As primeiras impressões, logo que desembarco em Guarulhos e percorro a marginal Tietê buscando alcançar o apartamento dos meus sogros, são duas: a alegria em conhecer 90% das músicas que tocam na rádio Nova Brasil FM — canto junto, sei a letra inteira, até daquelas que nem lembrava da existência. Vou cantarolando “E bem que viu o bem-te-vi / A sabiá sabia já / A lua só olhou pro sol / A chuva abençoou”, canção de Gonzaguinha, cuja letra permeia minha estadia. Aqui, o rádio ligado é a trilha sonora da minha vida; em Portugal, som de fundo. A segunda é o bibibi insistente das buzinas dos motoqueiros. É irritante e reconfortante ao mesmo tempo: me sinto instantaneamente em casa.
No dia seguinte, o bem-te-vi canta pela manhã. Abro os olhos e já sei onde estou antes mesmo de lembrar que cheguei de viagem faz algumas horas.
Os dias seguem e, na medida em que vou vivendo, também tento eternizar na memória a sensação de conversar olhando nos olhos dos meus amigos. O gosto da água bebida direto do coco, geladinha, claro. O barulho dos inúmeros trovões durante as chuvas de verão e o prazer de sentir as gotas frias refrescando a tarde de calor. O sabor do bife à milanesa da minha vó, acompanhado das histórias da família e de risadas. O volume das interações nos restaurantes — todo mundo falando alto, gesticulando, gargalhando sem se preocupar em incomodar.
Voltar ao Brasil é me banhar nas maravilhosamente claras águas do lindo lago do amor. É isso que sinto. Tudo aqui tem camadas, história, afeto acumulado, cheiros, ritmos, sabores e tanta, mas tanta emoção.
Me sinto culpada quando penso que deixei tudo isso para trás, e viver longe é estar sempre dividida e nunca estar inteira em lugar nenhum. Abraçar forte minha vó e saber que cada despedida pode ser a última. Perder casamentos, chegar atrasada nas crises, acompanhar de longe a vida dos que amo. Quando eu voltar para Portugal, não vou ouvir o bem-te-vi, não vou viver 24h por dia de havaianas, não vou poder comer pastel e nem tomar água de coco. Esses pequenos detalhes que, somados, formam a sensação de estar em casa, me farão imensa falta.
Do outro lado do Atlântico, tenho a vida que escolhi viver, oportunidades, paisagens que agora também são minhas e também tenho amor. Mas o Brasil é onde meu coração bate em sincronia com o mundo. É onde eu não preciso explicar quem sou porque as pessoas já sabem, porque me viram crescer, porque compartilhamos referências que vão além das palavras.
Escrevo isso agora, ainda aqui, sabendo que em breve estarei de volta em terras lusitanas. Já chorei duas vezes enquanto trabalho nesse texto. Não de tristeza, mas de uma emoção profunda, pois sei que essa rede de afeto foi construída ao longo de muitos anos. Relações sólidas, que superam a distância. Amo tanto e me sinto tão amada. E não trocaria esse amor avassalador por nada. Prefiro sentir demais a não sentir, ter raízes em dois lugares — ainda que isso signifique estar sempre um pouco desenraizada —, e prefiro carregar esse peso do que viver leve e vazia.
O Brasil é meu lindo lago do amor. E eu me banho nele sempre que posso, sabendo que vou sair encharcada, sabendo que essa água vai pingar pelo caminho e deixar um rastro até a próxima vez que eu voltar para mergulhar de novo. Não me permitirei secar.
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Foto da Capa: Acervo da Autora

