Tive o prazer de assistir, recentemente, à brilhante conferência de meu querido colega Lourival Holanda (Presidente da Academia Pernambucana de Letras), sobre os 70 anos da primeira edição de “Arruar. História pitoresca do Recife antigo”, de Mário Sette.
O verbo “arruar”, hoje em desuso, lembra a personagem baudelaireana do “Flâneur” que, ao lado do “homem da multidão”, representam a visão do autor das Flores do Mal sobre o homem moderno, situado entre o anonimato e a admiração de uma cidade que, assim como ele mesmo, o flâneur, também passa: passa na velocidade de suas mudanças, passa na rapidez dos passares (o conceito baudelaireano de modernidade: a eternidade no transitório). Arruar, diz Sette, não é “(…)ver apenas, não! É sentir a cidade, evocar seu passado, partilhar seu presente, sonhar seu futuro!”. E arremata (isto em 1948!): “Hoje já não se pode arruar direito! Corre-se pelas ruas!”.
Lourival procurou penetrar no tema por outra angulação, tentando responder às atualíssimas perguntas: “O que faremos com a cidade?” e “O que a cidade faz com cada um de nós?”, questões que nos remetem a um dilema: ser simplesmente “citadinos” ou ser “cidadãos”? No primeiro caso, sofremos a cidade, nos naturalizamos nela, circulamos nela e assumimos a mentalidade dela; no segundo, agimos, em concerto com outros homens, para definir seu destino. No entanto, a cidadania exige uma clara distinção entre o espaço privado e o espaço público (o do bem comum e da sociedade civil), um representado pela Casa, outro pela Rua. Ocorre que nas famosas “cadeirinhas de arruar”, em que escravos conduziam seu senhorio para passeios – numa espécie de minúscula carruagem com cortinas -, preserva-se a reclusão do espaço privado em que, de seu interior, o senhor ou senhora podia ver a rua, mas não podia ser visto. Como se o espaço privado pudesse entrar no espaço público, numa atitude que metaforiza tão bem o comportamento de nossas elites: impedir a visibilidade pública de suas ações, fazer do público uma extensão do privado.
Mas, se há pouco mais de um século estar no passeio público sem ser visto era um sinal de distinção e prestígio, hoje, através das redes sociais, dá-se o contrário: mesmo na privacidade (e até na intimidade) queremos ser vistos, localizados, expostos, consumidos, “viralizados”…, numa esdrúxula situação em que a rua invade a casa. No caso da “cadeirinha de arruar” temos a imposição do privilégio sobre o direito, no segundo, temos um patológico individualismo em que o destino da cidade tornou-se um tema anacrônico. Nos dois casos, eloquentes sinais de uma precaríssima cidadania!
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Foto da Capa: Ilustração sem identificação.

