1 – Foi uma longa mudança de Buenos Aires para Canela. Não em distância, mas em tempo.
2 – Também o escândalo ainda não de todo consciente da transição de paisagem.
3 – Sai o concreto, entram as araucárias. Embora esta cidade esteja convertida em uma enorme boca banguela pelos buracos dos canteiros de obras. Quando moramos aqui durante a pandemia, talvez fizesse jus ao pórtico que da estrada promete beleza natural.
4 – Tão natural quanto os preenchimentos das celebridades argentinas, que nada distam das brasileiras, que por sua vez seguem as americanas.
5 – Mas pela janela chega o cheiro da resina dos pinheiros, que em nada se parece com os aromas que o prometem nos produtos de limpeza. Passa o mesmo com a lavanda.
6 – Gosto de imaginar que pela forma, estas crônicas serão uma continuidade de Buenos Aires, Hora:Zero.
7 – A continuidade da forma é uma das grandes ilusões que erguemos como espécie.
8 – Por vezes, apenas o que sobrevive é a forma. A forma do poder, a forma da democracia, a forma das relações, a forma dos textos.
9 – A forma das cidades. Os mapas que interiorizamos. Sair pela calle Medrano e seu circuito: a fiambrería La Alacena, na esquina da Gascón com a Cabrera, depois a padaria na Salguero com a Soler (Buenos Aires acontece nas esquinas). Agora é o deserto de atrações da Tenente Manoel Correa, que tomo até a Paul Harris para chegar ao súper Forrageira. Há muitas atrações em Canela, mas poucas que não sejam caça-turistas. Há lugares mais interessantes na parte raiz da cidade, mas cabe a discrição aqui para preservá-los.
10 – Há que louvar a paz, no entanto. Uma paz que o agito de uma das capitais do mundo parece nunca conceder.
11 – Aqui também não há livrarias, o que é triste para a alma, mas muito útil no orçamento.
12 – A paz do interior e da serra. Um pouco daquilo que Eça de Queirós desenha como pano de fundo ideológico do seu A cidade e as serras.
13 – E aceitar que sob o atual governo argentino já não se pode levar uma vida minimamente confortável: seja pela questão do câmbio, seja pela brutalidade de sua relação com as pessoas. Chegou um momento em que não podíamos mais tomar este problema como nosso.
14 – E agora tudo que há de movimento nas mudanças. E tudo o que dura, ou demora, ou desassossega mais do que costumamos prever.
15 – Curioso é observar as gatas.
16 – Como elas se adaptam.
17 – A viagem é um verdadeiro tormento. A adaptação ao novo lugar um pandemônio. Passados alguns dias, no entanto, tomam o novo lugar (e tudo o que a vista pode alcançar) como seu reino.
18 – Para nós a viagem pode ser prazerosa, a mudança seguramente trabalhosa (quem tem livros sabe o sentido pleno do verbo paletear — paletear quatro anos de solerte festa pelas livrarias portenhas), mas a nova cidade, quanto tempo nos tomará para a chamarmos nossa?
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Foto da Capa: Araucária / Wikipedia

