Eis que se aproxima, no curso da vida, o tempo de se aposentar. E como outros tantos eventos inscritos na vida social, nunca o que se passa ao redor, com os outros e outras, é suficiente para preparar cada um para a ocasião em que se vive a situação na primeira pessoa.
Para começo de conversa, com a crescente onda de desregulamentação das relações de trabalho na contemporaneidade, tende a encolher a representação social do século passado para a aposentadoria, ornada por pijamas e clima de dolce far niente, e manutenção de um salário inscrito no respectivo contra-cheque (outrora denominado holerite). Para parcela crescente de trabalhadores que resolvem suspender uma atividade costumeira de trabalho, não há mais esse colchão de segurança do salário (mesmo diminuído em relação ao tempo de trabalho “na ativa”). Para tal parcela crescente na contemporaneidade, a parada de uma atividade deve necessariamente ser seguida pela abertura de outra frente de trabalho.
Dois pontos me motivaram a tocar nesse assunto, nesta semana: em primeiro lugar, meu próprio engajamento pessoal nesse drama social; segundo, um aspecto a que já havia aludido aqui, ao tratar de assunto relacionado, que é o envelhecimento. No texto anterior, dedicado a esse momento outonal de vida, o foco foram as perdas que inexoravelmente caracterizam o envelhecimento – dentre as quais, a perda do espaço psicossocial de imenso valor para a economia interna das pessoas, representado pelo posto de trabalho. Pela inserção social que isso representa, com seus desdobramentos em termos de valoração e reconhecimento. É verdade que não poucos ofícios têm vida útil extremamente curta, o que induz seus trabalhadores à aposentadoria em plena juventude tardia, ou ainda longe do tempo de velhice estrito senso: é o caso, dentre outros, dos atletas de alto nível, como os jogadores de futebol e outras modalidades, que se “aposentam” no liminar dos 30, no máximo 40 anos de vida, quando são declarados velhos demais para o ofício. Mas esta não é a regra. O ponto mais usual, que proponho focar aqui, se inscreve nesse espectro mais amplo de perdas do envelhecimento – tema recorrente a que retorno agora.
A aposentadoria que espreita parcela ainda importante de trabalhadores e trabalhadoras traz em seu bojo uma modificação importante do ecossistema pessoal. Não por acaso, multiplicam-se as ofertas de supervisão (ou “mentoria”, para ser mais moderninho) para o devido acompanhamento/aconselhamento daqueles que se aposentam. A inserção de uma flexão no plural para o título acima busca, de saída, chamar a atenção para o fato de que a aposentadoria não se restringe ao ponto focal mais disseminado da suspensão de vida laboral, mas vai além. Abarca, por exemplo, a perda de um nicho que nem parecia tão impregnado da pessoa que se afasta – a saleta, o birô, as estantes, as fotos e bibelôs variados povoando as paredes. Nesse sentido, uma das cenas paradigmáticas da aposentadoria (assim como de outro evento dramático e assemelhado, a demissão) é aquela em que a pessoa em questão desnuda seu espaço de trabalho, acumulando numa caixa de papelão os penduricalhos que conferiam identidade ao nicho de atividade em processo de desmontagem. Preenchida a caixa, desnudadas as paredes, esvaziadas as gavetas, eis que nosso personagem recém-aposentado olha pela última vez aquele espaço, doravante desinvestido das marcações pessoais de outrora, dirige-se à porta de saída, sob os olhares dos colegas de ativa que permanecem, e que variam da inveja à pena. Gestores de recursos humanos costumam contar casos de trabalhadores que adiam o quanto podem este momento tão cheio de significado e afetos que é a desocupação da sala. E não adianta aludir à ideia-padrão de que aquele espaço nunca foi privativo daquele trabalhador, e sim a ele provisoriamente confiado, em tempo balizado pela duração da “vida ativa”.
Vive-se um tempo em que se busca discutir criticamente o chamado paradigma “6 x 1”, ou seja, padrão semanal de uso do tempo laboral em termos de seis dias trabalháveis por no mínimo um dia de repouso remunerado. O mote de luta, para muitos, é a ampliação desse tempo de repouso, ou não-trabalho. Tudo isso tendo como ponto subjacente a ideia de que trabalho é muito na esfera psicossocial de cada um e cada uma, mas não pode ser tudo. Efetivamente, trabalho não pode, não deve abduzir a vida inteira. Mas ainda tem pregnância suficiente para fornecer combustível para a saúde e o adoecimento físico e mental, e sobretudo para impactar a vida de quem, num período específico da vida, dele se afasta.
Aposentar-se implica muito frequentemente encolher em termos de lugar social – para quem se aposenta e para quem revê a própria representação daquele colega, amigo, parente que acaba de se aposentar. Alguns aposentados preservam o paradigma usual e antigo da aposentadoria e do aposentar-se, e efetivamente “vestem o pijama”. Aposentadoria como tempo de “repouso do guerreiro”. Mas surge com força crescente outro paradigma, aquela da aposentadoria como “segunda vida”, mesmo para aqueles que conservam o direito trabalhista histórico de serem remunerados (mesmo com certa redução) estando retirados da vida produtiva. O paradigma da segunda vida alude justamente à oportunidade, para muitos, de anularem a redução inexorável do ganho salarial, o que se alia à oportunidade de rever algumas frustrações de longa data: conheço um caso, que naturalmente não identificarei aqui, de médico bem conceituado e respeitado que, ao aposentar-se, ato contínuo abriu seu próprio restaurante, pois ser um chefe de cozinha era seu projeto de vida laboral de fato mais querido…
Nem todos têm a clareza de uma segunda vida já engatilhada, e buscam freneticamente “conselheiros” (“coaches”) que lhes ajudem a achar essa ocupação vicária – pois sentem que se pararem, colapsam – como na metáfora da bicicleta.
Compartilho aqui com o eventual leitor ou leitora que meu desafio inicial, meu momento zero de aposentado buscará tirar proveito do direito de, se não propriamente parar, diminuir o ritmo. Diminuir o frenesi da luta estrutural entre “importantes” e “urgentes”. Retomar o espaço das pequenas tarefas, de certa jardinagem na vida privada. Essa possibilidade costuma demandar período importante de “desintoxicação”, de descompressão semelhante àquela dos mergulhadores submetidos ao stress das grandes profundidades, quando voltam à superfície. Isso conseguido, uma nova economia interna conquistada, e nessa conquista incluída a autorização interna a fazer menos, abre-se o tempo de buscar o que ainda fazer. O que refazer. O que começar a fazer. Sob a vigilância de não escorregar para o mesmo padrão de sobrecarga que, para muitos, teve papel importante na decisão da aposentadoria. Decisão que arrisca, para muitos, tornar-se algo evanescente, fugidio, inalcançável.
Drops da semana:
Aposentadoria como licença interna.
Todos os textos de Jorge Falcão aqui.
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