“As leis são como as salsichas, é melhor não ver como elas são feitas.”
Otto Von Bismarck (1815-1898)
Numa noite muito fria do mês de janeiro de 1297, alguns monges bateram à porta da fortaleza de Mônaco, a qual pertencia à família de um genovês chamado Otto Canella, e imploravam que, pelo amor de Deus, lhes dessem abrigo, pois estavam a morrer de frio e fome.
Os guardas, apiedados, abriram os ferrolhos e os falsos monges, exibindo sua tonsura para parecerem autênticos religiosos, entraram em companhia de outros membros da família Grimaldi. Logo empunharam suas espadas antes ocultas sob as batinas e assassinaram toda a nobre família genovesa que, proprietária do castelo, lá instalou a dinastia dos Grimaldi, que até hoje reina naquele tão encantador quanto falso paraíso fiscal e famoso antro de jogos de azar.
Esses fatos são exibidos claramente no brasão de armas da Casa Grimaldi, onde são vistos dois monges (Mônacos) empunhando uma espada e segurando com outra mão a ponta do referido brasão da família, a qual se iniciou com um episódio de horror homicida utilizando signos religiosos para tal horrenda tarefa.
Assim, o ato fundador do charmoso principado que hoje é exibido como um paraíso terrestre, foi iniciado com uma infernal noite de brutais assassinatos. Na ocasião, o último a ser executado foi Otto Canella que, ajoelhado, suplicou clemência. Os executores responderam que lhe dariam e que, em vez de o degolar, lhe permitiriam que se jogasse do alto do penhasco onde se assentava o castelo que até hoje lá se encontra e é visitado por fascinados turistas de todo o mundo ocidental e cristão.
Assim pensando e extrapolando metaforicamente, a adoção e o cumprimento de leis historicamente consagradas podem ser interpretados como atos usurpadores, fundados pelos que possuíram, no momento, o domínio do poder.
A violência por meio da qual as leis se sustentam deve ser ocultada a qualquer custo, porque tal ocultamento se constitui na própria condição do seu funcionamento. E só funciona enquanto seus súditos estejam enganados, as obedeçam e as respeitem como autênticas, inamovíveis e eternas, e ao mesmo tempo ignorem a verdade sobre o ato inicial e usurpador que as fundou.
Ao citar Kant, Zizek afirma que na metafísica dos costumes se proíbe explicitamente não somente a sondagem das origens do assim nomeado poder legal, como também esta exploração nos coloca, a priori, às margens dos referidos costumes de convivência social.
Não podemos pensar, crer e denunciar que muitas leis vigentes se originaram de atos violentos e, ao mesmo tempo, viver sujeitos a elas.
Enfim, quando as leis são reduzidas às suas origens, ausentes de leis, fica suspensa toda sua validade e a obrigação do seu cumprimento.
É como na fabricação de salsichas: se vemos como elas são elaboradas, não as comeremos.
Pelo menos, assim pensava o sisudo e autoritário estadista prussiano Otto Von Bismarck (1815-1898), conhecido como o Chanceler de Ferro.
Franklin Cunha é médico e membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
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Foto da Capa: Mônaco / Vincent Gerbouin / Pexels

