A esta altura, todo jornalista do RS com 30 anos ou mais já contou alguma história edificante que viveu com o Professor Ruy Carlos Ostermann, que nos deixou no dia 27 de junho e recebeu todas as homenagens merecidíssimas para uma figura de sua importância na imprensa do Estado. Eu mesmo tenho algumas delas, mas, justamente para ir contra a maré, vou contar uma história da qual não tenho muito orgulho – embora, como aconteceu com outros depoimentos, me levou anos depois a aprender alguma coisa.
Comecei a trabalhar como setorista esportivo na Zero Hora em outubro de 2000. No mesmíssimo mês, o então presidente do Internacional, Jarbas Lima, o mesmo que havia dramaticamente chamado uma coletiva de imprensa para mostrar aos jornalistas o “cofre vazio” do Inter, renunciou ao cargo alegando razões de saúde. Jarbas sofria de um quadro de pressão alta, que ele chamaria na entrevista coletiva de “um inimigo invisível e silencioso”. Disse, inclusive, que um de seus olhos era cego como sequela daquele problema de saúde específico. Acompanhei a coletiva de renúncia no Beira-Rio e depois voltei para o jornal para escrever meu texto. Na chegada, fui questionado por meus companheiros de editoria sobre como a coisa toda tinha se desenrolado (eram outros tempos, sem algum xarope do online bafejando no teu cangote para parir dois parágrafos mal escritos em 30 segundos para colocar a coisa logo no site e “gerar cliques”). Contei o que havia visto e arrematei com uma conclusão pessoal, dado que estávamos numa situação informal.
À frente de um dos períodos mais medíocres do Internacional, assumidamente sem recurso algum, Lima havia se afastado da presidência do clube em setembro e havia dito textualmente que voltaria a assumir suas funções e que não renunciaria. Bem, como ele agora havia renunciado, mencionei a contradição e arrematei que a tal “nova gestão” prometida pelo grupo de Lima quando da sua eleição aparentemente era o modus operandi clássico há muito tempo na gestão do futebol (até mesmo no próprio Inter): levar estratégias de política eleitoral e sua noção fluida de verdade para a administração política do clube. Algo que nunca foi novidade em um futebol repleto de dirigentes e ex-dirigentes com carreira política parlamentar, em ambos os times da Dupla Gre-Nal.
O professor estava, aparentemente, alheio à conversa, digitando no computador que usava para escrever sua coluna, mas quando cheguei nessa parte, ele levantou a cabeça e disse com uma veemência que a mim pareceu surpreendente que não era nada disso, que eu não sabia de nada do que eu estava falando. Imagino que, entre outras coisas, pela própria atividade parlamentar que ele havia tido no passado e por inúmeros outros motivos, o professor fosse amigo pessoal de Lima e tomou minha declaração para o lado pessoal. Eu insisti que havia alguns fatos ali difíceis de contornar: a promessa de não renúncia, a renúncia, a motivação ser um quadro de saúde muito preexistente, já que Lima havia inclusive perdido a visão de um olho. No mínimo, ele fora um otimista descuidado ao aceitar concorrer. No máximo, apenas emprestou seu nome para quem de fato administraria o clube. Em ambos os casos, provocou uma crise institucional que talvez fosse evitável se o procedimento tivesse sido outro.
O professor, fulo, me respondeu: “Tá bom, então. Escreve isso na tua matéria, pode escrever aí se tu acha que é isso.”
Eu respondi que não ia escrever nada daquilo. Eu era um repórter, apurava fatos, a especulação pública era coisa de colunistas como ele, que viajavam em cima do trabalho operário de caras como eu. Mas, claramente, ele não escreveria nada daquilo na coluna dele no outro dia, pelo jeito.
Houve um certo silêncio de climão, entreguei meu texto, o professor entregou o dele. O silêncio era pesado porque, bem, o que havia acontecido ali era algo de repercussão grave. O Professor era um ídolo de todo mundo, mesmo daqueles que faziam piada com seu jeito desligado e distraído ou imitavam a entonação única de seu discurso. Não se brigava com o Professor, era essa uma regra tácita, entre outras coisas pelo papel venerando que ele ocupava na editoria. Eu sabia disso, e concordava, e também era fã dele, mas minha cabeça-quente muitas vezes levou a melhor sobre mim em situações parecidas.
Minha relação com o Professor ficou abalada a partir daí? Pois esse é o centro deste texto. Não.
Passados uns dois dias de algum constrangimento, o Professor seguiu me tratando com seus modos corteses de sempre. Nunca retomou o episódio e tenho pra mim que o esqueceu completamente em algum momento daquele mesmo ano (talvez daquele mesmo mês). Também jamais me destratou ou teve para comigo alguma espécie de prevenção ou implicância. Aliás, passou depois de um tempo a me chamar de Carlinhos. Apelidos são coisas que eu lutei a vida inteira para não ter. Tenho dois prenomes, dois sobrenomes que podem ser recombinados em pelo menos 12 formas de se dirigirem a mim sem precisar impor algum diminutivo infantilóide. Claro, se você se revolta contra um apelido, a possibilidade é de que ele permaneça, então quando começaram a me chamar apenas de “Moreira” na editoria de esportes daquele tempo, fingi que aquilo me incomodava para garantir que fosse esse o meu nome entre meus pares, evitando apelidos piores. Mas com o Professor, sem problemas, ele podia me chamar de Carlinhos, pelo direito adquirido que sua história impunha.
Porque para mim, como praticamente para todo mundo criado no Rio Grande do Sul na minha geração, a impressão era de que o Professor sempre havia estado ali. Sua voz ecoava nas transmissões esportivas do rádio, seus comentários davam novo sentido ao jogo nos programas de TV. Ele apresentava um programa muito tarde da noite na RBS TV que foi um dos primeiros a que assisti naquele formato, discutindo temas culturais e contemporâneos com um bando de gente sentada numa espécie de arquibancada (imagino que produzir aquilo fosse um pesadelo). Aliás, essa era uma diferença marcante entre o Professor Ruy e a paisagem do jornalismo esportivo. Ruy não falava só de futebol, falava de política, de cultura, de livros, de ideias. Tanto que teve na rádio, durante uma década, um dos espaços culturais mais relevantes em termos de divulgação cultural no Estado, o Gaúcha Entrevista, que foi extinto após sua saída sem que nada ocupasse devidamente seu lugar (aliás, um hábito na empresa na última década em que o jornal vem tentando sobreviver cortejando sem sucesso o núcleo geriátrico mais reaça de seus leitores).
Muito se falou após a sua morte, e eu concordo, que a presença do Professor deu uma nova respeitabilidade ao comentário esportivo, então tido como setor de segunda linha no jornalismo da época. Só que isso ocorreu porque aquele era o Professor, não os comentaristas que só falam de futebol o tempo inteiro nos termos mais clichês e pouco imaginativos possíveis. Não é como se houvesse algum decreto emanado do alto que um comentário esportivo devesse ser chato, meio vazio e meio medíocre, essa era só a tônica do comum do período. O esporte como gênero jornalístico valoriza uma ideia própria e algo condescendente de “falar do povão” que exclui complexidade e corteja o anti-intelectualismo – e seus jornalistas meio que a reproduzem no automático. É triste que ainda ocorra hoje, com a proliferação desenfreada de mil canais de YouTube, podcasts, rádios vinculadas a um ou outro clube, blogues, etc., todos falando as mesmas platitudes e repetindo os mesmos vagos e inúteis juízos. E infelizmente não temos o Professor e sua incrível inteligência para fazer diferente. Não vou sequer me estender sobre as qualidades evidentes de Ruy, como a excelência de seu texto ou prodígio de sua memória, a ponderação de seus posicionamentos, todo mundo falou disso. Já sabemos a dimensão do que perdemos com a ausência dele.
Voltando àquela altercação lá no início: Ruy nunca mais falou no assunto, nem eu, e isso nunca o fez ter nenhuma má vontade posterior comigo. Aliás, quase uma década depois daquela discussão, eu estava em Passo Fundo para cobrir mais uma jornada de literatura e uma amiga que também estava na cidade cobrindo o evento ligou para meu número porque o Professor Ruy, também na cidade para a mesma cobertura, havia pedido. Eu havia recém-encerrado uma entrevista em um hotel com o grupo Afroreggae, que se apresentaria naquela noite no circo da cultura. A minha amiga disse que o Ruy queria falar comigo e passou a ele o telefone, e um Professor sobressaltado e algo ansioso disse algo como “Carlinhos, socorro aqui. Fiz algo errado e todo o texto que eu havia feito para amanhã sumiu”. Pedi ao professor para me aguardar, eu estava voltando para o centro de eventos da UPF e já falaria com ele. Pedi à minha amiga, dona do telefone, que não deixasse nem Ruy nem ninguém mexer no computador que ele havia usado no centro de imprensa. Eu tinha uma hipótese para o que havia acontecido.
O professor Ruy havia passado por mais de uma transição de tecnologias nas redações em que trabalhara, mas claramente a versão moderna digital era a que mais desafios apresentava ao venerado Professor. Ele havia aprendido os passos exatos para entrar no sistema e se logar nos programas necessários para escrever seus textos e responder seus e-mails ou as mensagens do sistema de correio interno, mas nunca se atinava de fazer os mesmos passos no sentido contrário, sempre levantava e ia embora deixando o computador com tudo aberto, e alguns de nós íamos lá e desligávamos tudo. Diz muito do respeito que todos tínhamos com o Professor que nunca ninguém jamais pensou em se aproveitar disso para aplicar algum trote – algo que era comum quando o distraído era qualquer pessoa menos ele.
Chegando à central de imprensa, fui até o computador que o Professor havia usado e testei minha hipótese: simplesmente dei o comando CTRL+Z. O texto de Ruy apareceu quase inteiro, com exceção de duas linhas. Sei lá o que ele havia feito, mas claramente havia selecionado e deletado o artigo. Ruy me agradeceu como se eu houvesse feito um truque de mágica. Salvamos sua coluna, ele reescreveu as linhas faltantes e a enviou por correio eletrônico. Nem sombra daqueles primeiros dias de pé-esquerdo, pelo contrário, sua voz era genuína ao dizer: “Obrigado, Carlinhos, sabia que podia contar contigo”.
Só para termos de comparação, passemos a um caso semelhante envolvendo o outro astro do Sala de Redação, o “iconoclasta de estimação” dos donos da RBS, Paulo Sant’Anna.
Certa manhã, lá também pelos anos 2000, virado após uma noite percorrendo os bares da Cidade Baixa (época que não volta mais), eu tomava um café no bar da redação enquanto Sant’Anna entretinha um grupo de uns quatro ou cinco contando uma história engraçada que teria acontecido com ele. O causo me parecia estranhamente familiar, e quando ele chegou ao fim da narrativa, reconheci o arremate da piada como algo que eu já havia lido, escrito por Stanislaw Ponte Preta em uma das crônicas de Tia Zulmira e eu. E, meio que sem pensar, identifiquei a fonte para o próprio Sant’Anna. Ele se enfureceu, perguntou: “O que tu tem a ver com isso?” e saiu ventando como um furacão. Depois, ligou para meu então colega Luiz Zini Pires, um dos interlocutores daquela manhã, para saber quem diabos eu era (eu já o havia entrevistado três vezes, só para registrar). Zini garantiu a ele que eu não havia feito por mal (não havia mesmo, eu havia pego a história pelo meio, nem sabia que ele estava se apropriando do causo como se dele fosse).
Passados seis meses, um dia Sant’Ana me abordou no corredor para dizer que “os inteligentes precisam se unir num mundo de medíocres” e me “desculpava” pelo incidente, estendendo a mão para que eu a apertasse. Detalhe: eu nunca havia pedido desculpas porque nem me lembrava mais do episódio. Mas aceitei o cumprimento e com ele o cômico “perdão” que ele tão graciosamente oferecia.
Enquanto o Professor Ruy, farol intelectual de uma geração, havia tido comigo uma discussão real e nunca mais a mencionou, sempre me tratando com a máxima cortesia, Sant’Anna, com sua egolatria folclórica, ficara seis meses ruminando uma briga comigo que eu sequer me lembrava.
Repensando nesse assunto, só tenho a lamentar que a paisagem hoje tenha tantos imitadores de Sant’Anna, sem o inimitável Ruy para oferecer uma compensação mínima…
P.S.: Fui contemporâneo da filha de Ruy, Cristiane Ostermann, na faculdade de jornalismo da UFRGS nos anos 1990. E depois cruzamos caminhos várias vezes em pautas e coberturas da área da cultura em anos que se seguiram. Deixo aqui um abraço especial a ela, na pessoa de quem ofereço minhas condolências a toda a família do Professor.
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Foto da Capa: Reprodução do Instagram

