Eles estiveram juntos do início ao fim. Em 1998, aconteceu finalmente o “até que a morte os separe”. No caso, um câncer de mama. Linda McCartney tinha 56 anos, quatro filhos e um recíproco e verdadeiro amor por Paul quando sua temporada no planeta foi dada por encerrada. Para sempre. Quem dera fosse dos palcos. A morte não seria tão penosa se não fosse infinita. O fato é que, assim que ela começa, nunca mais termina. Quem perdeu alguém a quem amava sabe do que falo, ou, melhor dizendo, do que sinto.
Na literatura, há vasto acervo sobre o tema. No cinema também, mas como meu chão é feito de linhas e letras, prefiro falar sobre livros. De vez em quando, encontro, como se tivessem sido criadas pelos roteiristas, frases que pertencem a grandes obras, nem sempre mencionadas. Quando são, fico feliz. Em O Quarto ao Lado, do Pedro Almodóvar, por exemplo, o final de Os Mortos, do James Joyce, está presente: “A alma de Gabriel desmaiou devagar enquanto ele ouvia a neve caindo levemente sobre todo o universo e levemente caindo, como a descida ao seu fim derradeiro, sobre todos os vivos e os mortos”.
De fato, ninguém é poupado dessa neve. Não há circunstância que vença a natureza. Ela pode até ficar em segundo plano por um tempo, a medicina tem feito milagres, quase sair de férias, como em As Intermitências da Morte, do José Saramago, mas ela volta e cumpre sua função, o seu destino. Não gosto da ideia de ter um e me inquieta ter mais perguntas que respostas. Faltam-me respostas. Talvez os que vivem os mesmos dramas as encontrem. Meu pai e o Paul McCartney, por exemplo, perderam suas mulheres para o câncer na curva perigosa dos cinquenta anos, as duas amadas mesmo depois de três décadas de convivência.
Meu pai contava os anos da morte da minha mãe do mesmo modo que contava os anos de casados. Eu conto também. Os mortos não envelhecem, mas fazem aniversários. Faz vinte e oito anos, quase vinte e nove, que não tenho mãe. Até agora, ela segue sendo mais velha do que eu. Não sei como me sentirei quando eu olhar para fotografias em que ela parecerá ser minha filha. Não que ela, em alguns momentos, não tenha sido. Em seu final, em meio ao medo e aos cuidados, quebrou-se, arranhando-me o coração, o meu último pedaço de infância.
O meu coração é um corpo que não desiste de mim. De vez em quando, eu o chamo de palhaço, como Cruz e Souza, em O Acrobata da Dor, se refere a um que “gargalha, ri, num riso de tormenta” da pobre criatura que o carrega. Mais simbolista que romântico, meu coração persegue mistérios e devaneios. “Grandes paixões são preparadas em grandes devaneios”, Gaston Bachelard disse, provando que é possível filosofar em francês tão bem quanto em alemão e amar e ser amado em qualquer idioma, como se amaram os McCartney e os meus pais e alguns outros casais menos apegados ao ideal romântico ocidental de que a dor amorosa é um meio privilegiado de conhecimento e que “a felicidade dos amantes só nos comove pela expectativa de infelicidade que os ronda”.
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