Wander Wildner tem uma canção bastante conhecida na qual diz: “eu não consigo ser alegre o tempo inteiro”. Eu poderia partir dela para fazer algumas considerações metafísicas e tal, mas na prática, durante anos, eu só ouvi essa parte, a do refrão, e ainda assim de passagem. Tendo vivido minha adolescência no interior nos anos 1980, meio que penei um pouco para navegar nas “porto-alegrices” culturais da Capital, como um certo desprezo pelos Engenheiros do Havaí e uma predileção, entre outros, pelos “irredutíveis” do underground local, como Jimi Joe, Júlio Reny ou Wander Wildner.
O Wander, ao menos, aprendi a valorizar com o tempo – e com a insistência, uma vez que sua música meio que brota de todos os lados se você estiver frequentando as bolhas certas, e eu meio que as frequentei na minha juventude boêmia. Por baixo de suas letras e de sua persona algo cômica (para mim) foi se revelando uma melancolia sincera que também toca as fímbrias da sabedoria, sem nunca deixar de ser engraçado.
Quer dizer, eu acho engraçado, mas sou meio escaldado de considerar isso uma opinião universal porque, em minhas décadas de atividade como repórter de Cultura na Capital, tive a oportunidade de conhecer alguns dos compositores de músicas famosas do underground local que, para mim, soavam como uma grande piada musical, mas descobri conversando com os caras que eles as levavam muito a sério. Era mais ou menos a sensação de quem escreve livros de filosofia sobre Pokémon (é possível e há várias vertentes passíveis de abordagem, mas primeiro você precisa se livrar da imediata sensação de estranheza).
Não é o caso do Wander, que eu realmente não conheço ao vivo, só de suas músicas. Acho sim que muito de seu material parte de um absurdo inusitado que é cômico na origem – embora, como ele mesmo já relatou em um de seus livros de memórias, seus sucessos etílicos dos anos 1980 e 1990, como Bebendo vinho ou Quase um alcóolatra são produtos de um período de abuso de trago que ele tenta exorcizar hoje, em que está em outro astral, digamos assim, evitando interpretar ou, no caso de Bebendo vinho, música por demais requisitada (e com presença irremovível no cânone do rock nacional, após o relativo sucesso da versão feita pelo Ira!), mudando o tempo verbal da letra para o passado – como ele mesmo conta em seu livro de memórias musicais Canções iluminadas de amor (2022, Yeah Livros Discos e Bugigangas).
Música
Pois o motivo pelo qual comecei falando de Wander é que, esses tempos, numa viagem de Uber, a playlist do motora, que, como um pequeno milagre, não era das piores, começou a tocar Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro, canção que Wander lançou em Paraquedas do coração, de 2004, e que ganharia uma certa projeção nacional no ano seguinte, quando foi incluída no repertório do Acústico MTV: bandas gaúchas, no qual o cantor apresentou seis canções. Três delas, Eu não consigo…, Eu tenho uma camiseta escrita “eu te amo” e a própria Bebendo vinho, tornaram-se pérolas recorrentes da programação da emissora. Eu sempre topava com alguma delas a esmo, embora não tenha prestado muita atenção na letra de Eu não consigo… e tenha me atentado a Eu tenho uma camiseta… apenas o suficiente para compor uma paródia Eu tenho uma camiseta vermelha do Inter, que cantava nos corredores da Zero Hora lamentando o estado de miséria e aflição do meu time na primeira metade dos anos 00.
Ao ouvir Eu não consigo… pela primeira vez, atento à letra inteira, o que concluí foi que essa canção específica é uma balada de amor característica do trabalho de Wander como bardo local do punk-brega (expressão de sentimentos derramados, crônica amargurada da dor de amor e da decepção amorosa, mistura sonora de estilos). Pensando um pouco mais no assunto, percebi que a força da canção está no refrão/título, no qual o artista enuncia uma espécie de “Koan” sagrado da vida contemporânea talvez sem dar por isso de imediato, já que o refrão está ali para ser um complemento à saudade cantada pelo personagem da música, chorando uma desilusão de amor e tentando encontrar na própria canção que ouvimos uma forma de driblar a melancolia do descorno, mas falhando miseravelmente porque, bem, porque não consegue ser alegre o tempo inteiro.
E foi aí que eu me entreguei a uma espécie de viagem interna que me levou a compreender um pouco mais as entranhas da poesia de Wander, percebendo o quanto “eu não consigo ser alegre o tempo inteiro” (o verso, não a canção inteira) é um verdadeiro tratado metrificado (e em verso alexandrino, ainda por cima).
Na linguagem cotidiana, é muito comum que misturemos de modo indiscriminado os termos “alegre” e “feliz”. Quando se tenta uma distinção conceitual entre ambos, normalmente ela está ligada à profundidade da experiência e à sua duração. A felicidade, dizem muitos textos com os quais topei ao longo dos anos, online ou em papel, é um estado duradouro e uma condição mais estável. A alegria é um pico de emoção intensa, na maioria das vezes resultado de um estímulo imediato: uma piada, um momento de comunhão entre amigos, uma boa notícia, uma vitória em um jogo ou esporte, um encontro, um reencontro, a redescoberta de uma pessoa antiga, a descoberta de uma pessoa nova, um novo emprego, um almoço em família, uma mesa de bar. Eu ia escrever “um momento de paz”, mas aí estaria talvez misturando os conceitos, já que a ideia de um momento de paz é ela mesma parte do sentimento popular relativo à felicidade. Para mim, no entanto, a diferenciação entre ambas é um pouco a mesma que usamos nas línguas latinas entre ser e estar. Felicidade é ser. Alegria é estar, e como todo estar, pode envolver uma condição de aceitação passiva ou de busca e adaptação ativa.
Felicidade
O próprio conceito histórico de felicidade foi mudando ao longo da história. Na Antiguidade, a felicidade humana era vista como um “balanço geral”. No fim de uma vida sobrevivendo aos caprichos dos deuses e da sorte, avaliava-se o legado de uma vida feliz por parâmetros pragmáticos: morte pacífica, morte com glória, uma vida produtiva e sem privações, família numerosa, filhos e netos com boa reputação etc., aí o homem podia se considerar feliz. Não à toa, são vários os relatos na História, de Heródoto, uma das primeiras coisas mais parecidas com uma historiografia produzida naquele tempo, de personagens que, situados em um patamar invejável e de grande felicidade, caem pelo capricho dos deuses a uma situação de servidão ou de subalternidade – um deles, Creso, rei da Lídia, considerado o homem mais rico de seu tempo e senhor de vasto império, derrotado, no entanto, por Ciro II, da Pérsia – perdendo um conflito que ele próprio iniciou em resposta a uma visão críptica de um Oráculo. A derrota foi o fim do império e da dinastia Mermnada a que Creso pertencia – e que se encerrou com ele, já que seu filho e herdeiro foi morto em combate.
A partir de Sócrates e de seus seguidores, principalmente Platão e Aristóteles, a filosofia passa a se dedicar à busca racional do que faz uma vida boa, uma doutrina moral e teórica do que é necessário para uma existência no caminho certo. O homem pode se pautar pela razão e, ao especular sobre o mundo, encontrar para si um lugar na ordem do universo e vencer o maior fantasma no horizonte: a finitude.
Em seu livro Felicidade: Uma História (que chegou a ter edição aqui pela Globo nos anos 2000), o historiador americano Darrin McMahon define Sócrates como o primeiro filósofo a fugir do simples questionamento da natureza e a se perguntar “o que é uma vida feliz?”. Uma fórmula que não abole o acaso, já que as próprias palavras Μακάριος (makários), em grego, e Felicitas, em latim, trazem uma noção de “afortunado”, de “bafejado pela graça ou pelo destino”. O conceito que, por sua vez, Aristóteles levanta para uma noção semelhante é o da Εὐδαιμονία (Eudaimonia), junção de εὖ, “bom”, com δαίμων, o “daimon” do qual Sócrates já falava, o espírito interior que orienta as ações e impulsos dos humanos. Também aí temos um conceito de inevitabilidade. Você nasce com um “bom daimon” e será feliz. Nasce com um daimon não tão bom e talvez seja infeliz pra sempre. Um detalhe curioso é que a Igreja cristã, adepta de uma feroz dualidade entre corpo e espírito, viria a sequestrar e a perverter o conceito, transformando o δαίμων na noção vulgar do demônio que leva a Humanidade à tentação, não havendo mais, portanto, um “bom daimon” ao qual se apegar a partir daí.
Com o advento do Cristianismo, aliás, a felicidade possível na Terra e a comunhão teórica com o cosmo retrocedem e volta-se à noção arcaica de que a felicidade real só virá ao fim da vida. Os cristãos absorvem a tradição judaica do Velho Testamento. E, como sustenta Santo Agostinho, passam a encarar a realidade imediata como o sofrimento que pune a queda da espécie humana após o pecado original. A redenção só virá no fim, com a graça de Deus. A partir do século XVIII, com os filósofos iluministas, a razão e o pensamento filosófico como meio de encontrar a felicidade são reabilitados. No pensamento desses intelectuais, que muito influenciaram os séculos seguintes, o ser humano passa a ter o direito natural a ser feliz e a buscar prosperidade e bem-estar na terra, sem almejar qualquer recompensa extraterrena.
Nos dias de hoje, com o fim da maioria das utopias de ação coletiva e a falência das respostas tradicionais à complexidade do mundo, a busca pela felicidade se transfere da interioridade para o interior do homem, o interior mesmo, seus processos químicos, seus genes, uma felicidade ao alcance da ciência é oferecida com a evolução da tecnologia. A felicidade não só é possível como às vezes é vendida como obrigatória. Está lá no lema de inspiração liberal da constituição dos EUA que todos têm direito a “correr atrás da felicidade”.
Alegria
E ainda assim, o que me parece fundamental na diferença está, como eu falei, entre ser e estar. Usando a definição de felicidade como um estado de bem-estar e de plenitude, mesmo que temporária, você pode “ser feliz” de forma pouco espalhafatosa, simplesmente sentado no sofá cercado por sua família, ou fumando um cigarro à noite, observando a paisagem da janela. Não à toa, uma concepção bastante popular de felicidade não passa necessariamente pelo acúmulo material, mas por estar plenamente dotado do básico para uma vida digna (um teto sobre a cabeça, saúde no corpo, um trabalho com que ganhar a vida. “O resto a gente corre atrás”, costuma complementar o dito popular). A felicidade como resultado de políticas públicas é uma novidade de nossa era contemporânea que foge da noção mais cínica e mesmo violenta do mundo como um vale de lágrimas. Não me admira que a extrema-direita em ascensão se dedique a torpedear essas políticas e a reverter a mentalidade dominante para uma espécie de catastrofismo individualista.
Logo, uma das coisas fascinantes que emerge dos versos de Wander é justamente essa diferenciação. A felicidade pode ser passiva. Você pode estar bem tranquilo simplesmente por “ter feito quéquis na noite passada”, como diz o próprio Wander em outra canção, O breakfast do tio Dylan. Já a alegria é um gesto, uma intenção. Felicidade é gozo. Alegria é trabalho.
Se você fingir que é feliz em meio às desgraças, talvez só consiga diminuir a sua sensibilidade para um ruído branco emocional que garante alguma sanidade às custas de apatia. Mas a alegria pode ser fingida até ser legítima. Tem a ver com olhar para as coisas com uma mirada aberta, buscando o humor no cotidiano, a atitude positiva diante dos pequenos incidentes, o sorriso ao estranho, a educação e a suavidade no trato.
Se vocês estão achando esse papo meio lorota de coach, admito que pode soar assim, apenas porque os coaches encaram a coisa pelo lado avesso do meu. Para eles, é essencial aprender as “mecânicas da alegria” e colocá-las em prática como uma fachada para se estar no mundo, fazer amigos, influenciar pessoas, ligar o f*da-se ou seja lá qual for a picaretagem temática do momento. Já eu concordo que é possível fazer tudo isso, só acho – e no fim, é esse o centro da música de Wander, que esse trabalho todo é exaustivo no limite da estafa. Não se consegue ser alegre o tempo inteiro pela mesma razão que você não consegue ficar acordado e correndo mais de um ou dois dias. É desgastante. O sorriso forçado, o olhar caloroso, a atenção deliberada, o olhar positivo. Tudo isso pode ser trazido à tona sem sinceridade, mas cansa. E como cansa…
Penso que talvez fosse mais fácil ser alegre o tempo inteiro (ou agir como se fosse, o que é o eixo da questão) quando a demanda não era tão intensa e múltipla. O capitalismo contemporâneo de plataformas digitais nos transformou a todos em produtos e em marqueteiros de nós mesmos, ninguém mais vai se aposentar, os bilionários concentram toda a grana, todo mundo vai virar uber de alguma coisa, o mundo talvez vá para o saco em mais uma aventura expansionista de alguma nação delirante, sejam a Rússia, os EUA, China, Coreia do Norte ou Israel. “Ser alegre numa hora dessas”, para lembrar o saudoso LFV, é osso.
Não é só você, Wander. Embora muitos ainda possam se apegar a uma nesga de felicidade, por vezes até mesmo clandestina, só os babacas conseguem ser alegres o tempo inteiro.
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Foto da Capa: Divulgação

