Por precisarem ser abertas em suas linguagens para que possam soar devidamente onde e com quem precisam, há infinitas aproximações entre arte e psicanálise. Tantas aproximações quantas forem as personagens com elas envolvidas no calor da vida.
Uma das mais frequentes, aberta pelo próprio Freud, é apontar que a arte forjou a psicanálise e que essa não viveria sem aquela. Faz sentido. Édipo, sonhos, lembranças encobridoras, todos esses carros-chefes da psicanálise vieram mesmo da arte, por isso Freud reconheceu – e não sem uma certa inveja – que os artistas chegaram antes ao desconhecido de nós mesmos, e que tanto interessa a todos os analistas.
Acho boa essa aproximação. Outra, mas que não me parece nada boa é quando a psicanálise, com as suas interpretações, tenta desvendar a arte dizendo que é isso ou aquilo. Arte não se desvenda, porque vem de dentro, onde sempre, por mais que se pense aquilo ou isso, será um mistério inexplicável.
A aproximação de que mais gosto aponta para bem antes. Ou, inexatamente, para os primórdios da nossa existência. É pensar que toda mãe e pai precisaram ser poetas e músicos, logo artistas, para promover o desenvolvimento de seus filhos. Por isso, o “manhês” baseia-se intuitivamente no ritmo que, por sua vez, baseia-se em tons que aumentam e diminuem para cativar uma atenção que começa a sentir o mundo. Ele nos banha e nos alimenta de uma prosódia tão necessária quanto leite, papinha ou vacina, com a sua ponte entre histórias sustentadas mais por “era uma voz” do que por “era uma vez”. E, depois de ser, para continuar sendo precisará também se separar de quem ajudou a ser antes, e isso também se faz (durante, depois) com arte, entre cantigas, poemas, histórias.
Por isso, precisamos de arte não para publicar ou expor e angariar público, mas para ser no privado, onde começa um amor de que somos filhos para continuar sendo quem se é, nos amores subsequentes. Ora, a psicanálise deseja justamente saber quem somos, quem fomos, quem seremos.
Outra aproximação parecida, mas não igual, é que, no fundo, arte e psicanálise não curam. Sem esse poder, não propõem a Deus nem remédio, nem conselho, nem mapa, nem protocolo. Daí a história, entre tantas outras no mesmo sentido, do encontro entre os escritores Saul Bellow e Philip Roth. Este, mais jovem, perguntou ao mestre por que havia tanto escritor bêbado, deprimido, suicida, apesar de suas artes que se proclamavam curativas. Bellow respondeu que a arte até poderia trazer algum sol, mas, tal qual a vida, sempre haveria lacunas sombreadas pela morte.
Em meio a tantas lacunas, arte e psicanálise, mesmo que não curem, abrem espaços para convivermos com os inevitáveis tédio, vazio, tristeza. Não onde se explica, mas quando se implica. Não onde se fala, mas como se permanece junto, em silêncio, assombrados com as maravilhas nomeadas pelo outro e o desamparo inevitável de nós mesmos. Isso pode não parecer grande coisa, mas, no paradoxo a que psicanálise e arte são afeitas, isso é uma coisa enorme.
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