
1 – Que a poesia é uma forma especial de linguagem, não é novo nem difícil de notar.
2 – A antifrase dos versos. O antiparágrafo das estrofes. A antiprosa do poema.
3 – No entanto, há alguns anos, desde minha ida para a Argentina e um retorno ao mundo do papel de tantas livrarias, dei-me conta — ser de lentidões — de que a poesia precisa da página impressa de um modo que o texto prosaico não precisa (ou precisa menos, não é hora de arrumar confusão com os pepelófilos).
4 – É uma questão de forma e de disposição da mancha na página.
5 – Nos kindles da vida, muitas vezes um poema perde seu desenho, seus cortes, o que pode alterar radicalmente seu sentido. Ademais, é esperado pedir dos versos uma leitura morosa, porosa, melhor dito, a fibra de certas folhas amareladas é uma espécie de pantalha, presença verdadeira e necessária, pois um poema é sempre um ato existencial ativo, incrustado no coração do momento, em mãos que esperam do vidro e da luz outras coisas, não o conforto que o papel oferece.
6 – Talvez por isso fiz subir a serra só os livros de poesia de minha biblioteca porto-alegrense, que lá encontrarão os tantos poetas que trouxe de Buenos Aires.
7 – Alguns devem pensar que nem a prosa merece o destino de ser um arquivo digital. Concordo. Mas concordarmos não muda o mundo editorial. O que também não importa tanto: eles nos excluíram antes que o fizéssemos.
8 – Reencontro livros depois de seis anos, se agregamos aí os anos da pandemia.
9 – Há muitas pessoas que não via em igual medida. Em meu próprio espelho, percebo que o tempo é mais gentil com os livros. Deve ser de se moverem menos, de preservarem suas celuloses.
10 – Porto Alegre é uma cidade horrorosamente quente. Ou estamos desacostumados.
11 – É hora de subir a serra. Se não podemos ir ao sul, que seja para cima.
12 – Doze sacolas de plástico com livros de poesia, quase arrebentadas, esturricando o pobre esquilo vermelho.
13 – Para um lugar onde o frescor das manhãs melhora tudo.
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