Passou sem lembrança, em outubro passado (texto escrito em 1998), a data dos sessenta anos da morte de Alfonsina Storni.
Poucos turistas habituais (e ruidosos) a conhecem, mas no café Tortoni, onde há uma sala com seu nome, a lembram com tangos e poesias compostos por ela, numa homenagem carinhosa a uma mulher superlativa.
Nascida em 1892, foi operária, comerciária, professora, poeta, mãe solteira e solitária na Buenos Aires da década de trinta do século passado.
Sua obra literária: poesias, textos jornalísticos, ensaios, peças de teatro é marcada pela busca de autoafirmação e pela libertação de uma série de sujeições a que estavam impostas às mulheres daquela época.
Refiro-me, basicamente, ao peso social que exerciam e exercem o discurso religioso, médico, político e ideológico pela incitação ao consumo, com a vigilância do corpo feminino, às suas doenças e à interdição ao gozo sexual, este sempre relacionado com pecado, com a culpa e com a moral burguesa opressiva e sempre vigente e vigilante.
A obra poética e jornalística de Alfonsina representa a luta contra as relações de força estabelecidas pelas leis e costumes inseridas no pensamento e comportamento de uma sociedade que pratica a hipocrisia como uma forma permanente de se relacionar e atuar em todos os níveis e classes sociais.
A ligação de Alfonsina com o tango — autêntica produção artística popular — valeu-lhe não só a amizade com Juan de Dios Filiberto, autor do tango Caminito, como homenagem permanente da sala batizada com seu nome no lendário Café Tortoni.
Mulher de muitos amores e desamores, Alfosina viveu um dos mais completos, complexos e apaixonados com Horacio Quiroga. Considerado o fundador do conto hispano-americano, sua contribuição ao desenvolvimento do gênero na América Latina é semelhante à de Edgar Allan Poe num plano universal.
Nascido no Uruguai (31/12/1878), radicou-se na Argentina, onde viveu e escreveu na região selvática do Chaco.
Os críticos, em geral, assinalam que o grande tema da obra de Quiroga foi a morte, mas no sentido de que se trata de uma obra literária – e de uma vida – que insistiu na ideia fixa do Tânatos, proclamando-o, utilizando-o, assumindo-o para, afinal, tentar conjurá-lo. Seus contos colocam a América Latina na modernidade e fora dos padrões literários tradicionais importados da Europa. Foi, dentre os primeiros modernistas, o mais alucinado e estranho no seu modo de escrever e, notadamente, de viver. Quem ler seu conto LA GALLINA DEGOLADA sentirá este ambiente.
E se ler também CUENTOS DE AMOR, DE LOCURA Y DE MUERTE, um dos seus livros, terá uma ideia da qualidade literária de Quiroga, que é homenageado com nome de ruas em diversas cidades uruguaias.
O caminho da vida de Quiroga foi juncado de mortos. Suicidaram-se: seu pai, seu padrasto, sua primeira mulher, seus dois filhos e, ainda para coroar essa sucessão de tragédias, matou acidentalmente (?) o seu melhor amigo que se preparava para duelo. E o próprio Quiroga acabou se suicidando em 19 de fevereiro de 1937, ao lhe ser diagnosticado um câncer de próstata já com extensas metástases.
Alfonsina Storni, seu grande amor-paixão, no dia 25 de outubro de 1938, afogou-se em Mar Del Plata ao saber-se portadora de um carcinoma de mama.
E Ariel Ramirez e Felix Luna assim a cantaram na zamba intitulada Alfonsina y el Mar, tão linda e melancolicamente cantada pela saudosa Mercedes Soza.
Te vas Alfonsina con tu soledad
Que poemas nuevos fuiste a buscar
Y una voz antigua de viento y de sal
Te requiebra el alma y la está llevando
Y te vás hacia allá como en un sueño
Dormida Alfonsina vestida de mar
Franklin Cunha é médico e membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
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