Está em voga falar que vivemos um tempo de adoecimento. Freud, mirando seu contexto, deu-se conta daquilo que chamou de “mal-estar na civilização”. Referia-se à infelicidade inerente à vida em sociedade, causada pelo conflito entre os instintos individuais (pulsão de vida e pulsão de morte) e as exigências da cultura, que reprime essas pulsões para garantir a ordem. Construiu sua crítica e um mecanismo de intervenção naquela sociedade doente. Propôs teorias e assumiu polêmicas sobre as quais nos debruçamos até hoje. Muito se tem investigado e produzido acerca das enfermidades contemporâneas. Eu me atrevo, doravante, a tratar de uma doença grave e crônica do nosso tempo que me habilito a chamar de violência. Trata-se de um fenômeno social e econômico importantíssimo, cujas raízes mobilizam profissionais multidisciplinares. Não vou tratar da complexidade dela e nem me bastar propugnar que o texto que trago a público apresente o busílis da questão.
A teoria dos mecanismos de defesa de Freud continua relevante na psicologia contemporânea, embora tenha sido significativamente atualizada e reformulada com base em mais de 50 anos de pesquisa empírica. A ideia de que o inconsciente utiliza estratégias para proteger a mente da angústia e do estresse é amplamente aceita, mesmo por psicólogos de outras orientações teóricas. Não se avexe em estranhar minha proposta. Não vou sugerir que a violência coletiva e a individual sejam exclusivamente mecanismos de defesa. Ouso, porém, advogar que também o são ou, ao menos, podem ser. Tento entendê-las como uma patologia social emergente de um chão cada vez mais tenso, desigual e injusto.
Comumente falamos em “mecanismos de defesa” sem atentarmos para a complexidade da palavra. Quaisquer atitudes que impliquem desculpar-se, esconder uma “verdade” pessoal, dissimular um desejo, velar um fato, podem albergar-se no termo. Como exposto acima, Freud empreendeu sua teoria da defesa como de importância visceral para a Psicanálise. Se nos deitarmos um pouco sobre o termo utilizado para expressar a importância que ele atribuiu a ela, devemos compreendê-la como teoria (ou ideia) indispensável, originante, o alicerce ou base, e — para fazer eco ao termo — fundamento. Assim, podemos dizer que as especulações iniciais do Pai da Psicanálise sobre a defesa tornar-se indispensável para o desenvolvimento dela… Aliás, ele mesmo dirá: “Afinal, eu queria apenas explicar a defesa, mas, quando dei por mim, estava tentando explicar detalhe que pertence ao próprio núcleo da natureza. Tive que elaborar […], em suma, a psicologia inteira” (Freud, 1895). Esclareço: desenvolvida no intuito de mapear a trajetória do conceito de defesa, ressaltando suas relações com as resistências, sua pesquisa acabou revelando-se muito mais abrangente. Para Monteiro & Fontenele (2012/2013, p. 28), “na trama de conceitos da psicanálise, a defesa ocupa uma posição fundamental, e a trajetória do uso desse termo confunde-se com a própria evolução da psicanálise.”
Lacan (1953) atentou a que Freud serve-se da categoria resistência para implicar o sujeito em sua mensagem. O discípulo do austríaco assinala a importância que este confere à palavra. Dela emerge o sujeito. Mediado por ela, nomina seu mundo, relaciona-se com ele, encontra os outros. Decodifica e oferece sentido às suas experiências. Muitos, entretanto, não ditos, permanecem travestidos por ditos que ou não dizem tudo ou nada pronunciam. Freud, utilizando o recurso da palavra e debruçando-se sobre sintomas velados, pôde problematizar o adoecimento oriundo de tal ação: enfrentar o intento de compreender o funcionamento do aparelho psíquico, teorizando sobre a defesa.
A trajetória do neurologista tem início com seu esforço de desvendar o inconsciente desconhecido, analisando-o; vale dizer, praticava o exercício da interpretação. No momento seguinte, o analista debruça-se sobre as resistências do analisando com o escopo de revelar ao paciente as motivações profundas do desprazer. Dessa forma, a defesa é direcionada aos fatores de desprazer, quer dizer, às fontes de estímulo externas ou internas capazes de prejudicar a integridade do indivíduo.
Levando em conta o quanto até aqui foi exposto, é possível afirmar que a teoria da defesa foi a primeira contribuição, ao mesmo tempo, original e relevante de Freud para o campo da medicina e da psicologia. Em meados da década de 1890, ela é tornada pública e, conforme afirma o próprio, constituirá a “pedra angular sobre a qual repousa toda a estrutura da psicanálise” (Freud, 1914/2006).
Laplanche (2001) explica que “ao colocar em primeiro plano a noção de defesa na histeria e, logo a seguir, nas outras psiconeuroses, Freud delineou a própria concepção da vida psíquica em oposição aos pontos de vista dos seus contemporâneos”. Desde já, na sequela do dicionarista, é possível firmar posição pela centralidade do termo, asseverando, assim, a afirmação do psicanalista.
O conceito de defesa foi desenvolvido, na teoria freudiana, a partir de 1919, de modo fundamentalmente ligado à experiência psicanalítica. A sua teorização reveste-se de grande importância clínica, na medida em que foram as resistências, entendidas em um primeiro momento como reflexos clínicos da defesa, que mobilizaram as mudanças na técnica e, por conseguinte, as reformulações teóricas em torno da concepção de cura em sua relação ao proceder psíquico neurótico (Fróes & Viana, 2013). A primeira utilização empreendida do termo “defesa” ocorreu no texto “Neuropsicoses de defesa” (1894). Antes disso, porém, Freud já especulava em torno desse processo, mesmo ainda não o tendo nomeado como tal. O estudo das origens das concepções sobre defesa remete às suas investigações acerca do trauma. Inicialmente, a concepção da defesa refere-se a um ato voluntário de afastar sensação ajuizada como desprazer do psiquismo. Trata-se de um “esquecimento” intencional praticado com êxito por diversas pessoas. Significa um esforço de evitar o desprazer. Freud formula o mecanismo de defesa como o resultado do confronto do ego com uma experiência não prazerosa. Diante de tal situação, o indivíduo decide abortar o motivo de seu sofrimento.
Para aplicar a teoria da defesa de Freud à análise da violência urbana, necessário se faz ir além do comportamento individual e considerar como os mecanismos de defesa operam nos níveis coletivo e social. A violência, sob a perspectiva psicanalítica, não é apenas um ato, todavia uma manifestação de um desequilíbrio psíquico profundo, tanto em nível pessoal quanto em nível social. Além disso, admitamos que há uma gestão do sofrimento humano preconizada pelo neoliberalismo que, em alguma medida, usufrui seus benefícios. Verdade! Afinal, a quem serve a invasão de nossas cidades por milícias que as ocupam e nelas espalham toda cizânia possível? Um dos pontos de partida é o conceito freudiano de “desamparo” (ou “desamparo original”), a vivência da criança incapaz de satisfazer suas necessidades e que depende totalmente do outro para sobreviver. Esse estado inicial de vulnerabilidade é a raiz de muitos conflitos psicológicos. Em um contexto de exclusão social e desigualdade (fatores muitas vezes ligados à violência urbana), o desamparo inicial pode ser revivido e intensificado, levando o sujeito a desenvolver defesas agressivas para proteger-se de uma ameaça que ele sente como aniquiladora.
Um exemplo razoável pode ser observado na “projeção”, um mecanismo de defesa no qual um indivíduo atribui a outros sentimentos ou desejos que considera intoleráveis em si mesmo. Na análise da violência urbana, isso pode manifestar-se de várias formas. Tome-se o exemplo de um indivíduo que sente internamente desejos agressivos ou destrutivos e pode projetá-los em um grupo social ou figura de autoridade, vendo-os como inimigos perigosos que merecem ser atacados. A violência, nesse caso, torna-se uma forma de defender-se desse “mal” externo. Para a sociedade, os estereótipos que desumanizam certos grupos sociais (como os assentados ou moradores de rua) podem ser entendidos como projeções coletivas. A sociedade pode projetar os próprios medos e agressividade nesses grupos, justificando, por eles, a brutalidade e a violência contra eles. Isso promove a desidentificação e a estigmatização, servindo a impulsos negativos. A negação e a repressão de conflitos internos também podem manifestar-se de forma coletiva, concorrendo para a violência urbana.
Em última análise, a aplicação da teoria da defesa freudiana à violência urbana sugere: a violência não é apenas um problema social; ao contrário, é um sintoma de desequilíbrios psíquicos profundos, tanto individuais quanto coletivos. Mecanismos de defesa, como a projeção e a negação, operam, pois, em nível social, reforçando estereótipos, justificando a brutalidade e perpetuando a exclusão, de tal modo que a violência urbana pode ser a manifestação de um desamparo originário e de uma pulsão de morte não mediada, levando à quebra dos laços sociais que sustentam a civilização. Como deixei pronunciado já no início deste texto, uma análise psicanalítica da violência urbana não justifica a agressão; busca, entretanto, compreender suas raízes psicológicas, muitas vezes inconscientes.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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Foto da Capa: Polícia Civil RJ / Divulgação

