
O mundo assiste, hoje, ao enésimo autocrata que, mais uma vez, tem o despudor de justificar suas ações como uma criança de cinco anos o faria, em termos de “porque eu quero, porque eu posso”. Líderes de países oponentes que enfrentem esse querer e esse poder são buscados por dispositivos guiados por IA e fragmentados a domicílio. Nos funerais que se seguem, nessas capitais vilipendiadas, os sinos dobram por estes líderes massacrados, mas também pelos demais civis moradores nos arredores, ou crianças em turno escolar. Como as meninas assassinadas em Hormozgan, no sul do Irã. Como tantas outras e tantas vezes na Faixa de Gaza. Como outrora em Guernica.
Ernest Hemingway teve a lucidez de perceber que, em todas essas ocasiões, os sinos nas torres das igrejas, a recitação do anúncio de orações fúnebres (Salat al-Janazh), em lamúrias do alto dos minaretes, todos eles reverenciavam os que haviam partido, cujos restos navegavam sobre o mar de ombros de multidões silenciosas. Mas não só. Os sinos fúnebres dobram por todos aqueles que se julgam seguros em seus lares de classe média. Continuam ressoando nos lares ocidentais contemporâneos, onde assistimos em tempo real, como num videogame macabro, mísseis e drones destruírem alvos em zonas urbanas.
Estes sinos, juntamente com as maldições monocórdias dos minaretes, suplicam penas bíblicas para os autoproclamados donos do mundo. Elas, as maldições, têm fé inabalável de que esses donos do mundo triunfarão uma vez, duas, três, mas perecerão face à força da fúria que se aloja, terrível e silenciosa, no peito de cada mãe privada de seus filhos e filhas despedaçados pelas bombas.
Os tiranos que se creem onipotentes e eternos são a personificação da Mentira e do Engano, que atrairão o demônio da seca e da aridez, e arrastarão seus povos à falência que, mais cedo ou mais tarde, é o destino desses chefetes e de seus povos.
Forças cósmicas haverão de aniquilar as pretensões de quem se supõe acima do bem e do mal. Houve um desses personagens malditos que findou a vida na agonia dos que ousaram voar próximos ao sol, e tiveram a cera de suas asas postiças derretida pela própria soberba. Morreu num bunker berlinense em meio à agonia de uma nação inteira.
Aqueles que morreram, juntamente com os que ainda morrerão em função da vontade abusiva de quem se avalia como dono do mundo, voltarão em cortes de almas sedentas da vingança mais sagrada. Nunca antes, na história dessa humanidade sofrida, esses chefetes perduraram. Não perdurarão agora. Até porque, na luta diuturna no interior da alcateia dos tirsanos, o aliado de hoje é o algoz de amanhã. Disso se segue que não é aconselhado aos tiranos dormir em nenhum momento, e disso decorre que a fadiga só aumenta.
Forças temíveis foram liberadas nessa contemporaneidade, em que mães e pais perdem suas casas, e enterram seus filhos. Na solidão de sua dor, se perguntam por que mereceram semelhante desgraça, e não encontram resposta. Pois os tiranos do Apocalipse liberaram suas hostes porque o quiseram. Porque puderam fazê-lo sem encontrar resistência suficiente.
Mas não perdem por esperar. Haverão de seguir inexoravelmente para o ocaso mais atroz, entendendo finalmente a dor de serem desmembrados por bombas após eles próprios sofrerem tal despedaçamento. Isso não é uma profecia. Não é um rogo de praga, nem sequer delírio que germina feito planta selvagem na terra do pensamento desejante. É tão somente uma reflexão que me permito, não porque “quero”, nem porque “posso”, mas porque preciso. Para sobreviver, enquanto espero, e enquanto os sinos dobram pelos chefetes fadados à sina dos malditos, e por todos os outros que serão moídos, nesse meio tempo, por engrenagens alheias a sentidos e explicações, bestas do Apocalipse que já se insinuam nos portões das casinhas elegantes de um mundo que ainda não percebeu, mas se transmutou num Titanic.
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