Quem dera o Dia de Finados fosse um reencontro, quando os nossos entes queridos tivessem a permissão de vir nos visitar, trajando suas antigas peles e formas humanas. Quem dera pudéssemos esperá-los com a mesa posta, com danças e festejos para celebrar a alegria. E se, em vez de enchermos as suas sepulturas com velas e flores, fizéssemos as suas comidas preferidas e nos sentássemos para ouvir as histórias de além-túmulo.
Se esquecêssemos, por um instante, a deterioração da carne e a solidão dos dias, para nos regozijarmos com as suas presenças temporárias em nossas vidas — assim como fazemos ao receber um parente distante ou alguém que retorna de uma longa viagem, mas já se prepara para partir de novo?
Não seria tão mais leve viver esse dia se essa ideia não passasse de mera invencionice da minha mente de ficcionista? Lamento informar: a literatura tem o poder de criar mundos e situações imaginárias, mas nunca conseguirá interferir em certas realidades.
Quando criança, eu ia às celebrações nos cemitérios porque meus pais acreditavam ser importante que eu seguisse as tradições da igreja à qual pertencíamos. Com o tempo, porém, essas convenções deixaram de fazer sentido na minha vida. Perdi o hábito de me intoxicar com o cheiro enjoativo das velas. Deixei de achar bonito aquele cemitério florido que, em poucos dias, tornaria-se ainda mais mórbido, quando as flores, já apodrecidas, deixariam de disfarçar a feiura da morte.
Sepulturas, por mais bonitas que pareçam, com suas artes exuberantes e arquiteturas simbólicas, não passam, para mim, de caixas de pedra destinadas a guardar despojos humanos, monumentos erguidos não para os mortos, mas para o consolo dos vivos, que gravam nomes, datas e frases de efeito na esperança de eternizar o que já se desfez. O cemitério é fim — e o fim me apavora. Por isso prefiro ser cremada e ter minhas cinzas espalhadas no vento. Embora não passe de um ato simbólico, essa é a única forma de escapar da prisão eterna de um túmulo.
Embora eu saiba que nascer e morrer façam parte do ciclo natural da vida, apavoro-me diante da possibilidade de deixar de existir. A ideia de perceber a vida se esvaindo lentamente ou arrancada de súbito, de deixar os sonhos pela metade, de ser pega de surpresa quando ainda não fiz tudo o que gostaria são apenas algumas das minhas implicâncias com a morte. Também me assombra a incerteza de meus familiares conseguirem viver sem mim e eu sem eles.
Mas de onde vem essa aversão em relação a algo inevitável?
Rosa Montero, em A Ridícula Ideia de Nunca Mais te Ver, diz: “Como não tive filhos, a coisa mais importante que me aconteceu na vida foram os meus mortos, e com isso me refiro à morte de meus entes queridos. Talvez você ache isso lúgubre, mórbido. Eu não vejo assim. Muito pelo contrário: para mim é uma coisa tão lógica, tão natural, tão certa. Apenas em nascimentos e mortes é que saímos do tempo.” Assim seria, talvez, se nossa cultura não interferisse na naturalidade da vida. Se víssemos a morte como uma passagem e não como uma perda, quem sabe poderíamos experimentá-la com menos dor e mais aceitação.
Admiro a cultura mexicana e o Día de los Muertos, quando os que já se foram são, simbolicamente, recebidos com festa e suas comidas favoritas. É uma celebração alegre que, mesmo realizada em cemitérios, parece não reviver as angústias de um enterro. Apesar de achar a minha ideia muito mais interessante, a cultura mexicana me fascina justamente por essa leveza diante do inevitável. Eles não escondem a morte, mas pintam-na de cores vivas, transformando o luto em convivência e, por um instante, desfazem a fronteira entre mundos.
A morte é ruptura e ausência, e a ideia de que “saímos do tempo” nesses momentos, como descreve Rosa Montero, de certa forma me consola. Talvez, sob essa perspectiva, eu consiga um dia, como os mexicanos, saudar os mortos sem reviver momentos de dor. Enquanto isso, continuo dando voz ao realismo mágico que me persegue. Talvez seja esse o meu modo de desafiar a morte: escrevendo para que, de algum modo, algo de mim nunca seja esquecido.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

