
Tomo a liberdade de trazer aqui algumas reflexões da minha irmã Marlene Teixeira, que encontrei por acaso em uma pasta ao procurar um documento. O texto faz parte de um estudo que ela fazia sobre os movimentos transgressores de sujeitos excluídos em canções de Chico Buarque (1964-1994) que, segundo ela, atendia a um duplo propósito: “falar de um tema que particularmente me afeta; dirigir um olhar de outra natureza a uma obra de presença marcante em meus ‘verdes anos’ e que sempre me tomou pela emoção. Sobretudo, interessa-me observar por onde o texto de Chico, com um singular talento, nos ensina sobre questões que concernem ao sujeito em desvio”.
Para Marlene, “a obra musical de Chico Buarque ganhou reconhecimento pelas questões ideológicas a que deu espaço numa época de franco exercício da força bruta”. E, quando usa a expressão ‘força bruta’, refere-se à cruel ditadura militar que vivemos no Brasil, de 1964 a 1985. Um regime autoritário que iniciou com um golpe que derrubou João Goulart em 31 de março e 1º de abril de 1964. A partir daí, vivemos 21 anos sob uma forte censura e uma repressão violenta que torturou, matou e sumiu com muitos opositores.
“Chico é também visto como um dos poetas que captou o feminino com sensibilidade rara e ainda como quem dá voz aos desvalidos, aos desatinados, às meretrizes (Geni e o Zepelim, 1977/1978), às crianças que só comem luz (Brejo da Cruz, 1984), às mães desnaturadas, à gente do mangue e do cais do porto”.
Doutora em Letras, professora de Linguística Aplicada na Unisinos e uma estudiosa do poder da palavra, Marlene, uma parceira incrível, de sensibilidade rara, explica por que tomou o texto artístico como ponto de observação.
“Considero o saber que vem pela arte fundamental”.
“No campo acadêmico, as relações entre a ciência e a arte são pensadas sob o modo de uma divisão de trabalho que, no caso da área em que atuo, a de Letras, mostra-se na própria organização curricular dos cursos: língua e literatura não são colocadas em diálogo. Isso reflete uma predisposição típica do cenário ocidental: a escrita da ciência dedica-se ao desenvolvimento de modelos de conhecimento universalmente válidos. A escrita literária faz-se das peculiaridades perturbadoras e intrusas do conhecimento, tidas como irracionais. Considero o saber que vem pela arte fundamental. A arte faz o pensamento lógico esbarrar em seu limite absoluto, assume um tom pungente, toca nossos pontos sensíveis. É nela que os acidentes ilegítimos e perturbadores da racionalidade científica encontram uma forma de representação, porque na arte, como no inconsciente, há um saber fundamental e primitivo que falta à ciência. O texto artístico sabe que lida com a ilusão. Não busca falar em nome dos fatos nem procura presentificar uma realidade”.
Marlene selecionou 20 canções* de Chico Buarque para exemplificar suas reflexões e conduzir o estudo que fez. Canções que trazem pequenas histórias de homens comuns, representantes de segmentos excluídos da sociedade brasileira. E o que fica evidente, segundo ela, é que Chico não se coloca como quem tem ‘a boa palavra’ a dizer pelos que não têm como dizê-la: “Os sujeitos de suas canções têm independência, agem como se não fossem objeto da palavra do autor, mas veículo de sua própria palavra, e, o que é mais importante, essa palavra tem uma tonalidade singular. Chico nos coloca diante de sujeitos investidos do direito de se dizer, de dizer de seu jeito o seu lugar, que articulam linguagens sociais de diferentes acentos”.
Entre as canções estão “Ela desatinou” (1968), que traz uma mulher que desafia o princípio de realidade, uma “infeliz feliz”, representando a defesa da vida, a fantasia e o cetim, que se mantém sambando, num carnaval que não acaba, transgredindo regulamentos, contra as forças de extermínio do sonho e da alegria. Aí vem com “Partido Alto” (1972), com foco em um ser mutilado física e socialmente que é jogado na “barriga da miséria” por uma força maior. É um anti-herói que se apresenta como “cara fraco, desdentado e feio / pele e osso simplesmente / quase sem recheio”, atributos que remetem à obscuridade, mas que afirma “Um dia ainda sou notícia”, mostrando que é capaz de driblar os contratos sociais. Segue com “Folhetim” (1977/1978), que traz as mulheres prostituídas “que só dizem sim por uma coisa à toa, uma noitada boa, um cinema, um botequim”, mas que anunciam ao homem que, na manhã seguinte, ele será “página virada, descartada” do seu folhetim.
São canções que chamam a atenção para uma das características da obra musical de Chico, “o deslocamento do foco de momentos em que os desvalidos aparecem em condição de vítima para movimentos de astúcia”. Seres que resistem e tornam-se ativos. “Podemos dizer que o enredo armado nessas canções acentua o potencial ‘dissonante’ de vozes, articuladoras de linguagens sociais de diferentes tons, que se fazem ouvir onde não são esperadas”. Não há representações estereotipadas ou grandes acontecimentos. São pequenos relatos que sintetizam o que diz um verso de outro grande compositor e cantor brasileiro, Caetano Veloso: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. É essa delícia que abala a visão totalizante da normalidade do imaginário social que precisa ser exposta porque, continuando com Caetano, “de perto, ninguém é normal”.
Este texto, que sintetizei para trazer aqui, Marlene apresentou em uma mesa-redonda no Seminário BRASIL POP – 2004, com o TEMA: CHICO BUARQUE, em 29 de outubro de 2004.
*As canções selecionadas foram: Meu refrão (1965), Pedro pedreiro (1965), Fica (1965), Logo eu? (1967), Folhetim (1967/1968), Ela desatinou (1968), Umas e outras (1969), Baioque (1972), Mambembe (1972), Quando o carnaval chegar (1972), Partido Alto (1972), Vai trabalhar, vagabundo (1975), Homenagem ao malandro (1977/1978), Geni e o Zepelim (1977/1978), Até o fim (1978), Uma canção desnaturada (1979), Sob medida (1979), O meu guri (1981), Brejo da Cruz (1984) e Biscate (1993).
Todos os textos de Lelei Teixeira estão AQUI.
Foto da Capa: Arquivo Pessoal da Autora.

