Acredito que a alma, no processo evolutivo, vem a esse mundo em esboço e os ajustes finais deste desenho são construídos pela vivência.
Excesso de poder, dinheiro ou os dois, corrompe.
Confunde um caráter bom e esculhamba um duvidoso.
Quem está aqui na terra para prejudicar, fazer outros sofrerem, matar, ter como únicos valores poder e dinheiro, é maestro vindo diretamente do inferno para orquestrar o mal.
Quem tem dinheiro ganha poder, ganha controle, se desfaz de culpas e, como urubu, saboreia o que considera a carniça do mundo.
Faz o que bem entende, pois sabe que tem proteção e plateia.
Pensa que o mundo, e todos que o habitam, são apenas instrumentos na obtenção do próprio prazer perverso.
Uma busca que nunca acaba, pois nunca é plena.
São esses que matam, usurpam, roubam, prejudicam com o aval e a proteção do próprio poder que controla as marionetes, os fantoches e as cordas amarradas em braços que deveriam ser a lei.
Não estou dizendo que o excesso de poder e dinheiro constrói um caráter ruim, mas acredito que exacerba os fios soltos por dentro, fazendo deles chicotes que ferem.
Assim como acredito que o dinheiro consegue corromper um caráter ilibado, fazendo com que surjam manchas que sujam uma alma limpa.
A maldade também se veste de farrapos, mas isso é conversa para outro dia.
Todos os dias, passeando com meus oito cachorros, passo por uma obra recém-iniciada, onde começaram as atividades humanas.
Aos poucos, foram surgindo mais homens com suas roupas desgastadas, carros velhos, botas de borracha.
Certo dia, ao passar por ali, ouvi música, ou melhor, músicas.
Como eu percebi serem dois estilos totalmente diferentes de melodia, olhei pela única abertura na estrutura de metal que protege o terreno.
O terreno é imenso e, em um canto, serrando alguma coisa, vi o ouvinte de pagode.
Do lado oposto ao amante de sertanejo, vi o amante de música clássica.
Pensei: quem tem o privilégio de ouvir sua música predileta, em alto e bom som, na hora da labuta diária?
Eles.
Aqueles que podem ter tido uma infância triste, feia, mas perceberam que o futuro poderia ser diferente.
Perceberam que a maldade e a dor não precisam ser repetidas.
Que o vazio pode ser preenchido com música boa, sol, cantorias, amor pela vida e não apenas coisas.
Eles não precisam penetrar no buraco negro de sua existência, sendo os donos do mundo e pisoteando tudo que respira.
Ao contrário do que se pensa, os maus, cruéis, poderosos sem mérito, precisam muito de todos para validar a sua forma de existir.
Precisam de ouvintes na sua imposição de insanidades, precisam de corruptos para comprar, mulheres para encher de socos, filhos para maltratar, cães para torturar.
E essa busca nunca para e o sentido da vida se perde.
Já os que procuram as belezas do mundo, que sim são inúmeras, não dependem de ninguém, somente da própria vontade de se restaurar.
Mônica Becker Dahlem é publicitária, jornalista, escritora. Barbara, Frida, Caderno Literário Ajuris, Casos de Sucesso SEBRAE.
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Foto da Capa: Freepik

