Em honra a Mikhail Bakhtin.
Houve um tempo em que as divindades podiam ver tudo e saber tudo: eram omniscientes e dispunham de omnivisão. Além disso, as divindades possuíam o dom privilegiado da linguagem monossêmica, em que cada palavra e cada frase davam conta com perfeição impecável da realidade do mundo das coisas e das ideias: tal linguagem estava à prova do engodo, do engano, do deslize, da alusão. Não havia duplo sentido. Tais dotes conferiam às divindades de então completa autonomia, mas passaram a torná-las perigosamente autossuficientes, isoladas, ensimesmadas e tristes.
Ao constatar tal situação, o Criador, Divindade Maior, viu que sua obra mais bela corria riscos e tomou uma medida radical: tirou (alguns dizem que Ele baniu) as divindades menores do paraíso da monologia. As divindades, doravante, estariam condenadas à restrição de visão e conhecimento, devendo todo e qualquer excedente de visão ser buscado no contato com outra(s) divindade(s), colaborativamente. Terminou o tempo de omnivisão e se instalou o tempo da construção sem fim em regime de dialogia. Cada divindade, doravante, teria de demandar e conseguir de outra divindade o excedente de visão que lhe permitisse se aproximar da condição anterior perdida, sem nunca mais reconquistá-la. Para culminar, o Criador retirou destas suas criaturas o dom da linguagem monossêmica e instaurou o regime da polissemia, da metáfora, do significado flutuante que tornava cada esforço de comunicação uma empreitada cheia de surpresas, riscos e distorções. Nesse novo regime, mesmo o silêncio que outrora era o contraponto absoluto da fala monossêmica agora assumia a possibilidade de também falar, porque mesmo ele, o silêncio, não se fixava a uma única possibilidade de sentido, ultrapassava a mera ausência de fala: o silêncio doravante flutuava, ele também, em possibilidades cujo resgate dependia de quem silenciava, pra quem silenciava, por que silenciava.
Nesse novo regime, o Criador verificou que suas criaturas não significavam nada mais sozinhas. Este Criador, Divindade-Mor, ficou feliz com sua correção de rumo e decidiu que essas novas divindades menores, agora condenadas a existir em dialogia, não mais seriam divindades menores, e as denominou humanos. Porque o Criador intuiu que havia privado suas divindades do omnipoder que as tornava divindades, e com isso as havia extinto, mas havia trazido para a criação criaturas novas, frágeis e sofridas, condenadas a fazer sentido do mundo com o suor diuturno do trabalho simbólico conjunto. Tais criaturas, expulsas do paraíso monológico omnipotente, se viram em situação de desespero e angústia, de desamparo e insuficiência. Mas se deram conta que, em contrapartida, se abria para elas um devir de possibilidades que antes não estava posto, apesar dos riscos que comportava. E como humanos, sentiram que tinham herdado, em potência, outra divindade, apesar de que agora tal divindade não era privilégio de nenhum humano per se, e sim possibilidade em aberto de um processo de significação envolvendo obrigatoriamente mais de um.
O Criador ficou feliz com seu movimento e chamou essa nova criatura, agora humana, de Adão, e o Alter, de quem doravante Adão dependeria para construir sentido para o mundo, com quem doravante caminharia, para quem doravante falaria e silenciaria, ele chamou de Eva. O que o Criador não previu foi que, nesse regime de abertura de possibilidades de sentido, interditos divinos foram confrontados, questionados. Disso decorreu que Adão e Eva inauguraram as metáforas, comendo o fruto da árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, da Argumentação e da Relativização, e, ato contínuo, caíram em danação, foram expulsos do Éden (agora outra metáfora) e deram início à sofrida epopeia dialógica humana.

La vie, it’s pain … au chocolat… (para Katia Kostulski)
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Foto da Capa: Gerada por IA.

