Há três décadas, acompanho empresas e cooperativas que atuam no setor de gestão de resíduos e emergências ambientais. São negócios necessários e, quando bem geridos, lucrativos, mas operam com margens estreitas de lucro. Por isso, me surpreendi com o caso da Ambipar. Uma empresa brasileira do mesmo setor que cresceu a um ritmo frenético, expandindo-se para 42 países em pouco tempo.
Foi a primeira do segmento a abrir capital na Bolsa de Valores do Brasil (B3), e suas ações valorizaram 900% em um único ano. Em um piscar de olhos, passou a valer mais que gigantes tradicionais como a Embraer e Gerdau. A pergunta que me fiz foi: que milagre foi esse? Será que os “negócios verdes” se tornaram tão lucrativos assim?
A resposta é um escândalo que abalou o mercado financeiro brasileiro. Na verdade, são dois escândalos em um: uma fraude contábil dentro de uma armadilha para investidores.
Antes de falar sobre isso, é preciso diferenciar o joio do trigo. De um lado, estão as empresas genuinamente ESG, que integram Meio Ambiente (E), Social (S) e Governança (G) nos seus propósitos. Do outro, estão aquelas que usam a sustentabilidade como maquiagem, uma prática conhecida como greenwashing, ou “lavagem verde”. Uma empresa só é verdadeiramente ESG se agir com integridade nos três pilares. Se falhar em um, o discurso é mera fachada.
Quem é a Ambipar e o que aconteceu com ela? Fundada em 1995, a Ambipar decolou de fato em 2020, com seu IPO na bolsa (AMBP3). A empresa captou mais de R$ 1 bilhão e iniciou uma aquisição agressiva, comprando cerca de 40 empresas entre 2020 e 2022. Para financiar essa expansão, contraiu dívidas em real e dólar.
Para convencer o mercado, a empresa anunciou um fabuloso caixa de R$ 4,7 bilhões. O mercado foi seduzido. Em 2024, a Ambipar lançou green bonds (títulos verdes) no exterior, esperando captar US$ 500 milhões e acabou recebendo US$ 750 milhões de investidores estrangeiros entusiasmados. A empresa chegou a receber da Latinfinance o prêmio “Emissora de Dívidas do Ano”. Sim, existe um prêmio para quem se torna a maior devedora.
Ora, uma empresa que se apresentava ESG, sustentável e que atuava na Economia Circular, coisas que os consumidores e o mercado valorizam, e ainda com toda essa grana em caixa, se tornou a menina dos olhos dos investidores. Foi quando os cinco maiores bancos do país: Bradesco, Santander, Itaú, XP e BTG Pactual entraram na parada.
Eles usaram os COEs (Certificado de Operações Estruturadas) para canalizar o dinheiro de milhares de investidores para a Ambipar, prometendo retornos atraentes, como o IPCA + 9% ao ano. O Banco XP, “mais esperto”, incluiu uma cláusula crucial em letras miúdas: se as ações da Ambipar despencassem, o dinheiro dos investidores seria liquidado imediatamente. Aqui reside o segundo escândalo: um produto de risco extremo vendido sem alertar os investidores desta cláusula.
Como tudo isso aconteceu? O castelo de cartas desabou em 25 de setembro de 2025. Para pagar uma dívida de R$ 60 milhões, a Ambipar pediu proteção judicial, o que garante que os credores não possam cobrar suas dívidas por determinado período. Isso acendeu a luz vermelha para o mercado. Como uma empresa com R$ 4,7 bilhões em caixa não honra um compromisso tão pequeno?
A verdade veio à tona. Os R$ 4,7 bilhões eram uma ilusão. A “contabilidade criativa” escondia um caixa real de apenas R$ 80 milhões. O resultado foi um colapso: as ações da Ambipar caíram 93%. Quem investiu R$ 100 mil em um COE da XP viu, no dia seguinte, seu patrimônio reduzir-se a R$ 7 mil.
Hoje, a Ambipar enfrenta um rombo de R$ 11 bilhões e está sob investigação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A sua credibilidade evaporou e ela foi retirada da bolsa.
Achei importante “traduzir” este imbróglio: o problema não foi o serviço ambiental em si, que é legítimo e necessário, mas sim uma gestão financeira fraudulenta e irresponsável.
A lição que fica é: quando um negócio, verde ou não, promete rentabilidade milagrosa e crescimento exponencial em um setor de margens enxutas, desconfie. Golpes, afinal, não têm cor.
TAGs: Ambipar, bolsa de valores, B3, gestão fraudulenta, COE, XP, negócios verdes, green bonds, sustentabilidade, gestão de resíduos.
Referências:
Rombo de R$ 11 bilhões? A polêmica e bilionária crise da Ambipar
Ambipar: o maior escândalo do Brasil?
Ambipar: por que a empresa fracassou e o colapso do COE
Ambipar cilada das boas ? Ou oportunidade de ficar rico?
Todos os textos de Luis Felipe Nascimento estão AQUI.
Foto da Capa: Divulgação

