Li Vidas Secas durante meu curso de Letras. Jurei para mim mesma que jamais voltaria a fazê-lo. Graciliano Ramos capturou minhas entranhas descrevendo a morte de Baleia. Adentrou na doença, na incompreensão da brutalidade gratuita e no amor supremo da personagem pela família e por Fabiano. Seu céu tinha um Fabiano gigante, cheiro de comida na brasa e um monte de preás. Quis morder seu dono, mas o amava incondicionalmente. Os alimentou, os acompanhou e os amou até o fim em sua lealdade. Baleia passou por sua Paixão. Foi sacrificada, morreu sozinha e teve os olhos devorados por urubus.
Baleia segue morrendo a cada nova leitura. Hoje, sexta-feira, 13/06/2025, dia de Santo Antônio, tive coragem para reler o trecho. Chorei mais do que da primeira vez. Mas a coragem de refazer a leitura não veio de um ímpeto próprio. Houve hoje uma morte diferente do texto que me provoca distensões de pensamento. Uma morte que não me fez pensar em meu próprio momento de passagem. Uma morte que não me fez lembrar daqueles que amo incondicionalmente e de como seria capaz de perdoar tudo da parte deles.
Hoje, fui a uma formação para professores de linguagens promovida pela secretaria de educação do município onde trabalho como professora da educação básica. O tema era Inteligência Artificial na aula de linguagens. Os palestrantes eram três jovens que se apresentaram como estagiários da área de Tecnologia da Informação. O grande guru deles não era Graciliano Ramos. Era com certeza o Steve Jobs: camisa preta, calça jeans e tênis. Todos os três portavam o hábito do sacerdote fundador de um império de almas capturadas. E o porta-voz – o único que falou durante as duas horas que estivemos ouvindo – justificou a importância do tema com a seguinte frase: “Vocês têm que saber usar a IA porque isso é o futuro, e, se vocês não aprenderem, vão ficar pra trás.”
Tem início então o desfile caótico de cliques e comandos capazes de produzir teses, slides, mapas conceituais. Para exemplificar este último recurso, o jovem Steve Jobs apresentou uma IA capaz de fazer resumos em segundos de arquivos PDF robustos. E o exemplo que ele utilizou foi justamente um arquivo de Vidas Secas transformado em mapa conceitual. Setas, frases curtas, fichamento eficiente elencando análises com tópicos, e em nenhum deles havia uma citação do nome de Baleia. Nem mesmo na lista de personagens principais. Os professores reagiram. Disseram que um texto literário não era para ser reduzido a mapas conceituais e resumos. Nos cobram alunos leitores. Como faremos isso a partir de um resumo que não foi feito da leitura do texto pelo próprio ser em formação?
Baleia conheceu a pior morte. A do esquecimento pelo algoritmo. Elogiada por sua eficiência, a IA é programada por seres humanos que aparentemente a alimentaram para ignorar personagens encarnados em animais, pois animais não podem fazer parte do coro de protagonistas. Sem Baleia, não há Vidas Secas. Sem Baleia, símbolo de resistência e sonho mesmo quando tudo se apaga, quando já se vê apenas o escuro eterno, a vida da família é reduzida a palavras vazias, balbuciadas a esmo. Mais uma família de retirantes qualquer. Um número estatístico e um dez na prova. Tarefa cumprida, danem-se as Baleias, os Fabianos, as Siás Vitórias, os meninos mais velhos e os mais novos também!
A morte que se repete na literatura me acompanha desde a primeira vez que a li. Nunca precisei voltar ao material do texto, pois Baleia morrendo seguiu comigo assim como seguiu com Fabiano, que não conseguia esquecer do tiro de misericórdia que lhe coube dar. Disse ao jovem formador que se tratava de um resumo mal feito e que eu daria zero caso meu aluno não citasse a personagem. Essa morte da inexistência, do não lido, do não vivido, do esquecimento me foi demais para suportar. O texto estava lá. Baleia estava a um passo – ou clique – de ser redescoberta e quem sabe fazer mais alguém sentir o cheiro de sangue ao ler as páginas de Graciliano Ramos. Mas por que perder tempo lendo quando a máquina e seu código binário podem fazê-lo para mim? Lembro que, em minha adolescência, conseguir um arquivo de um texto literário na íntegra não era tão simples assim. O acesso ao texto em segundos já é uma realidade. Escolheu-se dar à máquina a chance de se subjetivar e nos devolver algo morto, estéril. Fui severa em dizer que daria zero? Sim, com certeza. Ficarei para trás? Sim, com certeza. Mas isso não me causa angústia. Baleia também ficou para trás. Fico com ela e com seus sonhos de brincar no barro com os meninos.
Rahissa Lima é professora da educação básica e doutoranda em Filosofia da Educação pela UFPE. Apaixonada por literatura e jardins.
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Foto da Capa: Baleia, na reprodução do filme Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos.

