Ela já estava velha e cansada: não tinha mais o vigor da juventude.
Foi ela, sempre ao lado de sua irmã gêmea, que, adolescente, imprimiu velocidade ao conjunto orgânico na frustrada tentativa da escumante boca em delatar o guerrilheiro Carlos Lamarca. Na verdade, era ela, sob brim verde oliva, quem realizava as marchas quilométricas, sustentando um peito cheio de soberba e uma cabeça vazia de ideias; cujo movimento repetitivo do vai-e-vem pendular fazia roçar a borda do coturno que, após as longas caminhadas, sempre lhe feria a branca pele de ascendência europeia. Era ela quem aguentava o pesado impacto do contato ao chão nos saltos de paraquedas. Ela sim, nunca fraquejou! Sempre suportou, óssea, aquela desproporcional quantidade de massa muscular em relação a tão pouca massa craniana. Era ela que, em nova fase, empreendia as idas e vindas do gabinete ao plenário na Câmara de Vereadores carioca e depois na Câmara Federal em Brasília, quando as atividades da caserna cederam lugar ao ócio infecundo. Nesta época, era ela o membro indispensável para as puladas de cerca; era o órgão sem o qual o cocuruto fardado com franja militar não poderia conceder caneladas a torto e à direita.
Caminharia assim até seus últimos dias, porém, o mais que inesperado aconteceu: ela agora se encontrava subindo a rampa do Palácio do Planalto! Apesar de ninguém ter lhe prestado atenção: ela estava lá! Mais uma vez marchando e, como sempre, fiel. Tempos depois, foram seus dias de glória: foi vista em luxuoso balneário, montada sobre um potente jet-ski; fotografada saindo do mar, em churrascos e à beira de piscinas. Dali pra frente, pensou: jamais sofreria novamente, jamais passaria apertos. Começou a fazer coisas que jamais imaginara: ajoelhou-se em púlpitos e em rio de batismo. Não havia mais longas marchas ou fraturantes aterrissagens; tornara-se órgão indispensável no modo pelo qual o juízo transloucado comandava as coisas do país: distribuição generalizada de caneladas. Era uma canelada para quem pedisse providências para epidemias e para quem rogasse empatia às vítimas, era pernada na liberdade de imprensa, era chute em aliados desnecessários, pontapé em qualquer ética republicana, era bicuda quebra-osso no Estado Democrático de Direito. Acreditou que todo seu sacrifício não fora em vão, pois cria ser acondutora de um messias.
Porém, apesar de tudo estar caminhando como nunca havia sonhado, eis que, numa noite, acorda sobressaltada: sonhara com sua prima proscrita, um espectro nefasto que, por Recife (lá pelos tempos do general ditador Garrastazu Médici), assombrava crianças e meninos, um membro inferior fantasmagórico: a perna cabeluda. Que sussurrando lhe diz: — É sempre trágico o destino de um ente subjugado ao domínio de um tolo!
De imediato, não acreditou no agouro que sua parente próxima lhe trouxe no pesadelo. Pois ainda se deparava subindo escadas de trio-elétricos e sustentando o mesmo conjunto orgânico (agora empobrecido de viço) e sua escumante boca, desta feita, cuspindo impropérios sobre os pratos que um dia lhe serviram. Porém, certa noite, antes mesmo de raiar o dia, cumprindo-se o agouro da parente macabra, já se encontra de pé e partindo ligeira para destino incerto. Dias depois, não tem marcha, não tem salto, mas também não tem praia famosa, lanchas e iates, já não a postam em fotos e os ajoelhos são de pesar. Não tem vai-e-vem de gabinete a plenário: agora apenas se mexe balançando de um lado a outro, acompanhando nervosa, em reuniões infindáveis, o tronco sentado e a cabeça em ânsias. Ainda subiu em outros trios elétricos, mas esvaziados de plateia… Tremeu muito em sua volta à Praça dos Três Poderes; não seguia mais para a Câmara, muito menos ao Alvorada: seguia disfarçando sua tremedeira direto para o plenário da 1ª turma do STF.
Voltou para casa… Já não se encaminhava a churrascos ou piscinas… E, antes mesmo que tentasse uma última marcha, essa de evasão e fuga, amarraram-lhe uma coleira tecnológica atada por fita de polímero e aço.
Não tem mais coturno amedrontador, não tem mais improdutivo perambular pelos palácios, não tem mais jet-ski, não restou nem sequer os hipócritas ajoelhamentos, agora, o que ficou foi a realidade do vaticínio da perna cabeluda. E se dá conta de que mais sorte teve sua funesta prima, pois, diferente desta, nem sequer sairá por aí assombrando infantis e incautos: estará eternamente condenada a seguir conectada (separada apenas por um estômago avariado) a uma cabeça estúpida, tendo como condecoração uma tornozeleira eletrônica.
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Foto da Capa: Reprodução

