Aprendemos a associar a saúde a um leque de cores vibrantes. O Outubro Rosa nos alerta sobre o câncer de mama, o Novembro Azul sobre a próstata, e o Setembro Amarelo serve de prevenção ao suicídio. São campanhas que, por meio de símbolos visuais, mobilizam a opinião pública e dão visibilidade a questões de saúde complexas. Da mesma forma, em ambientes clínicos, a Escala de Manchester usa cores como o vermelho, o laranja, o amarelo, o verde e o azul para priorizar atendimentos, garantindo que a urgência seja tratada com a devida rapidez.
Essas ferramentas, inegavelmente eficazes, têm um ponto em comum: focam em manifestações de doenças. Elas organizam e comunicam informações sobre um diagnóstico ou uma emergência clínica, sem aprofundar em causas sistêmicas que podem levar a essas condições.
A medicina e a saúde pública, no entanto, têm evoluído para além dessa abordagem, questionando uma outra paleta de cores. Um artigo publicado na prestigiosa The New England Journal of Medicine, em maio de 2021, intitulado “Compreendendo e atenuando as desigualdades em saúde – Direções passadas, atuais e futuras”, descreve bem essa trajetória.
A partir da década de 1970, pesquisadores nos Estados Unidos começaram a documentar disparidades de saúde alarmantes entre a população branca e as minorias raciais. O Relatório Heckler, de 1985, foi um marco, pois foi o primeiro documento governamental a focar exclusivamente na saúde de minorias, expondo a maior carga de doenças e a menor expectativa de vida desses grupos.
Avançando, os estudos passaram a incluir o fator socioeconômico. O relatório Tratamento Desigual (2003) documentou como a falta de acesso a serviços de saúde e a ausência de seguro médico aprofundavam essas desigualdades. Essa nova perspectiva demonstrou que a saúde não era apenas uma questão de genética ou estilo de vida, mas também de acesso, de ambiente social, de educação e de oportunidades.
Pesquisas mais recentes, impulsionadas por eventos como a pandemia de COVID-19 e o assassinato de George Floyd, argumentam que o verdadeiro desafio é o racismo estrutural. A nova abordagem entende que “raça” e “etnia” são construções sociais, não fatores de risco médicos. O foco, portanto, deve ser em como o racismo, o etnocentrismo, a homofobia e o sexismo impactam diretamente a saúde. A luta pela equidade não está na superfície dos sintomas, mas na remoção de barreiras sistêmicas que negam a minorias o acesso à mobilidade econômica, a uma educação de alta qualidade e a empregos bem remunerados.
Enquanto a ciência avança na compreensão das causas estruturais da desigualdade, a realidade política parece seguir um caminho oposto. Em particular, no país dos autores do artigo, que não puderam prever esse ponto de inflexão. O enfraquecimento de agências e programas de equidade, bem como a redução de recursos para organizações globais de saúde, tornam a batalha ainda mais complexa.
A verdadeira luta pela equidade em saúde não se sustenta apenas nas cores vibrantes de campanhas de conscientização, mas em um esforço contínuo e mais sutil para desmantelar as políticas e as barreiras que perpetuam a desigualdade. É uma batalha que exige um olhar mais profundo, que se concentra nas estruturas obscuras que determinam a qualidade de vida e a longevidade. Para além do espectro visível do arco-íris.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

