Cedinho da manhã de domingo é hora da colheita de acerolas. Com o pé repleto de frutas, muitas variedades de pássaros gaúchos se avizinham com sua cantoria alegre pela fartura. As acerolas parecem gostar daqui pelo tamanho e quantidade dos frutos. São nativas da América Central e das ilhas Antilhas, no Caribe. Antigamente a fruta era conhecida como ‘cereja das Antilhas’. Tudo indica que foram introduzidas no Brasil pela Universidade Rural de Pernambuco em 1955. Daí se alastraram as mudas e sementes, chegando também à minha casa, induzida pela mania antiga de estudar plantas e buscar ter um pouco das mais preciosas (apesar de hoje eu ter todas as plantas como especiais) para a família. Para as acerolas, em particular, porque em 100 gramas da fruta pode conter até 1.800 mg de vitamina C, um supermotivo para essa mãe. O dado das propriedades se espalhou e não sou apenas eu que as aprecio. Atualmente o país produz cerca de 60 mil toneladas, principalmente no Nordeste, e já é considerado o maior exportador mundial da fruta.
Após a colheita, no momento da leitura dominical, recebo do primo, Fernando Neubarth, a indicação de um documentário sobre alimentação dos índios Kayabi: “Memórias, Tradições e Sabores do Xingu”. Leiam e vejam o documentário! Um espetáculo de ensinamentos que nos convida a viajar para uma época de conhecimento incrível sobre alimento e vida! Assunto extremamente importante para nosso momento atual, em que se discute tanto sobre a alimentação e os ultraprocessados, os agrotóxicos, os aromatizantes, os estabilizantes e os tantos químicos que passam na mesa das famílias. Pessoas cada vez mais doentes, a ingerir remédios continuamente e que continuam a não melhorar… Provavelmente a resposta está nos Kayabi e em todo o ensinamento com a importância do alimento e sua conexão para a vida. É um processo que vai do cuidado com os utensílios utilizados ao preparo e aproveitamento gentil de todos os ingredientes, numa relação sábia para com a natureza e com o respeito à saúde de todos.
É certo que, nos dias atuais, a escuta da mata, a conversa junto ao fogo, o preparo minucioso do alimento, o aproveitamento total do sistema da natureza parecem um grande contraponto e utopia. Mas podemos ter um recomeço e encontrar uma lacuna que nos leve para uma alimentação melhor e, por conseguinte, ter mais saúde. O ideal ‘utópico’ da dieta atual seria retirar todos os ultraprocessados e incluir no prato do dia aproximadamente 70% de vegetais… orgânicos, de preferência, ou aqueles cultivados no jardim ou em vasos na sacada. Quem sabe começar incluindo a salsinha verde junto ao arroz. Ou cozinhar feijão, como nossos pais faziam anteriormente, e congelar para a semana. Tudo tem um começo quando se entende a meta para manter uma vida saudável.
Sim, hoje se fala mais em cuidar de macronutrientes do que de comida de verdade, comida Kayabi. E é verdade que até as frutas têm carboidratos, mas também têm micronutrientes que o nosso corpo precisa para manter o equilíbrio. Há algumas em que o carboidrato é praticamente negativo, como o limão. Assim, se o teu foco ainda é macronutrientes (o que pode te levar de tabela para uma alimentação mais Kayabi), não adoce o suco de limão, maracujá, café, chá, pois todos esses têm carboidratos ‘negativos’. Quando não se adoça, além de excluir a caloria, evita-se estimular a vontade de comer doces. Chuchu, abobrinha, alface, tomate, cebola, alho, pepino, pimentão (orgânico) têm calorias desprezíveis porque têm mais fibras que não digerimos, logo, abuse! Abóbora, cenoura, brócolis, abobrinha italiana e beterraba têm uma porcentagem de carboidrato, mas não é tão relevante. Adicione porque contribuem para a digestão eficiente, são ricos em nutrientes e fibras que auxiliam nos níveis estáveis de glicose no sangue. As raízes como aipim, batata, inhame têm muito carboidrato (mas muito menos que farinha branca e açúcar). Consuma com cautela! E lembre-se, as fibras boas são dos vegetais e legumes, não da farinha integral e arroz integral.
E no café da manhã? Podemos optar por tirar manteiga e acrescentar uma pasta de frango (batidinha no mixer com tomate e ervas para usar na semana) ou um ovo (ferver mais de um e descascar para acondicionar num vidro na geladeira com algum tempero, vinagre e ervas) ou pasta de atum (que também pode ser feita para a semana adicionando salsinha e outros temperos), ou amassar uma banana ou abacate e colocar sobre o pão, por que não? Use temperos, ervas e condimentos; há presença de compostos bioativos e propriedades farmacológicas de efeitos fisiológicos. O cominho, por exemplo, tem princípios ativos como o cuminaldeído, cimeno, terpenoides e flavonóides, que ajudam a acentuar a doçura dos alimentos, então, para aqueles que tem algum problema com doce, o cominho adicionado a uma fruta ou mesmo algum preparado de forno pode polvilhar cominho e terá seu gosto mais adocicado.
Se a gente se organiza para ter a saúde como prioridade, a comida de verdade e os ensinamentos Kayabi podem não ser um contraponto, mas uma solução! Quem sabe não seja o pé de acerola, mas uma muda de tempero verde na janela que faça a diferença!
Denise Preussler dos Santos é jornalista (Unisinos), com mais de 180 artigos publicados em jornais do interior. Tem publicações na Revista Teias, Labrys, Revistas Eletrônicas Puc, Revista de Educação, Linguagem e Literatura-UEG Inhumas. É mestra em Educação (Ulbra) e terapeuta integrativa. Atualmente, cursa Nutrição (Uniasselvi).
Todos os textos da Zona Livre estão AQUI.
Foto da Capa: Reprodução do documentário Kayabi: “Memórias, Tradições e Sabores do Xingu”

