Dia desses, descobri disponíveis em um streaming que assino as primeiras temporadas de Arquivo X e assisti a alguns dos primeiros episódios. Considerando que já faz 30 anos da estreia da série e algumas décadas que eu não via esses capítulos em específico, fui assaltado por uma impressão melancólica que já senti a respeito de outras coisas ao longo dos últimos anos: a realidade arruinou a cultura pop.
Considerando que vivemos no mundo dos Gen-Z, que têm um computador com acesso ao mundo no bolso, mas parecem bem pouco curiosos por qualquer coisa mais velha do que eles, talvez fosse interessante eu recapitular muito de leve que Arquivo X foi uma série dirigida por Chris Carter e que transformou em astros seu casal de protagonistas, Gillian Anderson e David Duchovny. Ambos interpretam agentes do FBI de personalidades opostas: Anderson é Dana Scully, de formação médica e racionalista, alocada por seus superiores para vigiar as “maluquices” de Fox Mulder, vivido por Duchovny, psicólogo de formação e, na prática, uma cruza de investigador com parapsicólogo disposto a aceitar qualquer explicação, por mais doida e sobrenatural que seja, para os casos que investigam.
O “Arquivo X” que dá título à coisa toda é a divisão mambembe em que Mulder e Scully são alocados para buscar soluções “alternativas” para casos sem uma explicação racional. Com essa conformação, a série, exibida originalmente pelo canal americano Fox a partir de 1993, alternava ao longo de 24 episódios por ano (algo quase inacreditável numa era de streamings que levam três anos para lançar temporadas de oito capítulos) histórias soltas de resolução imediata (a que os fãs costumavam dar o nome de “monstro da semana”) com uma trama mais longa que desenvolvia aos poucos uma gama de conspirações e segredos encobertos por camadas obscuras da estrutura governamental ou por sociedades secretas acima de qualquer controle burocrático.
Três décadas depois, muito já se escreveu sobre o impacto que Arquivo X teve na cultura pop do período, mas existe uma dimensão desse conhecimento só disponível à gente da minha faixa etária: a lembrança de ter estado lá. Embora o começo da série tenha sido tímido e claudicante, não demorou para o programa estourar e logo Mulder e Scully estavam por toda parte. Eram capas de revista, eram temas de artigos em suplementos culturais, eram satirizados em programas como Os Simpsons (então no auge como o mais mordaz humorístico da TV) e em tirinhas de jornal. Tornaram-se bordões na linguagem corrente frases repetidas ao longo da série, como o “Eu quero acreditar” de um pôster que adornava a parede na sala que ambos dividiam ou o “A verdade está lá fora” que encerrava a dramática e algo fantasmagórica abertura. Aliás, outra diferença daquele tempo para hoje era que não havia, fosse na TV a cabo ou na TV aberta, o botão de “pular abertura”, então mais ou menos acabávamos decorando as introduções das atrações – talvez isso nos ensinasse uma certa micropaciência zen que agora não se tem mais, mas divago. Resumindo: em um momento em que ainda mantinham sua força muitos elementos dos precedentes anos 1980, o programa ajudou a dar uma cara à então jovem década de 1990.
Razão x crença
Sendo Arquivo X uma série que mesclava elementos de ficção científica e horror fantástico, foi meio que inevitável a condução na narrativa tomar o caminho de mostrar gradativamente à cética Scully que o excêntrico Mulder estava certo, no fim das contas – se não em detalhes específicos, ao menos no quadro geral da situação. Ao longo dos seus anos de exibição, Arquivo X fez os dois investigadores enfrentarem versões de praticamente todas as teorias de conspirações disponíveis naquela época.
A Área 51, base aérea real existente em Nevada, mantida como localidade sigilosa por décadas e sobre a qual circularam ao longo da segunda metade do século XX rumores de ser o depósito de destroços de uma ou mais naves alienígenas caídas em Roswell, no Novo México, foi transformada pela série em um motivo central, muitas vezes retomada como um centro de pesquisas de desenvolvimento de tecnologias bélicas de última geração com base no que foi recuperado da tecnologia dos artefatos alienígenas. A ligação por muito tempo suspeita e inconfessável do governo americano com grandes cientistas nazistas refugiados após a II Guerra era, na mitologia da série, um fato.
E, puxando todos os gatilhos possíveis para quem viveu os recentes anos de pandemia cercado por negacionistas da ciência, a série também apresentou uma trama na qual os dois agentes descobriam que a grande vacinação em massa contra a varíola realizada nos anos 1950 era, na verdade, a fachada de um programa secreto do governo americano para colher o DNA de todos os cidadãos dos EUA e usá-los em experiências genéticas. Aqui e ali, sempre estavam à postos figuras sombrias em ternos pretos, prontas para desaparecer com evidências, registros e até mesmo testemunhas – pegando carona na lenda dos “homens de preto”, que seriam os grandes operários da manipulação governamental (e que também inspiraria a história em quadrinhos de Lowell Cunningham e Sandy Carruthers, que seria mais tarde adaptada no filme famoso com o Will Smith).
O atrito entre as visões racionalista de Scully e aberta a qualquer piração de Mulder vai diminuindo à medida que as temporadas avançam e a dupla vai desvendando indícios cada vez mais numerosos de que sim, alienígenas já visitaram a Terra, sua tecnologia foi usada para desenvolvimento de armas clandestinas e tudo é acobertado por um governo que sistematicamente cataloga e manipula os dados de seus cidadãos e orquestra operações de fachada e dissimulação. E cada novo ramo do governo parece estar abaixo de uma nova e mais obscura organização, num bolo em camadas de departamentos sombrios. A série nunca mencionou textualmente o Q-Anon apenas porque essa narrativa delirante em específico não existia, mas, no demais, parece ter marcado todos os quadros do bingo.
Influência
É possível ter uma ideia da influência da série ao analisar o quanto, na esteira de seu sucesso, multiplicaram-se produções que bebiam no seu clima de paranoia pop. Foi como se a existência de Arquivo X apontasse novas alternativas para a retomada do tradicional thriller de espionagem, então em um momento de incerteza devido ao fim de um de seus grandes mananciais narrativos, a Guerra Fria.
Nos anos subsequentes, estrearam no cinema filmes como Inimigo do Estado (1998), no qual o já mencionado Will Smith vivia um advogado que recebe provas de uma trama de assassinato envolvendo o alto escalão da NSA e vira alvo de uma perseguição high-tech; Tempo Esgotado (1995), em que um contador tem a filha sequestrada e é chantageado para assassinar a governadora da Califórnia no prazo máximo de uma hora e meia, numa conspiração que envolve os próprios integrantes do estafe da política e Teoria da Conspiração (1997), um filme no qual um taxista paranoico (perdão pela redundância) interpretado por Mel Gibson é obcecado pela ideia de que tem “algo por trás de tudo isso aí” armado por interesses escusos do governo.
Sobre esse filme em particular, me permitam um breve parêntese: fui assistir a Teoria da Conspiração no Guion achando que seria sobre outra coisa – eram outros tempos, sem telefone móvel, internet ainda recém-engatinhando, a gente se informava mais sobre cinema em publicações impressas, como revistas. Pelo que eu tinha lido, havia ficado com a ideia de que seria uma produção em que o tom geral da história de algum modo desconstruiria ou revelaria o absurdo das teorias da conspiração.
Mas logo na primeira meia hora (de um filme chatíssimo com mais de duas), após o personagem de Gibson apresentar para a mulher em quem está interessado, uma advogada vivida por Julia Roberts, sua visão de que o governo condiciona assassinos por meio de experimentos de lavagem cerebral, ele é capturado e submetido aos mesmíssimos testes que havia tentado convencer os outros à sua volta de que eram reais. Ou seja, não era um filme mais complexo sobre teorias da conspiração e suas consequências, era mais um thriller genérico em que, no fim, a teoria da conspiração que só o protagonista acreditava que existia se confirmava.
Conspirações
Não digo com esse pequeno apanhado que as teorias da conspiração não existissem antes de Arquivo X. A própria lenda persistente da Área 51 já circulava há muitos anos, bem como também eram fontes de suspeitas gerais o assassinato de John Kennedy, a morte suspeita do Papa João Paulo de brevíssimo pontificado, várias instâncias políticas aqui mesmo no Brasil, da morte de Getúlio Vargas a planos secretos para assassinar Leonel Brizola. Se precisássemos ir ainda mais longe, poderíamos lembrar a criação dos Protocolos dos Sábios de Sião, documento fraudulento usado como propaganda antissemita pelo regime czarista russo no início do século XIX. Digo apenas que Arquivo X tornou as conspirações pop, entrelaçadas no tecido mesmo das narrativas populares para cinema e TV a partir dali.
Boa parte do sucesso da série estava ligada ao carisma de sua dupla de intérpretes, mas claramente o Mulder de Duchovny se impôs como o coração da narrativa, uma vez que, como o sujeito que estava sempre disposto a dar o benefício da dúvida, era ele quem aceitava muitos casos estranhos. Enquanto Scully mantinha, ao menos no início, uma visão racionalista que a própria série retratava como basicamente teimosia diante de tantas evidências de que havia algo “lá fora” em que “acreditar”, Mulder tinha uma razão pessoal em seu passado traumático para ser o “crente” da dupla: quando criança, ele havia assistido à suposta abdução de sua irmã.
De modo inteligente, contudo, o roteiro também brincou várias vezes com a hipótese de Mulder não ter visto o que vira ou ter entendido errado o desaparecimento de sua irmã, vítima não de ETs em uma nave cheia de luzes, mas de outras maracutaias secretas de outros ramos clandestinos do governo. Arquivo X era o tipo de atração na qual a explicação para um fenômeno desconcertante não era necessariamente a mais racional, mas o acobertamento de alguma outra e mais sombria conspiração.
Triste nostalgia
Aí, mais de 30 anos depois, você cede a um impulso nostálgico e… bem, digamos que a coisa não desce mais tão redonda. Com a internet tendo dado voz e vez a um sem número de negacionistas paranoicos, teoristas da conspiração, evangélicos manipuladores, “truth tellers” cuja única “verdade” é dizer que Trump é o enviado dos céus, podcasters de uma realidade paralela que “ninguém quer que você saiba”, terraplanistas, antivacinas etc, você começa a perceber que, nas atuais circunstâncias, se Mulder existisse no nosso mundo bem mais polarizado do que o daquele tempo, ele não teria o charme de David Duchovny, mas seria provavelmente uma figura inchada e rubicunda destilando ódio e perdigotos como Alex Jones, o crápula que passou semanas defendendo que a morte de crianças durante mais um tiroteio em uma escola de Connecticut não existiu e que os pais enlutados entrevistados pela mídia eram atores contratados para “demonizar” o sagrado direito de portar armas que é cláusula pétrea para a direita americana.
Porque isso também mudou daqueles anos 1990 para cá. O “teórico da conspiração” era um sujeito um tanto impotente diante do tamanho da “máquina” contra a qual lutava, muitas vezes visto como louco ou desequilibrado, e sua perseguição da “verdade oculta” era feita com grande prejuízo pessoal – em Arquivo X, por exemplo, Mulder é mostrado como um agente com grande potencial, mas cuja obsessão por ETs e conspirações do governo o fazia ser visto como um pária dentro da estrutura do FBI, apelidado de “Spooky” (assustador). Hoje, a teoria da conspiração é um negócio que faz fortunas, com ativas estruturas de desinformação vendendo a ideia de que, por trás do acobertamento “do sistema”, existe todo um mundo – ou um Brasil, no nosso caso específico – paralelo que deve ser descortinado em programas de rádio e TV (embora hoje exibidos ambos na internet).
O retorno fracassado da série para duas últimas e desconjuntadas temporadas há exatos 10 anos já acenava na direção desse entendimento. Não apenas o ar sério e mais solene da atração original foi substituído por um certo humor deslocado e absurdo que parecia fora do tom em alguns episódios, como foi introduzido na narrativa um apresentador de programas conspiracionistas chamado Tad O’Malley (Joel McHale), que funcionava tanto como um comentário desse tipo de personagem hoje predominante como parecia querer oferecer um contraponto a um Mulder desencantado depois de anos lutando contra conspirações invisíveis.
Talvez a série tivesse algo em que se agarrar se houvesse tido a coragem de fazer Mulder ele próprio ser esse personagem entregue ao submundo das conspirações e com uma plataforma na mídia, mas do jeito como a coisa foi conduzida, nem o novo personagem era assim tão interessante nem Mulder conseguia exibir suas melhores qualidades “crédulas” sem resvalar para algo semelhante ao cinismo paranoico de O’Malley.
Mulder nos anos 1990 era um personagem atraente pela forma como mantinha suas convicções inabaláveis diante de toda uma estrutura que se movia contra ele. Hoje, depois do exemplo de incontáveis influencers alinhados com as políticas da extrema-direita como alternativa eleitoral, o Mulder crédulo pronto a pular em qualquer explicação estranha se tornou um lembrete de que hoje, tanto a verdade quanto a desinformação estão lá fora, e é cada vez mais difícil distinguir uma da outra.
Todos os textos de Carlos André Moreira estão AQUI.
Foto da Capa: Reprodução

