Em 2004, os verões do Rio Grande do Sul ainda não eram tão escaldantes quanto os de hoje. Mesmo assim, havia dias de calor intenso, daqueles em que o melhor era buscar sombra e água fresca. Nunca fui de passar horas sob o sol; evitava o excesso, fugia do calor prolongado. Por isso, muitas vezes atravessava a estação quase tão pálida no fim quanto no início. No entanto, naqueles dias eu tinha uma missão a cumprir e não deixaria me abater com uma temperatura de quase quarenta graus.
Minha meta era simples, mas exaustiva: formar uma turma de alfabetização de adultos em uma escola do bairro. Para isso, eu precisava reunir ao menos vinte e cinco alunos. Sem esse número mínimo, o SESI não me permitiria participar do projeto. Apesar do risco de não atingir a meta, decidi tentar. Assumi o desafio com a convicção de que valia a pena insistir e comecei a fazer tudo o que estava ao meu alcance para torná-lo possível.
Já havia trabalhado em um projeto do governo Olívio Dutra entre 1999 e 2001, o MOVA (Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos), uma experiência que marcou profundamente minha trajetória como professora. Recém-formada no Magistério, eu havia lecionado apenas para crianças e desconhecia a realidade de que um grande número de adultos — especialmente idosos — ainda vivia à margem da leitura e da escrita, sofrendo as consequências do analfabetismo.
Apoiada nessa vivência, planejei uma estratégia para apresentar o novo projeto às pessoas e assim, encontrar possíveis candidatos para a minha turma. Caminhei sozinha por muitos dias, pela manhã e à tarde. Bati de casa em casa, percorri ruas que eu nem sabia que existiam. Fiz cartazes, deixei avisos no comércio, pedi ajuda a familiares e amigos. Muitas portas se fecharam na minha cara; outras abriram e os moradores aceitaram me ouvir o que eu tinha a dizer. Eu não cogitava a possibilidade de desistir, mas cheguei a pensar que não conseguiria.
Pouco a pouco, os nomes começaram a surgir, mas ainda pairava sobre mim a incerteza de não alcançar o número exigido e, com isso, atrasar a realização de um sonho daquelas pessoas que não puderam frequentar a escola quando eram crianças. Esse foi o motivo que fez com que eu intensificasse a minha procura. Mais do que cumprir uma meta institucional, eu estava tentando devolver àquelas pessoas um direito do qual tinham sido privadas. Às vésperas da data em que as aulas começaram, eu atingi o meu objetivo: uma turma com exatos vinte e cinco jovens e adultos.
Trago hoje essa história antiga para falar de Escalavra, de Marcelino Freire, um livro encantador que li há algumas semanas para o Clube de Ficcionistas (@clubedeficcionistas). Segundo o dicionário, escalavrar significa ferir, arranhar, escapar. E não há palavra mais precisa para nomear o gesto central do livro. O romance, que o autor chama de megalítico, conta a história de um pai e de um filho aprisionados em uma relação perpetuada pelo silêncio. Conforme a narrativa avança, feridas são abertas, arranhando memórias e deixando escapar o que por décadas foi contido. O silêncio pesa, machuca, mas não é exatamente sobre essa relação que eu pretendo tratar aqui.
Em Escalavra, há também o professor Paulo Araújo Maia, um homem que alfabetiza adultos e, por isso, passa a ser perseguido pela repressão durante o governo militar. A referência a Paulo Freire é evidente. No romance, a alfabetização está associada à possibilidade de consciência crítica, o que transforma o professor em uma ameaça ao regime.
O autoritarismo não se sustenta apenas pela violência física, mas também pelo controle da palavra. Como afirmou Darcy Ribeiro, também exilado pela ditadura, a “crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto”. Impedir o acesso à leitura e à escrita sempre foi uma estratégia para a manutenção da desigualdade social. Tanto na intimidade familiar como no campo político, o romance evidencia como o silêncio age em diferentes situações. Seja na relação entre pai e filho, seja na perseguição a quem ensina a ler, o que está em jogo é sempre quem pode falar, quem pode aprender e quem é forçado a permanecer calado.
Paulo Freire marcou profundamente a educação brasileira e, ainda assim, hoje há professores que sequer conhecem sua história ou sua obra. No ano passado, ouvi uma colega professora chamá-lo de “comunista sem vergonha”, o que não revela uma posição crítica, mas o desconhecimento de um pensamento que ela, claramente, nunca se dispôs a ler ou compreender. Mais recentemente, chamou atenção o caso de um participante do Big Brother, diretor de escola, que reagiu com surpresa ao ouvir um colega da casa, estudante de licenciatura, explicar o legado de Paulo Freire.
Escalavra me conduziu a Paulo Freire, e Paulo Freire me fez retornar àquele verão de 2004. Relembrei as caminhadas sob o sol, as portas fechadas, a minha insistência para que não houvesse medo do recomeço. Vieram também os sorrisos, a alegria nos olhos de quem aprende a escrever o próprio nome, de quem reconhece, nas primeiras palavras lidas, a possibilidade de conquistar mais autonomia no mundo.
Paulo Freire nos ensina que alfabetizar não é apenas ensinar letras. É devolver dignidade a quem foi privado de escolhas e de voz. Como ele próprio afirmou, “não basta saber ler que ‘Eva viu a uva’. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho”.
Todos os textos de Andréia Schefer estão AQUI.
Foto da Capa: Capa do livro Escalavra

