Tento fazer alguns cálculos. Não é fácil, na tabuada tresloucada do tempo. Não desisto, eu calculo de novo e desconfio de que conheci Gley Costa quando ele tinha 47 anos. Moreno, porte esbelto, jovem ainda, um homem bonito. Esbanjava a vida que espargia por onde passava. E discorria sobre a psicanálise com a vida que esbanjava. Foi meu professor de psiquiatria, depois de psicanálise. Mais tarde, fomos professores juntos, na mesma disciplina de psicoterapia. Ali já éramos amigos.
Gley sempre foi um amigo fiel e atento. Verbalizava isso claramente, depois juntava a palavra com a atitude. Fora da curva no entusiasmo de viver, não deixava de ser uma pessoa “normal”, ou seja, discutia, debatia, ganhava tempo, perdia. Às vezes, expressava muita raiva das coisas como elas eram. Mesmo furioso, não recuava aos desafios. Sim, a vida não bastava, portanto escrevia livros bem-humorados que eu lia. E lia todos os meus.
Continuou sempre trabalhando muito, só não mais do que o tempo. Calculo hoje que passou dos 80. Segue trabalhando, não perdeu porte nem beleza, e o olhar penetrante deixa clara a presença de um menino dentro dele. Claro que a pele é outra, a coluna e, às vezes imagino, nos meus 60, que também a próstata. Devem lhe doer algumas juntas, e sou capaz de jurar que pensa duas vezes, antes de se agachar para pegar um papel que caiu. Mas o que mais me chama a atenção em suas mudanças inevitáveis não poderia ser revelado a um olhar objetivo. É de outra prateleira, subjetivo como a psicanálise que ainda o apaixona.
Gley vem se mostrando cada vez mais entusiasmado pela vida. Se não me falha a observação, é o que está acontecendo. Não raramente, ele exalta um dia em seu começo, ou vibra no final dele, retomando o que fez ou não fez. Não é difícil acompanhar seus movimentos, 40 anos depois de conhecê-lo, quando já pode mandar mensagens, em tempo quase real. Vibra a cada novo livro escrito ou vivido. A cada conquista individual e, sobretudo, da sociedade de psicanálise a que ambos pertencemos. Desfaz conflitos com uma frase ou duas e, mais ainda, com um silêncio certeiro. Fosse falante, o silêncio pronunciaria que não há tempo a perder, a não ser para perder tempo com a elegância de um sábado anunciando um encontro ou mesmo se não há nada para fazer. Até com o Grêmio, que vem azucrinando a vida de tanto jovem, ele se tornou condescendente.
Sejamos claros: Gley já estava bem quando eu o conheci, há quarenta anos, mas hoje está muito melhor. Eu quero envelhecer como ele. E venho me dedicando, pois a tabuada continua tresloucada e me diz que já não tenho muito tempo para isso.
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Foto da Capa: Gley Costa / Reprodução do Youtube

