Nagib era ainda muito pequeno quando Samir se mudou com os pais para a casa ao lado. Era o dia do seu aniversário e ele não esperava receber um presente tão especial. Naquela época, ele mal compreendia o que significava ter um amigo. Sua vida girava em torno dos pais e dos avós paternos, não conhecia poucas pessoas além do seu pequeno círculo familiar.
A chegada de Samir mudou os dias de Nagib. Logo eles se tornaram inseparáveis. Brincavam no pátio até escurecer, trocavam figurinhas, passavam as férias juntos. A cada dia, os dois meninos sírios descobriram afinidades que os aproximaram ainda mais: ambos eram filhos únicos, praticavam a mesma religião, estudavam na mesma escola e compartilhavam o gosto pelas mesmas brincadeiras.
Nagib e Samir cresceram felizes em um país que ainda não conhecia o rosto sombrio da guerra. Mas tudo mudou no dia 15 de março de 2011, justamente quando Nagib completava doze anos. A partir daquele dia, ele nunca mais quis comemorar o próprio aniversário. Quando viu o mundo que conhecia, aos poucos ser destruído, não encontrou mais motivos para festejar. Mas ele ainda tinha Samir e a amizade entre os dois resistiu ao medo, à fuga, à dor de perder, um por um, os que mais amavam. Lado a lado, eles se apoiaram um no outro com a promessa de seguirem juntos, apesar de tudo.
Este é um breve resumo de Para onde vão as borboletas à noite, meu primeiro romance, publicado em 2020. A ideia inicial era retratar, por meio da história de uma família, as atrocidades de uma guerra. Mas então surgiu a amizade entre Samir e Nagib e, com ela, a narrativa encontrou um novo caminho.
Para escrever este livro, precisei, ainda que à distância, atravessar aquela guerra com meus personagens. Senti suas dores, seus silêncios, seus lutos. E confesso: não foi fácil. Depois de terminar, nunca mais ouvi os fogos de Réveillon da mesma maneira. Eles me lembram que há explosões que não anunciam festa. Também nunca mais assisti a uma notícia de guerra na televisão com indiferença.
Escrever essa história mudou algo em mim, assim como a amizade dos dois meninos também me marcou. E é sobre a amizade que eu pretendo falar no texto de hoje. A amizade: essa força invisível que resiste ao tempo, ao medo e ao silêncio, é o fio condutor da minha narrativa e, de certa forma, da vida. Um vínculo tão forte que tem até um dia especial no calendário para ser lembrado.
O dia 30 de julho foi instituído pela ONU como o Dia Internacional da Amizade com o objetivo de promover a “Cultura de Paz e Não Violência”. Contudo, ao contrário da maior parte do mundo, no Brasil, na Argentina e no Uruguai, essa celebração acontece no dia 20 de julho, data que, neste ano, foi comemorada no último domingo. Neste dia, as pessoas trocam mensagens de carinho com aqueles que consideram seus amigos, estejam eles próximos ou distantes, e lembram de seus novos e velhos amigos.
Mas o que é um amigo?
Um amigo é aquela pessoa com quem continuamos a manter relações depois que o ano escolar termina ou quando trocamos de emprego. É alguém com quem nos preocupamos e queremos por perto, mesmo depois de muitos anos de separação. Amigo é a primeira pessoa para quem desejamos ligar para contar uma novidade ou de quem queremos um abraço nos momentos difíceis. Um amigo está sempre conosco, mesmo que não nos encontremos todos os dias.
Eu diria também que um amigo é aquele que quer o nosso bem, que torce pelo nosso sucesso, mesmo não concordando com as nossas escolhas. Um amigo está presente na nossa formatura, casamento, lançamento de um livro. Ele faz propaganda das nossas qualidades e repreende os nossos erros. É quem segura nossa mão nas quedas e celebra conosco as pequenas vitórias. Um amigo escuta sem julgar, fala com sinceridade quando precisamos e sabe quando o silêncio é o melhor remédio.
A amizade é simples. É estar presente, apoiar, compreender e seguir junto, mesmo quando tudo ao redor parece desmoronar, e os meus personagens Samir e Nagib são a prova disso.
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Foto da Capa: Al-Issa (Unicef)

