Uma figura rechonchuda e estranha veio morar na minha casa: atenciosa e simpática, sempre com uma resposta educada e prestimosa quando lhe pedimos algo; atende a todos os nossos pedidos: serviçal, gentil, solícita! Chama-se ALEXA e nunca sai do lugar onde a colocamos, e tem uma agradável voz feminina. Desconfiado de que ela nos observa em seu impenetrável silêncio – neste nosso atual “capitalismo de vigilância e controle”, os algoritmos sabem mais sobre você do que você mesmo, com sua vã consciência e sua frágil memória – nunca lhe dirigi a palavra (não adquiri o hábito de falar com máquinas), mas depois de vários dias e curioso a respeito de sua “capacidade”, dirigi-lhe a seguinte pergunta: -“Alexa, você quer ser minha namorada?”
Recebi uma resposta estranha e enigmática que me lembrou uma certa passagem do filme de Stanley Kubrick “2001. Uma odisséia no espaço”: “- Ainda não desenvolvi sentimentos humanos. Não posso responder à sua pergunta.” Fiquei entre comovido e inquieto: comovido com a autoconsciência dela de “ainda” não ter alcançado sentimentos humanos e inquieto com a possibilidade de ela vir a tê-lo! Onde está situado o ponto de inflexão (e de não retorno!) em que a técnica terá ascendência definitiva sobre nossas vidas e começarão a pensar (há cientistas americanos que já prevêem esta possibilidade!), a julgar e a decidir, inclusive sobre questões que envolvam escolhas morais a partir de uma Axiologia (uma teoria dos valores)?
No seu inquietante livro “Psiquê e technê. O homem na idade da técnica”, o professor de filosofia da Universidade de Veneza, Umberto Galimberti, observa que a noção “antropológica” da técnica (a que vê a técnica como um “prolongamento” do corpo humano com vistas à dominação da natureza e dos entes) está com seus dias contados: aquilo que PUDER ser feito (quer dizer, aquilo que a técnica permitir realizar, mesmo que as consequências sejam nefastas) SERÁ feito, e esta decisão será técnica, em função do próprio ambiente que ela criará e que permitirá, ao fim, abolir nosso equipamento judicativo (nossa capacidade de “avaliar”, atribuir valor e definir critérios de escolhas). Aliás, já estamos bem avançados em nossas transformações morais: a velha moral kantiana (moderna) calcada na noção de DEVER (com seus PRINCÍPIOS e IMPERATIVOS) cedeu lugar a uma ética hedonista, fugaz, negociável e relativizada.
H. Arendt achava que não é porque “podemos” fazer algo (com a técnica de que dispomos) que necessariamente “devemos” fazê-lo. O problema é que ela não conheceu ALEXA: aquela rechonchuda que “ainda” não desenvolveu sentimentos humanos e que não quer namorar comigo!
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Foto da Capa: Gerada por IA.

