Em uma tarde no mês de agosto de 2025, reúnem-se em uma praça na cidade de Porto Alegre um ex-atleta e um jogador que está em transição (maturando a possibilidade de parar de atuar profissionalmente) para uma palestra para meninos de um projeto social que ambicionam ser jogadores de futebol de alto rendimento. Os palestrantes conversavam com os técnicos/educadores físicos, também ex-jogadores profissionais, sobre os seus passados nos campos de futebol e o pós-encerramento da carreira, antes da palestra.
O juiz apita e encerra a partida. A partir daquele instante, a “ficha cai”, acabou a rotina de treinos, concentração e jogos, e, de agora em diante, o que fazer?
Este questionamento permeia a maioria dos jogadores de futebol no momento de encerrar a carreira. Para o psicólogo social Lucas Graef (2002), a palavra aposentadoria está vinculada a duas ideias centrais. A primeira ideia está relacionada à atitude de retirar-se dos aposentos e recolher-se ao espaço privado de não-trabalho. E a segunda à ideia de inatividade (aquele que não está em exercício do trabalho). Mas nem sempre a aposentadoria representa um rompimento com o mundo do trabalho, já que, no Brasil, pressões econômicas, sociais e culturais “obrigam” à permanência do indivíduo no mercado de trabalho. Com relação a esta questão, o autor argumenta que, na sociedade brasileira, o indivíduo é valorizado por manter-se ativo, pelo cargo que exerce e pela posição social que ocupa. Desta forma, a palavra “aposentar” (que remete ao sentido de “retirar” ou “pôr de lado” o que não serve mais) poderia ser percebida como sinônimo de exclusão social, perda de poder e de status. Considerando-se esta análise, conclui-se que o esforço de muitos indivíduos em manter-se em atividade se justifica pela necessidade de postergar a exclusão social pela inatividade e, desta forma, dignificaria a si mesmo. Neste sentido, poderia ser considerada uma perspectiva de vida manter-se em atividade depois da aposentadoria, assumindo papéis sociais substitutivos, o que, significativamente, resistiria ao desengajamento social e manteria o status.
O encerramento da carreira esportiva refere-se ao abandono da prática esportiva de alto nível e passa pela transição de carreira pós-esporte. A transição de carreira esportiva significa uma mudança de uma das fases da carreira para outra fase, acompanhada por concomitantes mudanças nas características psicológicas e sociais do atleta e da necessidade de recursos para lidar com cada momento. Cada uma requer exigências específicas e ajustamentos nas esferas da vida ocupacional, financeira, social e psicológica do atleta.
Em um momento de conversa com os colegas, um dos palestrantes menciona que a transição de carreira no exterior é diferente da do Brasil:
“Lá fora o cara está jogando e está se preparando para quando parar; aqui não. Depois que tu para, tu vai ver como vai ser.”
Quando o atleta se apresenta forte e exclusivamente focado com a imagem do esportista, pode apresentar dificuldades psicológicas e profissionais no momento da aposentadoria. Existem estudos que trazem amostragens significativas de atletas que vivenciam dificuldades de adaptação a uma nova carreira profissional fora do esporte, porque não se prepararam para uma vida depois da carreira esportiva; e, enfim, mais frequentemente terminam a carreira esportiva de forma involuntária, ou seja, como é difícil tomar a decisão de parar por conta própria (devido ao valor conferido ao futebol), este momento é adiado, até que algum fator “externo” muito importante o impeça de continuar jogando profissionalmente, como no caso de incapacidade de continuar, a não-contratação ou lesões sérias.
Para Blaesild, Stelter (2003), a exigência para os resultados no mundo do futebol profissional é muito alta e este quadro dificulta o contato dos atletas com o “mundo” fora do esporte, pois exige tempo exclusivo para o alcance do sucesso. Um estudo realizado por estes autores, com jogadores de futebol de alto nível, concluiu que a qualidade da transição de carreira depende da influência de alguns fatores específicos, tais como: a causa da aposentadoria, o grau de identificação com o esporte (identidade atlética), oportunidades de emprego e educação na nova vida, qualidade do suporte social, rede social dentro e fora do meio esportivo, habilidade para manter o status social e administrar seus negócios.
A valorização do conhecimento é outra observação feita nesta “resenha de boleiros”, a necessidade de estudar e que só assim se abriram possibilidades de ingresso em uma nova carreira, porém acreditam que a prática e vivência que possuem são essenciais para a carreira de técnico de futebol. O palestrante ex-atleta fez um dos cursos de técnicos pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Mendelsohn (1999) também comenta que a única alternativa possível para ex-jogadores aposentados que não tiveram outra formação profissional paralela é continuar ligado ao esporte, como treinador, mas nem todos são capacitados para esta tarefa. E ainda, às vezes, a demanda de ex-jogadores para o cargo de treinador é maior que o número de clubes de futebol. Muitas vezes, ex-atletas não vivenciam esta situação (treinador) com a mesma identificação de quando eram atletas atuantes.
Neste contexto, seria fundamental que existisse um Programa de Aposentadoria para Jogadores de Futebol Profissional como política pública efetiva, com o objetivo de suprir as diversas necessidades, já que, dentro de uma perspectiva preventiva, este programa poderia promover uma base sólida educacional (programa de educação continuada), que fundamentalmente capacite os atletas a fazer escolhas profissionais depois do término de carreira esportiva. Os referidos programas podem incluir estratégias de coping (na psicologia, é uma ferramenta essencial para lidar com situações estressantes ou traumáticas), suporte social (para obter apoio e conforto), um plano de orientação vocacional e de assistência social e psicológica.
Simone Pinheiro é assessora técnica de Associações e Cooperativas de Unidades de Triagem, assistente social, mestre em Ciências Sociais e articuladora do POA Inquieta
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Foto da Capa: Markus Spiske / Pexels

