Com o pé direito, com o esquerdo ou com os dois ao mesmo tempo, pouco importa. O fato é que estou pronta para pisar em 2026. Não, não adquiri nem joguei fora nenhuma Havaianas. O que fiz foi algo muito mais simples: comprei uma nova agenda alguns dias antes de o ano terminar.
Apesar de, aos poucos, eu me livrar de certas convenções, começar o ano com uma agenda nova é um ritual que insisto em preservar. Trago esse hábito da adolescência, quando ela servia para eternizar o que havia sido vivido. Ali eu copiava letras de músicas, frases de efeito, anotava a vida em andamento: amizades, amores e os incontáveis dramas daquela fase. Colava fotografias, bilhetes de cinema, papéis de bombom e tudo o que, de alguma forma, merecia ser guardado. Quanto mais volumosa se tornava, mais despertava admiração entre as outras meninas, que também exibiam as suas como se a própria vida coubesse naquelas páginas.
Com a maturidade, a agenda deixou de guardar o que passou para me lembrar do que ainda está por vir. Assim que cheguei em casa com a nova, tracei em suas linhas planos e metas para os longos doze meses que se anunciam. Comecei listando as atividades que já ocupavam meus dias em 2025 e que seguirão comigo: a coluna semanal no Sler, os textos sobre pesquisa e escrita no Substack, a Revista Voo Livre, os originais em que trabalho desde 2022, além do lançamento, em formato físico, de uma novela já publicada na Amazon e da organização de outro livro.
Depois, rabisquei novos projetos: ideias para a escrita, para a biblioteca da escola que passarei a ocupar após um longo período de licença-saúde e para o meu crescimento pessoal. Sei que não conseguirei cumprir todos os objetivos, mas o simples exercício de vê-los no papel já é, por si só, um estímulo para seguir.
O gesto de escolher uma agenda nova às vésperas do ano que começa dialoga, sem que eu tenha percebido de imediato, com o poema Receita de Ano Novo, de Carlos Drummond de Andrade. No texto, o eu lírico desmonta os rituais da virada, dispensa as promessas vazias e as listas feitas para serem esquecidas na gaveta. Não propõe arrependimento pelos erros cometidos e alerta que de nada adianta apostar no ano que se inicia se não mudarmos algo dentro de nós.
De certa forma, é assim que a agenda funciona para mim. Ela já não guarda o passado, como fazia na adolescência, mas aponta caminhos, lembra compromissos, provoca escolhas. É com esse espírito, menos festivo e mais consciente, que recorro às palavras de Drummond — que cito a seguir — com os pés no chão e a esperança de que 2026 seja um bom ano.
Receita de Ano Novo
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperançaa partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
“Receita de Ano Novo” é um poema de Carlos Drummond de Andrade publicado em 1977 no livro “Discursos de Primavera e Algumas Sombras”
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Foto da capa: Freepik

