O que é diversidade? De uma forma simples, podemos afirmar que diversidade significa a pluralidade de pessoas em um grupo. Quanto maior a pluralidade, maior a diversidade, considerando as diferentes características das pessoas. Mas quais são elas?
Essas características são numerosas e podem ser divididas em categorias visíveis e não visíveis. A diversidade engloba as diferenças e singularidades que moldam a perspectiva e a abordagem de cada indivíduo.
Idade
Essa é a primeira informação que identificamos quando fazemos contato com uma pessoa. Estabeleceremos uma relação mais ou menos positiva, seja criança, jovem, adulto ou idoso, e com a gente mesmo, de acordo com os estereótipos e preconceitos que possuímos a respeito da idade. E as pessoas também irão se relacionar conosco conforme os estereótipos e preconceitos que possuem. O etarismo ou idadismo se introjeta a partir dos quatro anos de idade e está presente em uma a cada duas pessoas no mundo.
Raça e etnia
Referem-se à cor da pele, origem nacional, herança cultural e ancestralidade. Nessa área da diversidade estão postos o racismo e a xenofobia. No Brasil, 54% da população é composta por pessoas pardas e pretas. A maioria das pessoas encarceradas é negra. Mulheres negras são a maioria entre chefes de família e quem recebe o menor salário médio. A menor expectativa de vida está entre as pessoas negras idosas. O racismo estrutural é fato. Podemos citar também as origens indígenas, quilombolas, ribeirinhas e a diversidade das diferentes regiões brasileiras, como a do Nordeste e Norte, por exemplo.
Sexo
Envolve o sexo com que cada pessoa nasceu, homem ou mulher. A partir do seu nascimento, a pessoa será moldada pelo meio, e homem e mulher terão uma experiência de vida distinta. Mulheres, ao longo da vida, sofrerão mais pressões sobre seu corpo. O etarismo chegará mais cedo para elas do que para eles. O salário será menor para elas e as oportunidades de liderança também. Nessa relação, vamos observar que mulheres serão as maiores cuidadoras informais de pais, sogros, filhos e maridos, passando por uma vida de sobrecarga de trabalho. Elas viverão mais tempo do que eles, no entanto, viverão uma velhice mais pobre e mais adoecida.
Gênero
Envolve a identidade e a expressão de gênero, pessoas não-binárias e a comunidade LGBTQIAPN+. Uma pesquisa divulgada em novembro de 2022, realizada pelas universidades Paulista (Unesp) e de São Paulo (USP), estimou que cerca de 12% da população adulta brasileira (cerca de 20 milhões de pessoas) se declararam como parte desta comunidade. A maioria sofrerá com o abandono familiar por causa da discriminação. Oportunidades de emprego formais são pequenas, quando não ínfimas. O índice de homicídios de pessoas LGBTQIAPN+ no Brasil está entre os maiores do mundo. Essas pessoas, em muitos casos, na velhice viverão o isolamento e solidão, precisando “voltar pro armário” para serem cuidadas e aceitas pelas famílias ou instituições.
Com Deficiência
Considera as pessoas com deficiência física e como se percebem as potencialidades e a capacidade dessas pessoas. O Brasil, conforme o Censo 2022, tem 14,4 milhões de pessoas com deficiência, o que representa 7,3% da população com dois anos ou mais. Esse número é maior entre as mulheres (milhões) em comparação com os homens (milhões). É preciso combater o capacitismo, ou seja, a discriminação e preconceito contra pessoas com deficiência, baseado na ideia de que são inferiores ou menos capazes.
Neurodiversidade
Inclui diferentes formas de o cérebro processar informações, como em pessoas com autismo, TDAH, dislexia, discalculia ou síndrome de Tourette.
· O Censo 2022 do IBGE identificou que 2,4 milhões de brasileiros declararam ter Transtorno do Espectro Autista (TEA), o que representa 1,2% da população do país.
· Estima-se que mais de 7,8 milhões de pessoas tenham dislexia, o que corresponde a aproximadamente 4% da população.
· O TDAH estima-se que a prevalência possa chegar a 7% da população, o que corresponde a milhões de crianças e um número crescente de adultos.
· A Síndrome de Tourette, embora não haja dados exatos sobre a prevalência no país, estima-se que afete cerca de 1% da população.
Religião ou crenças
As convicções e o sistema de valores éticos ou religiosos de cada um. No Brasil, 96% das pessoas se declaram ter fé em Deus. O que, na essência, ensina amor, solidariedade, caridade, justiça. No entanto, casos de intolerância religiosa vêm crescendo nos últimos anos. De acordo com o IBGE 2022, os brasileiros se distribuem com relação à religião da seguinte maneira:
- Católicos: 56,7% da população, com queda em relação ao censo anterior. Atingem a maior concentração no Nordeste (63,9%) e no Sul (62,4%).
- Evangélicos: 26,9% da população, com crescimento expressivo. Apresentam maior proporção no Norte (36,8%) e no Centro-Oeste (31,4%).
- Sem religião: A proporção de pessoas sem religião cresceu. O Sudeste apresenta a maior proporção, com 10,5%.
- Espíritas: 1,8% da população, com uma queda no número de seguidores. Têm maior concentração na Região Sudeste (2,7%).
- Umbanda e Candomblé: 1% da população, com crescimento. Concentram-se mais no Sul (1,6%) e no Sudeste (1,4%).
Escolaridade e formação
O nível de instrução e as experiências educacionais também são um recorte que conforma a diversidade de um grupo. Isso também vai moldar as relações que cada pessoa fará ao longo da sua vida, facilitando ou dificultando seu acesso a mercado de trabalho e a renda, por exemplo. Ao olhar a pluralidade brasileira, de acordo com o IBGE 2022, vamos encontrar:
· 18,4% da população brasileira tinha ensino superior completo.
· A taxa de analfabetismo caiu de 9,6% para 7,0% entre 2010 e 2022.
· O percentual de pessoas sem instrução ou com ensino fundamental incompleto caiu de 63,2% em 2000 para 35,2% em 2022.
· A taxa de alfabetização das mulheres (93,5%) foi ligeiramente superior à dos homens (92,5%) em 2022.
· Houve um avanço significativo no nível de escolaridade entre as populações preta e parda, com a proporção de pessoas com ensino superior dobrando durante o período. (2010 – 2022)
· O acesso à educação superior é menor entre pessoas com deficiência, com apenas 7,4% delas com ensino superior completo, em comparação com 19,5% entre pessoas sem deficiência.
Experiências de vida
As experiências vividas moldam profundamente nossa identidade e visão de mundo. Viajar, por exemplo, é uma das formas mais enriquecedoras de aprendizado. Cada destino traz consigo uma nova cultura, tradições e pessoas que ampliam nossa compreensão sobre a diversidade humana. Ao explorar novos lugares, muitas vezes enfrentamos barreiras linguísticas e culturais, que, embora desafiadoras, nos ensinam a ser mais adaptáveis e empáticos.
Os hobbies também desempenham um papel fundamental em nossas vidas. Eles não apenas proporcionam prazer, mas também permitem o desenvolvimento de habilidades novas.
Desafios pessoais muitas vezes são os momentos que mais nos ensinam. Superar dificuldades, sejam elas emocionais, profissionais ou de saúde, nos fortalece e nos ensina resiliência. Cada obstáculo superado se torna um passo em direção ao autoconhecimento e à autoconfiança.
Em suma, todas essas experiências — viagens, hobbies, habilidades e desafios — se entrelaçam, formando uma tapeçaria rica que reflete quem somos e como enxergamos o mundo. Por meio delas, construímos nossa história e nos tornamos cada vez mais singulares.
Histórico familiar e parental
Refere-se à maneira como uma família é organizada e como os membros se relacionam entre si. Essa estrutura pode variar significativamente entre diferentes culturas e contextos sociais, mas geralmente envolve a composição da família, que pode incluir pais, filhos, avós, tios e outros parentes. Essas estruturas podem incluir:
· Família nuclear: composta por mãe, pai e seu(s) filho/a(s).
· Família extensa: inclui, além da família nuclear, outros parentes como avós, tios e primos que vivem juntos ou mantêm contato próximo.
· Famílias monoparentais: formadas por um único pai ou mãe e seus filhos.
· Famílias reconstituídas: formadas por casais que se juntam, trazendo filhos de relacionamentos anteriores.
· Famílias homoafetivas: compostas por casais do mesmo sexo que podem ou não ter filhos.
Além da estrutura da família, também precisamos considerar o status da pessoa ou grupo na família, ou seja, o papel e a posição que cada membro ocupa dentro dessa estrutura. O status pode ser influenciado por diversos fatores, como idade, gênero, ocupação e até mesmo a dinâmica de poder que existe entre os membros. Pais geralmente ocupam uma posição de autoridade e são os principais responsáveis pela tomada de decisões. Enquanto os avós podem ter um papel de apoio na criação dos filhos.
Esses papéis e status são dinâmicos e podem mudar ao longo do tempo, especialmente em resposta a eventos da vida, como o crescimento dos filhos, a morte ou o nascimento de novos membros. Uma coisa é sermos o filho pequeno na família, outra é nos tornarmos a mãe ou o pai de família.
A compreensão da estrutura e do status na família é crucial para abordar questões relacionadas à dinâmica familiar, conflitos e apoio emocional.
Status socioeconômico
Todas as diversidades acima apontadas serão vivenciadas com maior ou menor dificuldade a partir da capacidade econômica, pois a renda é um dos principais determinantes da qualidade de vida. Indivíduos ou famílias com rendas mais altas têm maior capacidade de acesso a bens e serviços essenciais, como moradia, saúde e educação.
O acesso a habitações de qualidade está diretamente relacionado à renda. Bairros de renda mais alta tendem a ter melhor infraestrutura e serviços públicos, enquanto áreas de baixa renda muitas vezes enfrentam problemas como falta de saneamento e segurança.
A qualidade do atendimento de saúde disponível pode variar significativamente. Pessoas com maior renda têm acesso a planos de saúde privados e a serviços médicos de qualidade, enquanto as de menor renda dependem do sistema público, que pode ser insuficiente.
O acesso a uma educação de qualidade está frequentemente ligado à renda familiar. Famílias de baixa renda podem não conseguir arcar com custos de materiais, transporte ou mensalidades de escolas particulares, resultando em menores oportunidades educacionais.
Isso se reflete em maior capital cultural para pessoas com maior renda, que tendem a ter mais oportunidades, pois estão mais familiarizadas com as normas e expectativas sociais. Isso pode incluir desde o acesso a experiências culturais (teatro, museus) até a educação formal.
Claro que uma consequência óbvia da renda é o poder de consumo, que também é influenciado pelas preferências culturais e valores de uma sociedade. Indivíduos com maior poder de consumo podem adquirir não apenas bens essenciais, mas também produtos de maior valor simbólico, como um relógio Rolex ou um aspirador de pó robô de última geração. Isso pode refletir status social e afetar como as pessoas se veem e são vistas pelos outros.
Uma mesma pessoa pode estar incluída em mais de um grupo dos citados acima, pode ser mulher, negra, católica, periférica, chefe de família, com curso superior, com deficiência. E, ao longo do seu ciclo de vida, carregará mais ou menos dificuldades por conta do machismo, racismo, capacitismo, entre outros “ismos” que venha a sofrer. Como o etarismo cada vez maior no envelhecimento.
Existem outros recortes?
A pluralidade é imensa. Com certeza há outros grupos que não citei, mas espero que tenha sido possível visualizar meu ponto de vista: de que a nossa existência é quase que única e incomparável. Não me entenda mal, precisamos e devemos buscar justiça, inclusão, pertencimento na sociedade dos grupos que seguem sendo tratados como inferiores e subalternos. No entanto, compreendendo que todos somos diferentes em nossas singularidades, reconhecendo-as e valorizando-as.
Onde entram as gerações nessa conversa?
Baby Boomers, Geração X, Geração Y (Millennials), Geração Z e Geração Alpha são as que temos nos acostumados a ouvir falar por aí, especialmente com relação ao mercado de trabalho. Porém, frente a essa diversidade existente na sociedade, será que faz sentido falarmos das gerações da maneira como as temos tratado?
Na próxima semana, vou seguir com este texto, dedicando-me a responder a essa pergunta. Até lá, se você tiver uma pista pra ela, mande pra mim.
Boa semana!
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