A imagem da ex-presidenta Dilma Rousseff têm circulado generosamente nas redes sociais desde a condenação inédita de Bolsonaro, dos militares Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira, Braga Netto, Almir Garnier e Mauro Cid e dos delegados federais Anderson Torres e Alexandre Ramagem. Muito embora a tentativa de golpe tenha sido perpetrada contra o governo Lula, a imagem de Dilma ancora um sentimento de justiça muito particular a nós mulheres.
Em 16 de abril de 2016, Bolsonaro, como deputado, votou a favor do impeachment de Dilma enquanto proferia um discurso pérfido homenageando o único militar reconhecido oficialmente como torturador: “Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff […] o meu voto é sim”. Esta não foi a única frase criminosa de Bolsonaro e tampouco a única absurda em relação às mulheres. Aliás, existe um verdadeiro compêndio de impropérios de toda a sua vida pública na qual “cresceu” politicamente, justamente, atacando minorias não apenas de forma ideológica, mas criminosa e impunemente.
A internet está servida de reproduções de cada um desses momentos em que Bolsonaro fere a essas populações que já são invisibilizadas, quando não questiona uma série de direitos adquiridos pelas mesmas de forma legítima. Sem falar no descaso sistemático e desprezo performático em relação à Covid e suas vítimas. Sabemos como todo esse caudal de bosta retórica, movido a polêmicas, não visa somente atingir a A ou B pessoas e setores, mas, sobretudo, instalar aquilo que alguns intelectuais chamam de regime de autorização discursiva.
Os linguistas teorizam o que são os discursos. Por outro lado, na filosofia, por exemplo, Foucault tinha a sua ideia de discurso e seus agenciamentos no social. Enquanto isso, nós, psicanalistas, temos ainda a nossa própria noção de discurso que nos ajuda a ler a posição de um sujeito em relação a sua própria linguagem. Entre um desacordo aqui e uma ponte acolá, é certo que todes coincidimos que, no laço social, há circularidades discursivas que vão plasmando as condições propícias à barbárie.
Desse modo, ainda que por dentro de uma bolha, é interessante pensar como essa condenação inédita é, indiretamente, uma condenação da tortura e da barbárie exaltadas pela imagem gastada, mas insistente, de Bolsonaro.
Não é por acaso que tanta misoginia, racismo, homofobia, transfobia, descaso com o meio ambiente – entre outras falências do ser humano – pululam em nosso país e em nosso congresso. É por autorização discursiva. Essa malha de enunciados vai formando um caldo de cultura que acomoda desde a mais banal condescendência machista – para uma mulher, até que ela dirige bem, eles dizem –, passando pela piada grosseira do tio, para, finalmente, chegar ao maltrato e à licença para agredir, estuprar e matar.
Apesar dele, condenado, apesar deles todos, como quer a canção de Chico Buarque, hoje já parece ser outro dia. Comemoro, mas não me iludo. Serão necessários ainda muitos outros dias, já não de desforra ou de vingança, mas de recomeço.
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Foto: Priscila Mazenotti, Agência Brasil
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