Tive um professor na pós-graduação que contou uma história que nunca esqueci, e que ele jurava ser verdadeira.
Ele era advogado em São Paulo e atendia um cliente bem poderoso, dono de uma empresa do ramo financeiro. Na verdade, ele estava acostumado a resolver todo tipo de problema jurídico dos sócios também, na empresa ou na vida privada.
Anos 80, os telefones eram fixos, e não existia a lei seca, apesar de beber e dirigir nunca ter sido uma boa ideia. Uma madrugada, o cliente ligou para o meu professor pedindo socorro.
A filha, menina jovem, rica e cheia de si, tinha atropelado e matado uma pessoa na rua, enquanto dirigia em alta velocidade e embriagada pela madrugada paulistana. Fugiu sem prestar socorro, mas logo foi detida ao tentar atropelar um poste, e o professor, que era especialista em negociações e direito, foi chamado para resolver o problema.
Muitas horas, argumentos e dinheiro depois, o professor sai da delegacia com a menina já sóbria e sem qualquer acusação pendente.
No dia seguinte, o professor recebe a notícia, através da secretária, de que não trabalhava mais para a empresa. Procurou o então ex-cliente e recebeu uma explicação irrefutável: a filha, num ataque de consciência repentino, não queria que o pai ou a empresa tivessem qualquer relação com um advogado corrupto.
Sim, você leu isso direito. O culpado era o advogado. Não que eu goste de advogados ou ache que o que ele fez foi certo, mas ele foi o que limpou, da forma mais capitalista e injusta possível, a caca que a menina fez.
Essa atitude de terceirizar a culpa, que talvez nem ela soubesse que estava sentindo, funciona como uma blindagem da mente da frustração gerada por algo que a pessoa fez, ou não fez.
Pouco tempo atrás, presenciei o encontro de duas pessoas que tiveram um relacionamento e não se viam fazia anos. Acabou de forma desagradável, mais ou menos civilizada, e nunca mais se viram. Até se esbarrarem no local onde eu estava com uma das partes e, estando a outra parte embriagada e cheia de si, veio falar algumas das coisas mais horríveis que já ouvi na vida. Sim, uma fez um serviço sujo pra outra, tipo o do meu professor advogado. Não, não foi um crime, mas não foi algo de que ela se orgulhava, e assim como meu professor, ela também tinha uma parcela de culpa no cartório da vida.
Passado o evento, não consegui parar de pensar e relacionar as duas histórias.
Li em algum lugar que as pessoas vão tentar transformar o outro no que elas quiserem, vilão ou mocinho. E acusações, raiva e palavras horríveis direcionadas a outros, são na verdade um espelho, onde o fracasso que não queremos enxergar em nós mesmos acha pouso em quem fez parte do nosso reflexo.
Todos os textos de Anna Tscherdantzew estão AQUI.
Foto da Capa: Freepik

