Ela tinha nome de furacão, nome de escritora que também foi um furacão. Veio num combo meio inesperado, pois quando quis adotar uma gata branca da ninhada de uma amiga, ela condicionou a adoção da branca à da malhada também. Irmãs de ninhada. A cinza malhada não era tão desejada por adotantes. Eu, ainda que temerosa de virar a “tia dos gatos” ao ter mais de um, topei a dupla. Nomeei-as Hilda e Gal (ambas na foto de capa desta coluna). A branca de olho azul em homenagem póstuma à recente musa da MPB Gal Costa; a cinza, à maravilhosa escritora e poeta Hilda Hilst. Achei que sua cara cinza, de matreira, acesa e de uma sagacidade sutil combinaria por detrás daquela pelugem tão óbvia e comum para gatos sem raça definida.
Desde a chegada delas, em Janeiro de 2023, Hilda sempre foi a mais ousada, a mais inquieta, quase fazendo jus ao legado do nome a ela atribuído. Pulou para a sacada dos vizinhos algumas vezes, causando incômodo e constrangimento. Destruiu folhagens, desnudou braços de poltronas e laterais de sofás. Com o tempo, foi amansando um pouco em sua voracidade e sempre dormia nos meus pés.
Hoje ela partiu. Acometida por uma doença não muito comum e extremamente letal aos felinos, a chamada PIF (Peritonite Infecciosa Felina) que é para os gatos o equivalente ao coronavírus dos humanos. Silenciosa, sua manifestação geralmente ocorre já tardiamente para alívio dos sintomas ou tentativa de minimização da doença.
A melhor opção de tratamento? Eutanásia. Eu, que há anos estudo e trabalho com a temática do luto, da morte e da perda, que já acompanhei tantas famílias, inclusive a minha, que também já perdi bichos de estimação assim, novamente me vejo diante dessa decisão que para mim não é difícil em face aos dados concretos e na racionalidade de ver um animal – inclusive o humano – sofrendo quando o desfecho fatal é breve e inevitável. Ainda assim, é difícil passar imune ao sentimento de tristeza e falta de controle das coisas e dos nossos amores. Como é difícil se ligar e ter de perder, como é difícil ser a responsável por essa escolha.
Acredito no poder emocional e terapêutico dos animais, entendo como um fenômeno de nossos tempos, sociais e emocionais, o crescimento de famílias com pets no lugar de filhos, no aumento vertiginoso desse mercado que oferece festas caríssimas de aniversário para pets, hospedagens e experiências de estética e cuidado com valores equivalentes aos dos humanos. Entendo o vão que esse crescimento vem preencher e arrisco dizer que nunca fui muito capturada por ele, ainda que toda a minha vida infantil e adulta até agora tenha sido acompanhada por algum animal de estimação. Na infância os boxers caramelo. Na vida adulta, pela rotina e falta de tempo para o cuidado, gatos.
Eu nunca fui uma pessoa dos gatos, sempre fui mais dos cachorros. Hoje compreendo essa preferência e entendo o que os gatos vem me ensinando desde minha primeira aventura no universo felino: o autocuidado, o de uma relação baseada na convivência e não na posse e muito menos no submetimento. Gatos me ensinam a ser mais eu, a não atender o chamado do outro só porque ele quer. Eu preciso querer. E se não quero, não preciso me desculpar nem abanar o rabo.
Mas hoje tive que dar adeus ao meu terceiro gato. A primeira foi também uma eutanásia, mas pela idade avançada e problemas renais consequentes desta. A segunda, filhote, caiu da janela e ainda com vida, foi para a cirurgia, mas não resistiu. Sim, há mais essa lição. Gatos sempre pensam que podem voar. E de fato podem.
Quando essa segunda chegou na emergência, a médica veterinária contou que ela tinha sofrido uma fratura no palato extremamente comum em gatos que caem que eles chamam de fratura de gatos paraquedistas. Gatos saltam, gatos observam tudo, atentos ao mundo, às luzes, aos sons. Como demorei tanto para perceber que sempre fui muito mais gato do que cachorro?
Agora decidi novamente. Dei adeus ao meu pequeno furacão. Agora eu, minha filha humana e Gal, que ainda por cima corre grande risco de estar contaminada com o mesmo vírus mas não há como prever ou testar, vamos aprender a lidar com o vazio dessa ausência. E com a incerteza, tipo assim a vida. E dói o luto, seja de gato seja de gente, porque não é quem se perde, mas o que da gente se perde com quem se vai.
Com Hilda se foi um pouco da minha ventania, um pouco da capacidade de lamber meu próprio corpo para limpar o que não me pertence. Ficamos nós em nossa pequena alcateia de fêmeas aprendendo a caçar a vida. Fica o aprendizado da morte e da imprevisibilidade da vida, fica o peso e o cansaço de ser a adulta racional da casa que precisa tomar decisões nem sempre fáceis. Fica essa loucura que é cuidar de quem nos ama, mas não nos pertence.
Vou viver um pouquinho na ilusão do céu dos gatos que minha filha inventou para lidar com essa dor e acreditar que minhas três gatas estão lá, e de um céu de gente que nos proteja também, por que não?
Essa terra anda complicada de se viver. Obrigada, Hildoca. E Gal, estejamos atentas e fortes, porque viver é difícil pra cachorro.
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Foto: arquivo pessoal

