O Irã voltou às manchetes no último fim de semana: bombardeios, tensão, o mundo atento aos acontecimentos no Oriente Médio.
A televisão estava em volume baixo e eu passando os olhos nas notícias que saltavam aos montes no meu celular.
Portugal havia recebido aviões norte-americanos na base dos Açores. O “disse que me disse” de sempre na política, a oposição acusando o governo de não ser claro quanto ao assunto, o governo dizendo que não era nada novo e que fazia parte de um acordo antigo.
E assim, de repente, Portugal estava no meio dessa confusão toda. “Se alguém participa de uma guerra qualquer, por qualquer motivo, é parte dessa agressão”, afirmou o embaixador do Irã em Lisboa, Majid Tafreshi, cobrando explicações.
Por aqui, estamos sempre sem saber o rumo que as coisas vão tomar. É uma sensação de estar ao mesmo tempo longe e perto do conflito.
No meio disso tudo, um post captou minha atenção. A chamada era algo como “este foi o último vídeo publicado por Constance”.
Parecia algo completamente fora do contexto e, por uma curiosidade um tanto quanto mórbida, parei para assistir. O vídeo, realizado por uma produtora, havia sido publicado pela primeira vez há dois anos e republicado propositadamente naquele dia.
Foi a partir desse momento que tomei conhecimento da tocante história das Dez Mulheres de Shiraz, no Irã, todas executadas em 18 de junho de 1983. Constance era um nome fictício e representava a mais nova das mulheres mortas após a revolução iraniana e o retorno do Aiatolá Khomeini, que em 1979 estabeleceu uma República Islâmica.
O nome real desta menina era Mona Mahmoudnejad e tinha apenas 17 anos. Junto com ela morreram:
Roya Eshraghi de 23 anos;
Simin Saberi, 24 anos;
Shahin Dalvand, 25 anos;
Akhtar Sabet, 25 anos;
Mahshid Niroumand, 28 anos;
Zarrin Moghimi-Abyaneh, 29 anos;
Tahereh Arjomandi Siyavashi, 30 anos;
Nosrat Ghufrani Yaldaie, de 46 anos; e
Ezzat-Janami Eshraghi, de 57 anos.
Elas foram mortas porque acreditavam no Bahaísmo, uma fé que prega que todos os seres humanos são membros de uma única família global e que a diversidade cultural e religiosa deve ser celebrada e valorizada, enfatizando a importância da busca individual pela verdade e a liberdade de crença, sem dogmas ou clero obrigatório. Tudo o que regimes autoritários rejeitam.
Estas dez mulheres foram detidas entre outubro e novembro de 1982. Na prisão, foram submetidas a interrogatórios e torturas por parte dos Guardas Revolucionários.
A elas foi negado o direito a um advogado e a um julgamento num tribunal público. Por fim, foram executadas e enforcadas no dia 18 de junho de 1983 em praça pública sob a acusação de “sionismo”, “espionagem para Israel” e de darem aulas de forma igualitária para meninos e meninas.
Elas tinham como opção a negação da sua fé e a conversão ao Islã para escaparem da execução, mas nenhuma delas concordou. Foram mortas uma a uma e obrigadas a assistir a cada morte. No grupo havia mães e filhas.
Após este episódio, e ainda hoje, centenas de outras mulheres da Fé Bahá’í são perseguidas, enfrentando dupla discriminação: por serem mulheres e por serem bahá’ís. E pensar que o Irã já foi um país onde as mulheres eram respeitadas.
Antes da Revolução de 1979, não existia, por exemplo, o rigoroso código de vestimenta que tornou o uso do hijab obrigatório para todas as mulheres, tampouco eram pressionadas para se conformarem com as duras normas religiosas.
Ainda buscando informações sobre este episódio, vi que em Lisboa, no bairro dos Olivais, junto ao Centro Nacional Bahá’í, foram plantadas dez árvores, cada uma com uma placa com o nome de uma daquelas mulheres.
Foi uma espécie de homenagem àquelas dez mulheres, cujas mortes completaram quarenta anos em 2023. Qualquer hora quero passar por lá e conhecer esse memorial enraizado.
Espero que se tornem árvores frondosas, relembrando ao mundo que a luta por dignidade e liberdade sempre é uma luta que vale a pena.
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Foto da Capa: Reprodução de Redes Sociais

