Embriagados de diferentes tipos de entretenimento, fica difícil diferenciar o que é apenas lazer do que é realmente informação.
Talvez seja culpa do excesso de telas, de feeds intermináveis, de risadas rápidas e memes fugazes, mas andamos atordoados e distraídos, incapazes de relacionar conhecimentos, absorvendo tudo como distração. E, convenhamos, distrair-se é uma bênção. Nada como dar boas risadas com bobagens inteligentes — essas que cutucam de leve, fazem pensar sem doer. Lembrei agora de séries divertidas como Machos Alfa, da argentina Invejosa e da brasileira Pablo e Luisão. Perfeitas para um dezembro despreocupado. Fica a dica.
Tenho minha própria teoria sobre meses felizes. Dezembro — é o mês oficial. Entre meu aniversário, Natal e Ano Novo, fica imbatível no ranking da leveza. Fevereiro também disputa medalha, porque ninguém resiste ao trio férias + sol + carnaval. Mas, de março a novembro, faço outro tipo de mergulho: o das curiosidades, das leituras que provocam minhas certezas, dos filmes e podcasts que me apertam o juízo. É o meu período de estudo, a estação longa em que vou organizando perguntas e entendendo o mundo aos pedaços.
E, antes que dezembro chegue para dissolver preocupações e ativar o riso fácil, resolvi fechar o mês com um inventário — não dos livros lidos, mas das inquietações e relações que eles permitiram fazer com outras produções culturais.
Tudo começou com o livro Guerra dos Lugares, de Raquel Rolnik, que me empurrou para dentro do labirinto do urbanismo financeirizado. Dali, fui parar no livro da economista Susan Strange, essa inglesa de fala afiada que, em 1996, já avisava em Casino Capitalism que estávamos transformando a economia num cassino — e os dados nem sempre eram lançados por mãos inocentes. A substituição da economia real pela lógica dos ganhos rápidos, dizia ela, poderia deformar sociedades inteiras. Analisando o cenário atual, será que também deforma o desenvolvimento de cidades inteiras?
Com essa pergunta na mente, revi o filme A Grande Aposta (2015). E lá estava a crise de 2008, nua e crua, mostrando como um mercado imobiliário inflado por títulos “seguros” virou poeira nas mãos de quem acreditou que casa própria é sempre porto firme. O personagem de Christian Bale, um gênio desajustado, percebeu a falha de um sistema financeiro que criava uma ilusão e apostou contra o sistema — literalmente. A engrenagem ruiu. Bancos foram salvos, investidores lamberam feridas e famílias perderam tudo. O velho enredo de sempre: quando o gigante cai, quem amortece a queda é o povo, pagando o preço, ficando mais vulnerável.
Mas há algo ainda mais perverso nessa lógica: transformar a construção civil em ativo financeiro. Um setor que já consome quase metade dos recursos naturais do planeta, que responde por 38% das emissões de CO₂, vira engrenagem de um jogo que produz não para atender à população, mas para empilhar valor. Produz lançamentos como o fast fashion da indústria da moda, só que em escala muito, muito maior. E com imóveis ociosos, não com blusinhas.
Vivemos num planeta finito, embora insistamos em tratá-lo como depósito infinito de recursos, em que a lógica econômica é quem dita as regras em todos os setores. A série Rotten é um soco educado no estômago: leite, mel, uva, ovos, água — tudo capturado pela lógica de escala e de lucro. Adulterações, esquemas, disputas de poder, nada é simples quando se decide ganhar o jogo. No episódio “Guerra do Abacate”, vemos territórios inteiros submetidos a interesses alheios, comunidades desfeitas e uma globalização que muda de endereço quando o solo começa a ceder. Para o grande capital é fácil entrar e fácil sair. O prejuízo fica de novo com a população, com a base da pirâmide mais uma vez vulnerabilizada.
Para completar o triângulo das provocações, veio Saskia Sassen com seu livro Expulsões. Seu diagnóstico é direto e dolorido: o capital financeiro internacional, especialmente o imobiliário, agora circula o mundo como predador elegante. Compra terras, prédios, bairros inteiros sem qualquer compromisso com quem mora, precisa ou pertence àquele lugar. Não é sobre cidades — é sobre tabuleiros.
E encerrei esse percurso assistindo ao documentário Onde Moro, que escancara o desamparo silencioso de trabalhadores em grandes cidades norte-americanas — São Francisco, Los Angeles e Seattle —, onde o valor dos imóveis simplesmente não conversa com os salários de quem mantém a cidade de pé. O resultado é brutal: gente vivendo em carros, barracas, trailers, ruas; vidas inteiras suspensas entre o sonho da estabilidade e o peso da conta que nunca fecha. Mais doloroso ainda é perceber o impacto emocional dessa precariedade. E, embora a equação trabalho e moradia seja um problema global, ele se revela ainda mais evidente — e cruel — na realidade brasileira.
Entre livros, séries, filmes e documentários, destaco algo que talvez soe óbvio, mas que teima em ser ignorado: não há espaço para debates rasos. O mundo já está complexo o bastante para brigarmos dentro de casa. País, Estado, Município — ou alinhamos objetivos e construímos estratégias integradas, ou continuaremos correndo atrás de prejuízos produzidos por sistemas que não têm pátria, não têm rosto e, muitas vezes, não têm limites.
Ainda assim, sigo otimista. Acredito que, passada essa onda-turbilhão de informações, aprenderemos a usar as redes para ampliar o olhar, compreender melhor as complexidades que atravessam nossas áreas e, quem sabe, misturar saberes para construir soluções mais abertas e conectadas à nossa realidade. No fundo, tenho a impressão de que compartilhamos mais ambições do que divergências. Só não podemos nos iludir: o sistema não vai se consertar sozinho, pois está rendido aos interesses dos donos do capital. E cabe ao Estado assumir seu papel na construção de um projeto de nação.
Agora sim: que venha dezembro. Porque, depois de tanto pensar, eu também mereço uma boa comédia.
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Foto da Capa: Rotten / Netflix / Divulgação

