Houve um tempo em que fomos um país dominado por colonizadores, quando navegadores vindos de terras distantes chegaram em busca de lugares que julgavam sem dono, prontos para explorar e chamar de seus. Esses exploradores desconsideraram o que já existia por aqui e, impondo as suas regras e costumes, enfiaram-nos goela abaixo a sua cultura e religião. Sem aceitar que já existiam povos com línguas, crenças, modos de viver e de celebrar a vida, esses estrangeiros nos ensinaram a dar mais valor ao que vinha de fora.
Já fomos um país onde o povo originário foi obrigado a ceder aos caprichos de uma pequena elite manipuladora, portadora de hábitos diferentes dos seus. Escravizados e expropriados, quando seu trabalho já não bastava, foram substituídos por outros povos, arrancados de suas casas em terras distantes, sem qualquer poder de escolha, e forçados a vir para esta terra de ninguém, condenados a servir em troca de comida.
Já fomos um país fortemente influenciado pela cultura europeia — ora portuguesa, ora francesa — imitando suas artes, gastronomia, moda e costumes. Um país que desvalorizou suas próprias tradições em favor de consideradas mais requintadas. Uma pátria que, um dia, decidiu desvincular-se do colonizador e cuidar de si mesma, embora ainda não compreendesse muito bem o significado de liberdade, demorando a estendê-la em toda a sua amplitude a todo o seu povo.
Já fomos um país que se considerou independente ao romper com Portugal e assumir a própria soberania. A partir de então, passamos a valorizar a nossa cultura, advinda da mistura de muitas etnias que chegaram ao longo dos anos e fizeram desta terra a sua morada. Essas influências diversas foram se entrelaçando, moldando aos poucos a identidade única do Brasil, feita de contrastes, resistências e criatividade.
Hoje somos um povo soberano e, mais do que nunca, buscamos reconhecer e celebrar nossa história, nossas raízes e a riqueza de cada cultura que compõe este território. No entanto, percebo que essa soberania ainda é pouco refletida entre os leitores brasileiros. Quando entro em uma livraria e observo o interesse das pessoas, entristeço-me ao notar a enorme procura por literatura estrangeira, principalmente a americana. Não me refiro aos clássicos, estudados nas faculdades de Letras, mas aos best-sellers, às modinhas do momento. Falo daqueles livros que contam com milhares de divulgações em redes sociais e que, quase sempre, são mais do mesmo: estruturas que seguem fórmulas repetidas, personagens parecidos, histórias que se repetem em lugares diferentes.
Enquanto esses títulos ocupam as vitrines e atraem a atenção, a literatura brasileira, que se renova a cada dia, permanece escondida nas prateleiras, aguardando que sua hora finalmente chegue. Poucas obras que falam do nosso cotidiano, da nossa cultura e da nossa história ganham a visibilidade que merecem, muitas vezes por falta de divulgação, mas, na maioria dos casos, por falta de interesse do leitor, que ainda considera melhor o que vem de fora.
Dar mais espaço nas livrarias e bibliotecas a autores nacionais, à riqueza das vozes que nascem em nossas cidades, campos e favelas, é um ato de reconhecimento da nossa própria identidade. Para que o Brasil seja soberano, a literatura brasileira precisa ser melhor valorizada. Neste mês da Independência, que tal celebrar escolhendo um livro de um autor nacional e mergulhar na riqueza da nossa narrativa? Como leitora assídua de literatura nacional, eu garanto que você não vai se arrepender.
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