Me sinto preenchida, feliz. Uma felicidade genuína, uma excitação. Me sinto viva, daquele jeito meio bobo-alegre que ficamos quando estamos apaixonados. Penso em como vou expressar esta sensação em palavras. Talvez fosse mais fácil criar uma pintura, uma melodia. Reflito durante horas, leio outras crônicas, medito. Lembro do trecho de uma música da Teresa Cristina: “Em todo samba que faço, tem espaço, eu ponho o mar.” Desde nosso mais recente encontro, há poucos dias, não existe outro tema para mim. Mas, sinceramente, fico sem saber como abordar este assunto nesta coluna de uma forma inteligente ou interessante, porque o que tenho a dizer é específico demais: sou uma viciada. Em mar. Experiencio desejo, abstinência, sou movida pela vontade de estar imersa nele, estou sempre ansiando a próxima dose de água salgada.
Tiro as havaianas e sinto a areia quente sob os pés, sua textura fina e macia me envolvendo. O sol do meio-dia brilha forte, queimando a pele. Estendo a canga e sento para apreciar a vista e esquentar o corpo para, logo, entrar no mar. Amigos, conversas, risadas, água de coco, milho verde com manteiga. Mergulho, e sua temperatura perfeita refresca a cabeça, lava a alma, me renova. Sinto arrepios de prazer, não consigo conter o sorriso, que estampa meu rosto do começo ao fim. Revisito, depois de cinco anos, o que vivi diariamente em 2021.
Sempre tive uma conexão com o mar, imagino que desde meus sete meses de idade, primeira vez que fui à praia, em Cabo Frio, verão de 1994, provavelmente janeiro. Não tenho recordações, afinal, eu era um bebê, mas existem fotos que provam meu contato inaugural com o oceano. Não acho que existiu um ano da minha vida em que eu não tenha mergulhado em águas salgadas. Desde a pós-adolescência, podendo escolher meu próprio caminho, os nossos encontros se tornaram ainda mais frequentes. Cinco, seis vezes ao ano. Até que, em 2021, plena pandemia, já fora de São Paulo há alguns meses, eu e Luigi decidimos morar em Maresias, litoral norte de SP. Nunca fui tão feliz. Morávamos a uma quadra da praia, que, diga-se de passagem, é maravilhosa; os vizinhos viraram parte da nossa família, eu surfava várias vezes na semana, via o mar diariamente, sentia seu cheiro, seu gosto, sua força.
Após esse ano inesquecível, podendo me banhar nas águas do mar a qualquer momento, todo santo dia, decidi que não podia mais viver longe dele. Quando mudamos para Portugal, então, em 2022, resolvemos nos fixar na Ericeira, vila de pescadores, reserva mundial de surf. Estar perto da imensidão azul me faz bem, tanto emocional quanto espiritualmente. Sentir o sal na pele, sua temperatura no corpo, o barulho constante das ondas quebrando, me deixar hipnotizar por seus tons.
Vivo agora ajeitando minha vida em torno dele. Escolho onde morar pensando na proximidade com suas águas. Organizo meu trabalho para ter tempo de visitá-lo. Planejo viagens considerando se ele estará no destino. Algumas pessoas constroem suas rotinas em volta do trabalho, da academia. Eu construo em torno do oceano.
“O mar é o universo perto de nós.” — José Saramago cunhou esta frase, que, para mim, é a mais verdadeira de todas. Não acredito em Deus como um pai severo, e sim como energia fluida. Minha fé está nas sutilezas que o cosmos emana. Então, é como se o mar fosse a minha igreja e o universo, a minha religião. É para as águas salgadas que vou quando quero agradecer, ou buscar conexão, força, bênçãos. Elas curam qualquer coisa. Um mergulho é bem-vindo em dias felizes ou tristes, frios ou quentes, entre primavera e primavera, para sanar a dor ou celebrar a conquista.
Entrar no mar é como reiniciar o computador quando ele tem algum problema: não sei bem o porquê, mas funciona. Depois de um banho, saio sempre melhor. Sempre. Acho que é assim que as pessoas que frequentam a igreja se sentem depois da missa de domingo.
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Foto da Capa: Bruno Muniz / Divulgação

