Original publicado em 04/08/2025
Na coluna da semana passada, comentei que a anatomia do pênis foi revelada há mais de 200 anos, enquanto a do clitóris só foi conhecida há 27 anos. É inacreditável, um absurdo, na verdade, inaceitável. Mas antes tarde do que mais tarde ainda… e não podemos perder tempo. O clitóris é o único órgão humano com a função exclusiva de prazer. Muito já se conquistou com o estudo da sua anatomia. E a ampliação da abordagem permite mais conquistas para a sexualidade humana e a saúde como um todo.
É surpreendente a enorme semelhança do clitóris com o pênis, sendo apenas em tamanho reduzido – por não ter as mesmas funções –, mas igualmente com glande, prepúcio e muito mais tecido erétil do que toda a literatura médica já havia descrito até o final do século XX. E é duas vezes maior do que se acreditava, estendendo-se pelas paredes laterais da vagina, protegido por camadas de gordura e ossos púbicos, sendo externa apenas uma décima parte da sua anatomia.
A nossa heroína é a urologista australiana Helen O’Connell, do Royal Melbourne Hospital. Com a ajuda do anatomista Robert Plenter, dissecou dez cadáveres femininos para conhecer os detalhes do clitóris. Descreveu que os nervos dorsais são também muito maiores do que mostravam os livros de anatomia – levam a informação sensorial para o cérebro. Os nervos cavernosos controlam os músculos lisos e os vasos sanguíneos, permitindo que o clitóris se dilate nas relações sexuais – ele incha de forma semelhante à ereção peniana, mas não fica rígido. A ponta externa se conecta com o lado interno através de um pedaço de tecido erétil em forma de pirâmide, também muito maior do que se pensava. A vagina igualmente se dilata nas relações sexuais: com cerca de 7 a 10 centímetros, quando estimulada, pode aumentar em até 200%. Suas paredes internas são plissadas, se abrindo como um guarda-chuva durante o ato sexual.
O clitóris tem 8.000 terminações nervosas, o pênis tem 4.000. Pode ser estimulado da mesma forma que o pênis, através de fricção. Em A grande história da evolução, o biólogo evolutivo e etólogo Richard Dawkins observou que as fêmeas Pan paniscus (macacos bonobos, que usam o sexo como meio de troca na interação social), praticam aos pares a fricção gênito-genital, roçando seus genitais e “emitindo gritinhos que provavelmente refletem experiências orgásmicas”.
Compreender a anatomia do clitóris ajuda as pessoas a terem melhores relações, mais prazer e orgasmos. Uma bela coreografia é encenada dentro do corpo da mulher a partir do contato sexual. Na relação com o homem, não precisa começar necessariamente com a penetração do pênis – junte os recursos anatômicos com a poesia do encontro, da intimidade e fica fácil entender porque as mulheres valorizam tanto as “preliminares”, como se diz. Na estimulação amorosa e criativa, os parceiros podem chegar a orgasmos mais frequentes e facilmente, o que é uma enorme conquista para todos.
Outro aspecto importantíssimo de conhecer a anatomia dos órgãos sexuais femininos é humanizar os exames e procedimentos ginecológicos, conforme apurei na pesquisa para o meu livro Mulheres Cérebro Coração. Pode-se evitar, por exemplo, o desenvolvimento de disfunções pós-operatórias. Os nervos cavernosos atravessam as paredes do útero, da vagina, da bexiga e da uretra e, assim, a incontinência urinária, o câncer de bexiga e a histerectomia podem causar danos à função sexual.
Ampliando a abordagem, reconhecemos que o ser humano é um animal cuja existência é, do princípio ao fim, marcada pelo signo do sexo e seus códigos. Essa condição, precisamente (associada ao temor e ao culto da morte), nos destaca das demais espécies. Somos os sujeitos pensantes num universo de símbolos. Não é à toa que a Organização Mundial da Saúde (OMS) determina a sexualidade como um critério essencial para a qualidade de vida. Problemas de relacionamento podem desencadear um quadro de depressão e disfunções sexuais podem ser sinal de outras doenças.
Na Antiguidade, o poeta Lucrécio, seguindo as ideias do filósofo Epicuro*, já via na busca do prazer algo natural e importante para a vida humana, tendo analisado como o desejo sexual surge, como afeta o corpo e a mente, e como pode levar tanto ao prazer quanto à dor. Na Modernidade, Sigmund Freud mergulhou fundo na sexualidade, atribuindo-lhe uma força complexa e multifacetada, que moldaria a experiência humana da infância à vida adulta. Abriu o caminho para muitos outros pensadores. Wilhelm Reich, um de seus promissores discípulos, fez novas interpretações da teoria da libido e da relação entre sexualidade e neurose.
Reich defendeu a existência de uma energia vital, a energia orgônica, que permeia fenômenos naturais e o corpo humano, influenciando emoções e saúde. Identificou também uma “armadura muscular” como resultado da repressão sexual, uma couraça que afeta o corpo e o caráter da pessoa. Mostrou que as questões relativas ao sexo atravessam todos os campos científicos e, por isso, enfrentou acirrada resistência de seus pares e das autoridades, além de calúnias de todo tipo, e acabou na prisão, onde morreu, em 1957. “De acordo com a visão corrente da vida, sexualidade é um termo ofensivo. É muito tentador negar completamente a sua importância para a vida humana. Será necessário, sem dúvida, o trabalho de muitas gerações antes que a sexualidade seja levada a sério pela ciência oficial e pelos leigos (…)”, escreveu no seu livro A função do orgasmo.
Novos estudos sobre o corpo da mulher
Um ano depois que lancei Mulheres Cérebro Coração, veio a pandemia e, obviamente, a ciência direcionou todo o esforço para o combate ao vírus. Pausei o trabalho de divulgação do livro, comecei a estudar e escrever sobre metafísica e depois me dediquei a duas pós-graduações: ciências humanas e psicanálise no século XXI. Assim, não acompanhei se houve avanço em estudos sobre o corpo da mulher desde então. Mas soube, agora, que o Hospital Israelita Albert Einstein, através do seu hub de startups, Eretz.bio**, está provendo base científica para o Centro de Pesquisa da Mulher, lançado pelo Grupo Boticário em março deste ano.
Ao anunciar sua iniciativa, o Boticário lançou a campanha #PesquiseMeuCorpo, destacando que as buscas por corpos de mulheres, famosas ou não, somam milhões de registros na internet, mas quando o assunto é ciência, esses mesmos corpos ainda são subapreciados. O grupo divulgou dados do ano passado, revelando que, em razão de as pesquisas científicas priorizarem corpos masculinos como o padrão em análises sobre saúde, cuidado e bem-estar, existe uma disparidade significativa nos investimentos dedicados a pesquisas sobre a saúde de homens e mulheres. E isso se reflete em dados preocupantes: mulheres são diagnosticadas tardiamente em mais de 700 doenças, e há uma lacuna da ordem dos trilhões de dólares em oportunidades perdidas por conta dessa dinâmica. (Fonte: Closing the women’s health gap. McKinsey Health Institute).
Eu tentei entrevistar o Boticário na semana passada, mas, em função da alta demanda de agenda dos porta-vozes do grupo, segundo a relações públicas, meu pedido ainda não foi atendido. O release anuncia investimento de R$ 13 milhões no Centro de Pesquisa da Mulher neste ano e crescimento de 20% para os próximos anos. Foi divulgado que são quatro pilares de atuação: fomento a pesquisas científicas sobre os ciclos femininos considerando as diferenças fisiológicas, hormonais, microbiota e as necessidades específicas de cada fase; educação e empoderamento para capacitar profissionais e pesquisadores; desenvolvimento de produtos das mais diversas categorias a partir de um aprofundamento das necessidades das mulheres em todas as etapas da vida, incluindo momentos únicos como a gravidez, pós-parto, início da menopausa, etc., e uma abordagem holística, garantindo a visão integral sobre beleza e bem-estar da mulher em sinergia aos demais polos de pesquisa do Grupo.
*Lucrécio seguiu as ideias do filósofo Epicuro sobre o objetivo da vida: ataraxia (tranquilidade da mente) e aponia (ausência de dor física), que se poderiam alcançar através do conhecimento da natureza e da superação de medos irracionais ligados aos deuses e à morte.
**A Eretz.bio: ecossistema de inovação em saúde que conecta startups, empresas e centros de pesquisa translacional a especialistas do Einstein, impulsionando soluções tecnológicas de alto impacto. A parceria com o Boticário une a expertise do hospital em pesquisa aplicada, biotecnologia e inovação na saúde à busca do grupo por cosméticos e soluções de beleza e bem-estar conectados às necessidades específicas das mulheres em diferentes ciclos da vida.
Todos os textos de Vera Moreira estão AQUI.
Foto de capa: Ismael Nery. Composição surrealista em guache s/papel, 1928. Foto de Jaime Acioli.

