um dos mais recentes, pelo menos para mim, é o do podcast. Como é sabido, um espaço onde cabem muitas coisas e onde podemos encontrar, também, interessantes entrevistas. Recentemente, ouvi no podcast independente 45 Graus, no canal português da Rede Público, o jornalista Daniel Oliveira que, para além de muitas ideias, talvez não tão novas mas sempre atuais, fez a indicação do livro “O Espírito da Igualdade: Por que razão sociedades igualitárias funcionam quase sempre melhor”, de Richard Wilkinson e Kate Pickett, publicado pela portuguesa Editorial Presença.
O título é, por si só, instigante. Uma primeira advertência que se deve observar é que os autores não tratam de uma igualdade genérica. Embora apresente exemplos de como uma determinada desigualdade repercute em temas como raça ou sexo, o central da preocupação é como as diferenças enormes de rendimentos entre as pessoas podem trazer consequências para a “Vida comunitária e relações sociais”, “Saúde mental e consumo de drogas”, “Saúde física e esperança de vida”, “Obesidade”, “Desempenhos educativos”, “Maternidade na adolescência”, “Violência”. “Prisão e castigo” e “Mobilidade social”, todos subtítulos da Parte Dois do livro.
Com bastante precisão, os autores advertem que sociedades com extrema carência de bens materiais tendem a ter mais problemas sociais, de saúde, na economia, etc. No entanto, não necessariamente as sociedades que saciaram necessidades mais básicas se livraram deles. Em um determinado momento lembram, e existe certa beleza-triste nisso, um pão resolve o problema de quem tem fome, mas depois disso comer 10 pães não significa uma melhoria de vida e, num certo sentido, podem trazer outras dificuldades. Acertadamente olham para os países cujas rendas médias são bem maiores que no restante do globo, tais como Japão e Inglaterra, e para os dados comparativos entre os 50 estados que compõem os EUA.
Algumas conclusões parecem óbvias, embora aqui no Brasil as evitemos, por exemplo, a estreita relação entre o fato de um juiz receber 10 vezes mais que um professor ou 20 vezes o salário de um operário qualificado e a falta de confiança nos outros. Uma pessoa de classe média alta não anda mais nas ruas do Recife e mesmo as mulheres do povo agarram-se às suas bolsas como se estivessem a proteger seus filhos no ventre. Outras nem tanto, como o fato de pessoas pobres preferirem adquirir um celular de última geração a alimentos de qualidade, apenas para se sentirem parte de uma sociedade onde o ter é fundamental.
O livro tem suas fraquezas, todos eles o têm, uma delas é a falta da análise aprofundada sobre a quem afeta mais essa distribuição desigual dos bens materiais. Mas, a despeito disso, nos proporciona diversos insights: podemos viver numa sociedade saudável quando uma parcela expressiva da população sequer tem o que comer? Que sociedade está sendo produzida quando uma simples crise econômica e não uma guerra generalizada faz perder toda uma geração de jovens? Lembrando que o Brasil é o oitavo PIB do mundo e ocupa a 79ª posição no Índice de Desenvolvimento Humano num universo de 180 países.
Fábio André de Farias é desembargador corregedor do Tribunal Regional do Trabalho da Sexta Região (PE).
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Foto da Capa: Joédson Alves / Agência Brasil