Outro dia, eu vi uma publicação em uma das minhas redes sociais. Não lembro qual o perfil que a postou, nem de quem é o autor ou autora da reflexão, mas o texto dizia que o ciúme sentido pelas mulheres é diferente do ciúme sentido pelos homens. Segundo a postagem, para muitas mulheres, o ciúme não nasce do desejo de controlar, mas do medo. Medo de não ser suficiente. Medo de ser esquecida. De ser trocada por outra mais jovem, mais bonita, mais magra, mais qualquer coisa. É um ciúme que atravessa séculos de comparação entre mulheres, ensinadas a se verem como inimigas, não como aliadas.
Desde sempre, fomos colocadas lado a lado como quem mede carnes na feira: essa tem mais, aquela tem menos. A beleza, o corpo, o comportamento, o desempenho. Concorrer virou instinto de sobrevivência. Em O Calibã e a Bruxa, Silvia Federici revela como o corpo da mulher se tornou, historicamente, um campo de controle e apropriação. Não apenas pelas instituições, como Estado e Igreja, mas também nas relações íntimas, domésticas, cotidianas:
“O corpo das mulheres foi transformado no principal terreno de apropriação, pois era sobre ele que se fundamentava a reprodução da força de trabalho. […] O controle da sexualidade feminina tornou-se, portanto, uma exigência fundamental.”
Desse modo, é possível entender como o ciúme masculino opera. Há séculos, ele é endossado pelo patriarcado e, com isso, funciona como uma ferramenta de dominação sobre as mulheres. Por nascer da posse, do controle, da crença de que a mulher lhe pertence, o ciúme masculino pode se transformar em violência e, não raramente, em morte. E aí vem a explicação do motivo de tantos homens matarem suas companheiras. Não é por amor, como há muito tempo se ouviu dizer, mas por não suportarem perder aquilo que acreditam ser seu.
Esse cenário não está restrito às estatísticas ou às manchetes trágicas. Ele transborda para a literatura. A violência contra as mulheres, alimentada por esse ciúme possessivo travestido de afeto, encontra na ficção um espelho e, também, uma forma de resistência. É nesse contexto que Vespeiro, livro publicado em 2023 pela Darkside, da gaúcha Irka Barrios, mergulha nos horrores que permeiam o universo feminino.
Vespeiro reúne trinta histórias intensas, marcadas por brutalidade, inquietação e imagens que incomodam. Tudo se encaixa com uma precisão feroz, como se o livro fosse tecido com garras. Irka dá vida a personagens que não aceitam passivamente a violência. Elas reagem, resistem e enfrentam um mundo que insiste em ser injusto e cruel com as mulheres.
O livro inteiro é maravilhoso. A escrita da Irka é fantástica e por isso ela merece ser reconhecida, porém, eu quero falar aqui apenas de um dos seus contos, aquele que me trouxe essa reflexão sobre o ciúme. Iara ou Ísis, Isamara ou Isadora, é a história de um homem que compra uma boneca inflável e passa a tratá-la como sua companheira. No início, ele é carinhoso, amoroso e cuidadoso com a sua amada: leva café na cama, dá banho e cozinha para ela. Negocia férias no trabalho para viver uma lua de mel. Como não se decide pelo nome que daria à boneca, alterna os nomes pelos quais chama a sua amada. Ela tanto pode ser Iara, Ísis, Isamara ou Isadora. Isso pouco faz diferença.
Quando Eustáquio (esse é o seu nome) precisa retornar ao trabalho, a insegurança começa a lhe perseguir. Ele passa a desconfiar que a boneca está lhe traindo e se incomoda em deixá-la sozinha em casa. Com isso, ele começa a tratá-la com hostilidade e violência, culpando-a pelo que está sentindo.
A princípio, o conto pode parecer absurdo, até cômico. Mas, à medida que avançamos, o riso cede lugar ao incômodo. Porque Eustáquio, mesmo diante de um corpo inerte, projeta seus delírios de posse, de controle e de traição. Ele ama, cuida, idolatra, até que se sente ameaçado. E, como tantos outros, reage com violência. O que Irka Barrios nos mostra com essa narrativa, envolta em ironia e crueldade, é que o ciúme masculino não precisa sequer de uma mulher de verdade para se manifestar. Basta a ideia de que algo lhe pertence para que o instinto de dominação se acenda.
Aquela postagem esquecida nas redes sociais, que à primeira vista parecia apenas uma provocação interessante, ganhou outra dimensão depois da leitura deste conto. O ciúme sentido por homens e mulheres pode até carregar o mesmo nome, mas nasce de lugares distintos. Enquanto o das mulheres frequentemente emerge da insegurança plantada por uma sociedade que as ensina a se verem como rivais, o dos homens brota da certeza de que são donos. E é essa certeza que continua matando.
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Foto da Capa: Divulgação

