Urgências costumam vir da vida, mas a arte, que a imita, pode também trazer alguma. E, por reinventar a vida, ampliando as suas possibilidades, a urgência da arte pode ser ainda mais ruidosa. Era dezembro, numa dessas tardes pachorrentas, quando recebi um áudio enorme de uma fonte desconhecida. Deve ser golpe, pensei, mas algo me fez sentir que não era. Era urgência. De arte da gema em plena vida. A Hildair Camera, orientadora educacional do colégio João XXIII, havia perdido seu único exemplar do meu livro A almofada que não dava tchau! (Editora Artes e Ofícios).
Ele vinha há anos fazendo parte de um projeto da escola para trabalhar os sentimentos de luto e separação das turmas, no final do ano. A proposta da escola era supimpa: se ficava difícil despedir-se no final do ano, mesmo com a perspectiva das férias, o remédio era contar uma história. Para a psicanálise, elaborar sentimento. Para a sabedoria popular, espantar males.
Escrevi a “Almofadinha” quando a minha filha era pequena e sofria muito quando precisava se separar de sua avó, que morava em outra cidade. A história põe em cena, de forma leve e lúdica, este desafio sério e pesado que temos desde sempre, como disse o poeta, de amar e despedir-se. Ou seja, ela conta para elaborar o sentimento. Ou espantar os males decorrentes dele. O livro foi reeditado, depois esgotou novamente. Enquanto aguarda nova edição, o único exemplar da Hildair foi surrupiado, em plena escola, o que não deve ser alvo de nenhuma crítica. Atire a primeira pedra quem, apesar de um caráter predominantemente honesto, nunca roubou um livro. Eu, que vivo deles, não atiro.
Vamos agora ao final de nossa própria história, já preparando as despedidas que logo vão demandar um novo relato. Acabo de dar meu único exemplar da Almofada para a Hildair, o que não atribuo a uma coragem pessoal, mas sim à generosidade geral de todo artista. Dedicamos nossas vidas a oferecer alguma beleza para o outro, nem que seja sob a forma de uma história com algum sentido estético para deter a feiura e reordenar o caos. Se precisarmos renunciar a nosso último exemplar, nós o faremos. E assim o fiz, não sem antes dar um tchau para a minha última almofada, dizendo a ela que o nosso destino é amar e despedir-se. Ela parecia compreender com a orelha amarfanhada de quem pede ao olhar para segurar uma lágrima, enquanto o resto do seu corpo de papel aninhava-se nos braços da Hildair.
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