
Primeiro edifício residencial com fachadas de vidro.
A vida imita a arte ou a arte imita a vida? O filósofo Oliver Harden, em brilhante argumentação, nos diz que as duas alternativas são verdadeiras – veja lá. Mies van der Rohe foi um desses arquitetos que tanto é fruto do iluminismo quanto inventor de uma nova forma de construir edifícios mundo afora. Só Le Corbusier, circunscrito ao urbanismo, teve poder igual. O curioso é que o primeiro era quieto, o segundo falava demais… Os dois juntos têm papel fundamental na ideologia que dominou a reconstrução das cidades a partir do final da II Guerra. Só recentemente, mas não ainda no Brasil, suas ideias começam a ceder lugar a novos paradigmas.
Como meu assunto, hoje, é arquitetura, vou ficar com Mies.
Menos é mais (less is more) é a sua frase mais famosa, até mais do que a expressão “a forma segue a função”, que é a base da Arquitetura Moderna. As duas juntas encontraram terreno fértil na sociedade que foi tão bem retratada por Charles Chaplin em Tempos Modernos (1936). Filme que, com poesia e ironia, mostra a tão sonhada vida iluminista submetida à máquina e organizada funcionalmente como linha de montagem fordista. Essa sociedade hegemônica do século XX foi substituída atualmente, não sei se para melhor, pela vida digital e virtual.
Todo edifício, sabemos, é feito por uma razão prática. No Eclético, resolver essa questão não era o mais importante para o projeto do edifício. O importante era o estilo. O programa se ajeitava lá dentro. O Movimento Moderno, pelas mãos de Le Corbusier e outros tantos vanguardistas, inovou ao colocar a solução do programa como ponto de partida de qualquer projeto.
Mies subverte essa ideia do movimento que ajudou a criar ao constranger o programa a uma rígida quadrícula modular. O edifício voltava a ser uma caixa cúbica, só que agora dentro do espírito “ornamento é crime” de Adolf Loos, já comentado anteriormente aqui. A liberdade, a arte do arquiteto, se desloca, nessa proposta, para o desenho de detalhes construtivos requintados. Para explicar melhor: o rigor técnico, o encaixe perfeito entre diferentes materiais, a escala e proporção dos vãos, dimensão e paginação dos vidros, divisórias e forros, o desenho de perfis, enfim, um design expressivo pelos mínimos detalhes e poucos elementos. Daí a palavra Minimalismo para essa arquitetura.
Uma beleza fruto da razão fria, matemática (fig. 1). É preciso olhar apurado para apreciar essa arquitetura. É fácil “não ver nada”. Em Porto Alegre, a Fundação Iberê Camargo, projeto de Álvaro Siza, como comparação, não foi projetada sobre uma quadrícula, não tem malha estrutural e é a própria expressão de um espírito livre de regras a priori.

A racionalização de Mies foi muito engenhosa, pois permitia que fábricas, de antemão, pudessem produzir todo tipo de insumo necessário para a realização das obras (pisos, divisórias, esquadrias, mobiliário, luminárias, etc., etc.) com dimensões também modulares, padronizadas. Tudo se encaixava no edifício com facilidade. Lembrem-se, a revolução industrial veio para substituir o artesanato pela produção em série. Mies demonstrou, com arte, como adaptar essa diretriz para a construção num plano ideal, de perfeição platônica.
Construir passaria a ser um jogo de armar. Projetar também. A arquitetura foi sistematizada como uma linha de montagem adequada aos rígidos padrões industriais de uma época em que ficou famosa a frase de Henry Ford: “Os automóveis podem ser de qualquer cor, desde que pretos”.
A música ocidental tem matemática na sua estrutura, mas matemática não faz música. A arquitetura tem racionalidade, mas racionalidade não faz arquitetura. Mies, enquanto artista, usou a razão magistralmente para fazer arquitetura, a sua arquitetura. Quando isso foi transformado em escola, seus seguidores passaram a usar a razão como método, como receita, e a arquitetura, como sempre foi entendida, salvo exceções, saiu perdendo.
Além do método de fazer projetos a partir de uma rígida malha quadriculada, Mies foi o inventor da transparência total dos edifícios. Os edifícios de vidro, com fachadas em curtain wall, que se tornaram tão comuns em nossas cidades (Fig. 2). O menos é mais se transformou num prisma de vidro que logo deixou de ser transparente, passando a ser preto ou marrom. E por quê? Porque a transparência excessiva é insuportável, mostra para o mundo lá fora toda a nossa falta de rigor científico no modo de viver (ainda bem!). O que se via era a bagunça interna!

Não sei dizer se foi pela simplificação da montagem das fachadas; pelo alívio no peso das estruturas e, portanto, baixo custo; pelo simbolismo de modernidade e poder que os primeiros edifícios construídos pelas grandes corporações americanas passavam, mas o fato é que essas fachadas de vidro viraram padrão construtivo mundo afora.
Com o tempo, qualquer serralheiro estava apto a fornecer, com qualidade pra lá de duvidosa, essa solução. No Brasil, significou edifícios insuportavelmente quentes, que gastam na climatização muito mais do que os construtores economizaram na obra. Já frequentei alguns em que se ouviam as conversas do andar de cima e de baixo pelas frestas deixadas entre os vidros e as vigas de concreto que separam os pavimentos. Claro, os das corporações não sofrem desse ou de outros males, são feitos com rigor técnico, mas são vilões energéticos.
Outro inconveniente é que destruíram a ideia da janela. Agora o que se vê é um imenso prisma que mais parece uma rocha. Nem contar os andares conseguimos. São edifícios que desumanizam a cidade. E seguem sendo feitos o tempo todo, com o mesmo orgulho… Desafio vocês a dizerem qual dos três prédios da Av. Ipiranga com Borges de Medeiros, em Porto Alegre (fig.3), é de moradia.

Terminei a coluna anterior falando do exibicionismo em que se transformou uma das correntes da arquitetura e agora estou falando justamente o contrário, de uma outra que resultou na ausência de arte, na padronização sem graça e ainda por cima inadequada ao nosso clima. A corrente criativa e inventiva, de gênios tipo Le Corbusier e Niemeyer, se vulgarizou, como vimos, num formalismo sem propósito. A corrente do menos é mais de Mies redundou numa total ausência de imaginação.
A verdade é que a realidade não está aí para ser moldada pelos sonhos utópicos dos arquitetos. Ela tem dinâmicas muito particulares que dependem de jogos de interesse de outra ordem. Uma sociedade venal que, mais dia, menos dia, transforma as belas invenções, sejam da arte ou da ciência, em produto de consumo para o exercício do poder, em mercadorias facilmente consumíveis que rendam bons lucros antes de mais nada. Não teria por que ser diferente com a arquitetura. Tenho tentado mostrar aqui os dois lados dessa equação. A dos que pensam e fazem arquitetura com paixão e arte e a dos que a transformam em produto para consumo e convivência naquilo que ainda chamamos de cidade.
O less is more (menos é mais) de Mies não poderia ficar sem resposta. Ela veio, nos anos 1960, em forma de rima: less is bore (menos é chato), mas isso fica para a próxima coluna.
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Foto da Capa: Acervo do Autor

