Passando pela Cidade Maravilhosa, um amigo me convida para lhe visitar: mora em um raro e original sobradinho a um quarteirão da praia de Botafogo. A residência se aconchega numa típica Vila do Rio, cuja simpática ambiência já se anuncia no dó de sax barítono entoado pela abertura do alto portão trabalhado em ferro. São duas fileiras de casas de portas a se abrirem umas para as outras, trocando murmúrios e sons de gente e vida: eco de telejornal, tilintar de pratos, voz de criança, latido de totó. Caquera de samambaia, trepadeira em janelas, bicicleta escorada, bola esquecida num canto: marcas radicalmente divergentes do ordeiro silêncio horizontal que se ergue nos prédios de apartamentos.
Por uma porta de madeira verdadeira (não era desses aglomerados incapazes de suportar os primeiros pingos de chuvas de março), entrei em seu lar, tendo o olhar capturado pela vasta biblioteca que envolve a grande sala de jantar. Minha chegada fora previamente anunciada à sua filha, uma jovem e exímia bailarina que, naquela noite, iria ensaiar ali sua próxima apresentação.
O amigo é apaixonado por futebol.
Assim, foi nesse ambiente, acompanhado por refeição vegetariana e vinho de Mendoza, que nos aprontamos para ver os jogos da noite, pela Libertadores das Américas. Iniciamos as atividades com partida de argentinos versus chilenos. Contudo, o real interesse do meu colega era outro: o confronto do Flamengo contra o Central Córdoba, uma equipe iniciante no campeonato que, no encontro anterior, havia derrotado o time da Gávea em seu próprio estádio.
Aqui, devo confessar que, enquanto torcedor do Santa Cruz Futebol Clube, tenho imensa dificuldade em me empolgar com qualquer equipe vermelho e preto, pois são as cores de nosso maior adversário: o Sport Club. A qualidade cromática irmana inclusive tricolores de Recife e Salvador: unidos na desafeição aos seus respectivos rivais rubro-negros.
Quando, enfim, sintonizamos o canal desejado, o Fla já havia feito um gol. Apresentando-se o espetáculo na TV, a garota, destaque no panteão de potâmides de qualquer bacia hidrográfica, se senta conosco: é também flamenguista.
O plantel carioca continuava pressionando. Assinalei que o Central resistia devido à boa qualidade de seu esquema tático: observação que não recebeu concordância no recinto. O jogo seguia. O Córdoba assustava. O brasileiro perdia chances com o atacante frente a frente ao goleiro. O Central, então, faz seu gol de empate. E eu, seja pela acolhida fraterna, seja pelo vinho, ia ficando mais espontâneo, menos retraído nas análises, que, a despeito de alguma verossimilhança com o que se via em campo, parecia não agradar à expectativa que se faz ao comportamento de uma visita em dia do Mengo na Conmebol.
Já estávamos no segundo tempo quando chega o parceiro de ensaio da dançarina. Pessoa também jovem: tez e compleição física similares a Seu Jorge, simpático e fino ao estilo Paulinho da Viola.
Daí, quando ela segue para a cozinha adiantando alguma coisa para o jantar dos dois, ele, entre o cômodo que estávamos e o dela, bem-humorado, profere uma secada contra os rubro-negros, acusando a ilegitimidade da falta, no certame anterior, que originara o único gol do Malvadão.
E, agora, completamente desinibido, olho para o rapaz e aquiesço o comentário com professorais meneios de cabeça e convicto riso.
Porém… Eis que lá de dentro, a jovem, cujos dotes a escalam na melhor das companhias de terpsícores, cuja presença na sala (junto com os sabores vegetais e o Cabernet, ladeados pelo acervo literário e filosófico) me remetia à mais idílica Arcádia, revida pujantemente o chiste do parceiro de arte fazendo menção a uma região íntima do corpo que o próprio Hércules não teria coragem de provocar sua reminiscência diante do Apolo afro-brasileiro que a apoquentara.
Rompendo a quietude que se instaurou, o anfitrião me esclarece: ele é botafoguense.
A despeito de alguma lentidão de raciocínio que a bebida pudesse me acometer, antes mesmo de nossa amazona retornar, eu já havia me convertido à condição de rubro-negro desde criancinha! Reposicionei meus sentimentos em relação ao lance de empate, registrando lamentos ao ocorrido e, principalmente, me opus veementemente contra o árbitro ao ameaçar um último pênalti contra o Mengão. Pois, fui inundado pelo credo segundo o qual só mesmo um despeitado olhar opositor poderia ver penalidade no fato de o braço do beque flamenguista (posicionado na pequena área) ter desviado a trajetória da bola (chutada pelo atacante rosário) em direção às redes gaveanas…
Terminada a partida, sem demora, anunciei que precisava ir (teria que chegar ao Galeão às 7h). Neste momento, a empoderada musa do Século XXI já havia ascendido ao andar superior da habitação: me despedi a distância, não invoquei sua presença, pois toda mitologia grega alerta que não se deve incomodar quem está quieto no seu Olimpo.
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Foto da Capa: Divulgação / Flamengo

