No último dia 25 de junho, celebramos um marco histórico: a recriação da Secretaria Estadual da Mulher no Rio Grande do Sul. Essa conquista só foi possível graças à mobilização de mulheres em cargos de poder na política, principalmente através da liderança da deputada estadual Bruna Rodrigues, autora da moção de recomendação pela retomada desta pasta.
Como mulher negra em posição de liderança no setor público, escrevo este texto reconhecendo a importância simbólica e concreta dessa data — que não representa apenas uma reparação institucional, mas também a construção de um novo ciclo político com o protagonismo de mulheres negras. Além disso, a recriação da Secretaria ocorreu a exatos 30 dias do 25 de Julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela — data que ecoa a ancestralidade, a resistência e a potência das mulheres negras que constroem este país, apesar da exclusão.
No Rio Grande do Sul, um estado caracterizado por profundas desigualdades de gênero e raça, a instituição desta Secretaria vai além de uma simples medida administrativa. Trata-se de uma demanda ética, social e civilizatória, uma resposta efetiva ao clamor por justiça, dignidade e sobrevivência de inúmeras mulheres, sobretudo as negras, que são as principais vítimas da violência institucional, simbólica e física.
Porém, não é suficiente apenas ter uma Secretaria Estadual da Mulher: é essencial que essa organização seja comandada por mulheres de diferentes origens — negras, indígenas, trans, com deficiência, de periferias — que entendem e experienciam os contextos de exclusão. Para que as políticas deixem de ser genéricas e se tornem verdadeiramente transformadoras, é necessário que haja uma representatividade feminina plural e antirracista nos espaços de poder, tanto no setor público quanto no privado.
Feminicídio: quando o racismo e o sexismo se combinam para nos matar
Vivemos em uma nação em que ser mulher é um fator de risco, e ser mulher negra aumenta essa ameaça. A cada sete horas, uma mulher é morta apenas por ser mulher. Somente no Rio Grande do Sul, tivemos 30 mortes por feminicídio no primeiro semestre de 2025. Num estado que possui uma herança racista profunda, essa violência se revela ainda mais brutal contra os corpos negros.
No Brasil, mulheres negras são as principais vítimas de feminicídio, e isso não é por acaso. É uma consequência direta do racismo estrutural, que nos desampara, nos silencia, nos torna invisíveis e nos marginaliza em relação às políticas públicas. De acordo com o Atlas da Violência, entre 2008 e 2018, os homicídios de mulheres não negras diminuíram em 11,7%, ao passo que os de mulheres negras aumentaram em 12,4%. Esses números não são meras estatísticas: representam vidas perdidas devido a um sistema que persiste em nos negar.
Uma Secretaria com identidade: liderada por nós e para todas nós
A recriação da Secretaria Estadual da Mulher precisa vir acompanhada de um reposicionamento político do Estado. A experiência tem mostrado que quem decide as políticas influencia diretamente no alcance e na qualidade delas. Quando há mulheres negras à frente da gestão pública, as políticas se tornam mais eficazes, mais humanas e mais conectadas com os desafios reais das populações historicamente marginalizadas.
Por isso, a nova secretaria precisa atuar com uma perspectiva interseccional, onde a diversidade não seja um adorno, mas um eixo estruturante. Entre as ações prioritárias, destaco:
- Prevenção com educação crítica: enfrentamento dos estereótipos de gênero e raça desde a infância, com formação antirracista e feminista nas escolas.
- Proteção com dignidade: serviços de acolhimento que considerem as especificidades das mulheres negras, indígenas, LGBTQIA+, com deficiência e periféricas.
- Autonomia econômica com equidade: políticas de fomento à economia solidária, ao empreendedorismo negro e à inserção profissional de mulheres em situação de violência.
- Dados com recorte racial e territorial: diagnóstico preciso para formulação de estratégias assertivas.
- Gestão com representatividade real: garantir que mulheres negras ocupem espaços decisórios, do gabinete ao conselho gestor.
Com mulheres negras no poder, a política muda de cor, de foco e de impacto
O restabelecimento da Secretaria Estadual da Mulher no RS deve ser uma ação efetiva rumo à justiça de gênero e raça. No entanto, isso não será suficiente a menos que haja um compromisso sólido com a inclusão de mulheres negras e diversas em posições de liderança. As políticas permanecem incompletas sem nossa liderança. Com a nossa presença, elas adquirem poder, identidade e reconhecimento. Que o dia 25 de junho seja recordado não só como a data da recriação de uma secretaria, mas como o começo de um novo período em que as mulheres negras não sejam apenas destinatárias de políticas públicas, mas também autoras, gestoras e protagonistas de sua criação.
A liderança feminina negra muda realidades, tanto no poder público, nas empresas, nas escolas e nas universidades quanto em comunidades periféricas. Representatividade é importante. Porém, a representatividade com poder de decisão é ainda mais importante.
Concluo este texto convidando-os a conhecer meu novo livro, O Protagonismo das Mulheres na Liderança – Vol. II. Nele, compartilho minha história e a de outras mulheres em posições de gestão, narrando nossas trajetórias, conquistas e desafios enfrentados ao longo da carreira.
Alyne Jobim é diretora de Articulação e Relacionamento na Superintendência de Educação Profissional do Rio Grande do Sul.
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Foto da Capa: Vitor Rosa / Governo do RS

