1 – Travo uma luta contra as notícias do Brasil.
2 – Mas elas se infiltram.
3 – O que antes era uma maneira de se sentir no mundo, hoje me parecem abrolhos. Não sei se deus tinha isso em mente ao condenar Adão.
4 – Assistirás todos os dias a matérias especiais com denúncias imprescindíveis, sobre os tipos bárbaros e sórdidos que te governarão, enquanto tentas ganhar o pão com o suor de teu rosto.
5 – Na serra ao menos se sua pouco.
6 – Por vezes me pergunto o que foram feito dos faits divers, aquelas curiosidades que salvavam a rotina de sua relevância com suas tontices redentoras: homem passa vinte horas trancado na sacada de um prédio automatizado. Jogadores da série C fazem um protesto contra a exclusão de pão de queijo da cantina do clube. Essas diversidades.
7 – É um tempo em que tudo é urgente. O que significa que são urgências nulas.
8 – O mundo do compromisso.
9 – As araucárias deixam cair suas sementes uma vez por ano.
10 – Até a próxima temporada de pinhões, os livros urgentes estarão a caminho do sebos.
11 – Não será uma sazão de tranquilidade nos noticiários, é certo.
12 – Mas o hábito.
13 – Aquele radinho ou a tevê ligada à espera das últimas informações.
14 – As fanfarras para a chegada dos correspondentes.
15 – De pequeno, eu achava que o correspondente Alfred na rádio gaúcha se chamava Alfred.
16 – Quando virou Ipiranga, eu já conhecia as artimanhas da publicidade.
17 – Por um tempo, hábito herdado, eu até escrevia com o rádio ligado.
18 – Hoje só música, ou o ruído fluvial da fonte de barro que a Tainá comprou para as gatas.
19 – Dizem que os bichanos preferem beber de uma água corrente.
20 – Este fluir. Era este fluir o mais reconfortante das notícias.
21 – Nos canais de notícia, ao menos, sinto-me diante de um poço parado. Há larvas, há girinos, porque, por sorte, a vida sempre é maior do que nós.
22 – Mas há esse cheiro úmido e pútrido.
23 – Porque talvez o que era córrego estancou.
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