
Sempre foi mais fácil vender ilusões do que realidades. Desde tônicos milagrosos para cabelo até fórmulas infalíveis para enriquecer rapidamente, soluções mágicas sempre povoaram o imaginário humano. Talvez porque seja mais confortável acreditar no milagre do que encarar os processos — e os problemas — que compõem a realidade.
Seria maravilhoso resolver tudo pelo caminho mais rápido e fácil. Mas, no fundo, sabemos que esse caminho raramente existe.
Começo por aqui porque, muitas vezes, promessas milagrosas conseguem desacreditar anos de estudos e debates técnicos. A complexidade dos problemas se banaliza, o debate público perde profundidade e a régua das discussões desce perigosamente. Como no filme Não Olhe para Cima, parece importar mais o meme que se pode fazer com a fala de um cientista do que discutir seriamente as consequências das escolhas que fazemos.
Com a arquitetura e urbanismo, acontece algo parecido.
Quantas vezes já vi associar a profissão de arquiteto à ideia de que somos “contra construir em altura”? Sempre que surgem discussões sobre novos investimentos ou revisões de planos diretores, o debate parece girar em torno disso, como se essa fosse a grande questão urbana do nosso tempo.
O problema é que essa simplificação cria um terreno fértil para memes e polarizações: de um lado, os profissionais “contra o desenvolvimento”; de outro, os “a favor do progresso”. E, como sempre, não faltam radicais dispostos a defender um ou outro lado.
Mas, se a questão não é a altura dos edifícios, qual é então o problema?
Antes de seguir, agradeço por você estar lendo até aqui. É um pequeno alívio poder compartilhar argumentos que ajudem a iluminar um pouco melhor essa discussão.
Comecemos por um ponto importante: altura e densidade populacional não são a mesma coisa.
Poucas cidades explicam isso tão bem quanto Nova York. Nas imagens aéreas mais famosas, vemos o distrito financeiro de Manhattan tomado por arranha-céus. Mas raramente a cidade é mostrada do outro lado da ilha, em bairros como o Harlem, onde predominam edifícios de seis ou sete pavimentos.
E adivinhe onde vive mais gente.
O Harlem possui aproximadamente o dobro da densidade populacional do distrito financeiro. Algo semelhante acontece em diversas cidades europeias: Paris e Barcelona, por exemplo, combinam densidades urbanas elevadas com edifícios de altura relativamente moderada, em lotes contíguos que qualificam suas ruas e espaços públicos.
Então surge a pergunta inevitável: se altura não significa necessariamente mais moradores, por que existe tanto interesse em construir cada vez mais alto?
A resposta costuma ser simples: valor econômico.
Desde a invenção do elevador, as melhores vistas passaram a valer mais. Quanto mais alto, mais valorizada tende a ser a unidade — seja para moradia ou para negócios. Quando essa valorização se combina com uma boa localização, o preço sobe ainda mais. Para viabilizar a venda, surge então uma estratégia recorrente: apartamentos cada vez menores, muitas vezes com menos de 35 metros quadrados.
Pode-se pensar que este modelo de apartamento compacto abre espaço para viver individualmente em bairros valorizados da cidade com um condomínio baixo, já que concentra várias unidades. É verdade, porém há duas questões nas unidades pequenas: os valores aplicados por metro quadrado costumam ser altos e, caso as unidades funcionem assim, há uma sobrecarga no sistema de mobilidade urbana.
Essas unidades, no entanto, frequentemente interessam mais a investidores do que a moradores permanentes. Plataformas de hospedagem de curta duração tornam esses imóveis altamente rentáveis em determinados períodos do ano — durante eventos, festivais ou temporadas turísticas.
O resultado pode ser curioso: em certos momentos há um grande aumento temporário de usuários da cidade, pressionando infraestruturas urbanas que precisam dar conta de picos de demanda. No restante do ano, muitos desses apartamentos permanecem vazios, enquanto trabalhadores da cidade vivem longe, por não conseguirem arcar com os custos de viver perto do trabalho.
Balneário Camboriú oferece um exemplo eloquente. A cidade costuma aparecer nas notícias no verão, justamente quando enfrenta dificuldades para lidar com problemas de saneamento que acabam afetando o próprio litoral que ajudou a impulsionar seu desenvolvimento. Um desequilíbrio que pode comprometer o valor urbano no longo prazo, embora gere lucros significativos no curto prazo. Isso sem falar do prejuízo maior, o ambiental.
Há ainda outra dimensão pouco discutida.
Cada novo empreendimento amplia também a impermeabilização do solo urbano. Em cidades com topografia acidentada, isso significa que a água da chuva, antes absorvida por áreas verdes, passa a escoar mais rapidamente pelas ruas e sistemas pluviais. O volume e a velocidade aumentam, e os bairros situados em cotas mais baixas acabam sofrendo com inundações cada vez mais frequentes.
Ao mesmo tempo, ruas menos arborizadas e mais pavimentadas intensificam as ilhas de calor — um fator que tende a se tornar ainda mais relevante em um planeta que, tudo indica, continuará aquecendo.
Outro efeito aparece na própria forma urbana.
Para construir torres altas, respeitando afastamentos e recuos legais, são necessários grandes terrenos. Isso tem incentivado a compra de vários lotes combinados, a ocupação de antigas zonas industriais ou de grandes terrenos verdes. Atendendo a este modelo, vêm se construindo com frequência edifícios isolados no lote, cercados por muros e acessados por uma única guarita. Esse movimento tem descaracterizado bairros históricos e áreas novas sem contribuir para a qualidade da vida urbana.
Muros e cercas. É difícil imaginar algo que empobreça mais a experiência da rua.
Muitos bairros tradicionais são belos justamente porque suas ruas são formadas pela diversidade de fachadas e pela proximidade entre o espaço privado e o público. Janelas voltadas para a calçada, halls iluminando a rua, diferentes portas de entrada e saída — tudo isso cria movimento, vitalidade e uma sensação natural de segurança.
A rua viva é um dos grandes patrimônios da cidade. Pense nas cidades que visitou e gostou. Como eram suas ruas?
Por isso, talvez a discussão mais importante não seja quanto podemos construir, mas o que queremos construir.
Vivemos um momento em que fenômenos climáticos extremos se tornam cada vez mais frequentes. Ao mesmo tempo, a complexidade do sistema econômico torna a vida urbana mais cara para jovens e famílias. Essas duas pressões deveriam nos levar a discutir com mais cuidado que tipo de cidade estamos produzindo.
Por isso, talvez o maior cuidado seja não nos deixarmos seduzir apenas por imagens futuristas: fotografias renderizadas cheias de torres altíssimas, água cristalina e paisagens perfeitas.
Cidades reais são sistemas complexos. Planejá-las exige pensar infraestrutura, ambiente, mobilidade, moradia, economia e vida cotidiana ao mesmo tempo. Responder às demandas atuais e preparar o território para o futuro.
Todos queremos uma cidade vibrante.
Mas as prioridades precisam nascer das necessidades da comunidade — e não de fórmulas mágicas que dependem exclusivamente de iniciativas privadas, que acabam beneficiando poucos sem resolver os problemas reais.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

